Suspensão da merenda prejudica cooperativas de pequenos agricultores

Publicado em: 20 maio - 2020

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Não são apenas os alunos e suas famílias que estão sofrendo as consequências da interrupção na entrega de merenda escolar, desde o início do isolamento social causado pelo novo coronavírus. Quem também está sentindo os efeitos do corte são os agricultores que produzem os alimentos para a merenda, principalmente os pequenos produtores associados a cooperativas no interior do Estado. 

É o caso, por exemplo, da Cooperativa Central do Vale do Ribeira (Cooper Central VR), que representa nove cooperativas singulares de bananicultores. “Numa situação normal, fornecemos para cerca de 3 mil pontos de distribuição na grande São Paulo uma média de 200 a 300 toneladas de banana, por semana; mas neste momento estamos com a produção praticamente parada por causa da situação provocada pela pandemia”, ressalta o presidente da Central, Rafael Grothe. 

O consultor de agronegócio do Sescoop/SP (Serviço de Aprendizagem do Cooperativismo), Marcos Valentini, chama a atenção para o número de famílias atingidas. “Apenas nesse caso da Central VR, já são cerca de 1.300 cooperados. Ou seja, 1.300 famílias de pequenos produtores sofrendo os prejuízos provocados com o fim da entrega das merendas às escolas”. 

O governo de São Paulo substituiu as compras públicas de alimentos para a merenda escolar, provenientes da agricultura familiar, por um voucher de R﹩ 55,00 para cada aluno da rede pública de ensino. “A medida, no entanto, não reverte em renda para os pequenos agricultores, uma vez que as famílias desses alunos acabam gastando o voucher nos mercados”, observa Valentini. 

De acordo com o consultor, só no estado paulista há 31 cooperativas legalizadas, com 2.250 agricultores associados que estariam aptos a fornecer alimentos para merenda escolar de 150 municípios, mas estão impedidos pela circunstância. 

Para a presidente da Cooperativa dos Produtores Agropecuários de Dracena (Coopadra), Gislaine Oliveira, se o fornecimento de merendas não for retomado em até 60 dias, a cooperativa deixará de existir. “Não teremos condições de mantê-la”, afirma a presidente, que entre outras medidas adotadas para combater a crise reduzirá a jornada de trabalho dos empregados. 

Com 111 pequenos produtores associados, a cooperativa é responsável pelo fornecimento semanal de até 10 toneladas de alimentos entre frutas, legumes, verduras e leite, para a produção de merenda escolar em 15 municípios da região. 

O consultor do Sescoop/SP afirma que a retomada da merenda escolar contribuiria também para melhorar as condições de vida nas comunidades do entorno das cooperativas, principalmente agora na crise. “Com os recursos da merenda, os produtores das cooperativas têm condições de movimentar a economia de suas localidades, beneficiando outras famílias”, observa ele. 

O Fórum Paulista do Agronegócio, que representa 42 entidades do setor, expôs a situação em ofício enviado ao governador João Doria. Entre as medidas propostas, o Fórum pede que o Estado reative a merenda por meio de recursos já liberados do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), vinculado ao Ministério da Agricultura e Abastecimento. 

Edivaldo Del Grande, presidente da Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo (Ocesp) – uma das entidades ligadas ao Fórum -, reconhece a importância das medidas tomadas até aqui pelo governo para combater a pandemia, mas quer uma atenção especial aos pequenos agricultores. “O governo poderia repassar já os recursos do PNAE às prefeituras, orientando para que os prefeitos organizem as compras de alimentos e a entrega das merendas, tomando os devidos cuidados sanitários. Uma das possibilidades é transformar a merenda numa espécie de cesta básica verde, com alimentos saudáveis, que beneficiariam as famílias dos estudantes e também os agricultores”, sugere Del Grande. 

Segundo a Ocesp, a maioria das prefeituras ainda não está sensibilizada para resolver o problema. Uma das exceções é o município de São José do Rio Preto, que mesmo durante a pandemia tem conseguido manter a merenda funcionando com produtos adquiridos de cooperativas de pequenos agricultores. 

Uma iniciativa da prefeitura, de substituir a merenda escolar tradicional pela entrega semanal de kits com alimentos perecíveis e não perecíveis às famílias dos 41 mil alunos da rede pública de ensino, é o que tem garantido à Cooperativa Agrícola Jales destinar pelo menos 40% do que fornecia da produção de frutas para a cidade. “Não fosse isso, a situação estaria pior”, avalia Rogery Marques, agrônomo da cooperativa. 

Já na Cooperiopreto, que produz folhas e tubérculos, desde então o volume de produtos fornecidos à prefeitura aumentou. De acordo com o consultor da cooperativa, Fernando Zanchini, a quantidade agora é de 10% a 15% a mais, por semana. Isso porque a prefeitura tem comprado produtos para atender a outros programas municipais além da merenda escolar, como o de assistência a pessoas em situação de vulnerabilidade social. 

O prefeito de São José do Rio Preto, Edinho Araújo, afirma que o sucesso do modelo atual é reflexo de ajustes na gestão desde 2017, quando a prefeitura implantou o programa ‘Alimenta Rio Preto’ para abastecer toda a rede socioassistencial vinculada ao município. 

“Centralizamos todas as compras públicas de alimentos na Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento, o que tem nos proporcionado agilidade e efetividade no atendimento”, explica Edinho, orgulhoso do bem-sucedido modelo, que desperta o interesse de cidades vizinhas. 

Segundo o prefeito, o formato é abrangente e estimula a economia local. “Aqui, nós valorizamos os pequenos produtores rurais da região, comprando de suas cooperativas, e conseguimos assistir a contento a população mais vulnerável”.


Fonte: Ex-Libris Comunicação Integrada



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