Educar governos, autoridades e universidades sobre o maior e melhor modelo de negócios do mundo, a missão cooperativista hoje – por José Luiz Tejon

Publicado em: 29 novembro - 2018

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Fica aqui uma questão intrigante. Por que um modelo de negócio que movimenta cerca de US$ 2,2 trilhões, emprega 250 milhões de pessoas, tem um bilhão de membros e é considerado um dos principais exemplos da obra “Re-Imagining Capitalism(1)”, é tão pouco conhecido da população brasileira?

As cooperativas do mundo são maiores do que todo o PIB do Brasil, por exemplo. Significam o maior negócio, quando reunidas, de todo o planeta. Mas não é esse tamanho, que por si só, nos remeteriam à questão acima, o espetacular diferencial do cooperativismo está exatamente no que o capitalismo consciente hoje aponta:
1) O longo prazo determinando as decisões, acima do curto prazo;
2) O futuro para as organizações bem sucedidas indicam a saudável integração dos “stakeholders”, prevalecendo sobre as ambições dos “shareholders”;
3) A Universidade de Harvard, na lista dos melhores Ceo’s do mundo, alterou os critérios e novas métricas começaram a ser contabilizadas como responsabilidade social corporativa, sustentabilidade e resultados a longo prazo;
4) Os impactos sobre a comunidade contam e a ética com a qual toda rede envolvida no seu sistema de negócio é educada para prosperar junto.

O livro “Re-Imagining Capitalism” é um marco teórico divisor de águas. Ali está o “design thinking” de um futuro que já está no presente. Os exemplos estudados e as pesquisas realizadas pela Mckinsey revelam a história do capitalismo, os distintos modelos de capitalismo, e indica que nesse novo “norte capitalista” a consciência e a responsabilidade humana serão condição “sine qua non” para o sucesso de qualquer empresa, com ou sem fins lucrativos. Restabelecer a confiança nas organizações, e responsabilizar os empreendedores empresários por suas missões de elevação da qualidade de vida na Terra, bem como diminuição das desigualdades, não significará mais uma questão de opção. Ou fazer de conta que assim atua, sem de verdade atuar. A informação e os mecanismos de vigilância, e a comunicação mediática e imediática contornam e fazem o “re-shape” do globo e da vida.

O capitulo cinco desta obra foi escrito por Monique Leroux, com certeza muito conhecida de todas as lideranças cooperativistas no mundo, pois preside a ACI (Aliança das Cooperativas Internacionais). Ela revela a segurança dos bancos de cooperativas no meio das piores crises, como a de 2008, e tudo isso conectado à real filosofia da gestão de um modelo cooperativista: “risk-averse”.

Aversão ao risco

As cooperativas são muito mais resilientes em comparação a outros modelos, e as explicações estão no “DNA” dessa organização:
1) Governança democrática pelos membros donos, o que assegura visão de longo prazo e preservação dos stakeholders. Estão distantes das maximizações de lucros a cada quadrimestre;
2) Praticam os valores da evolução de todos os seus membros e das comunidades que as circundam;
3) Se por um lado esse modelo torna mais lentas as decisões, por outro assegura a criação de valor a longo prazo e sustentabilidade, um modelo exemplar para o século 21.

As cooperativas estão em todos os setores, desde pequenas a gigantescas. A Desjardins Group, definiu sua missão desta forma: “um modelo de negócio cuja filosofia é servir e não lucrar”. Esta cooperativa tem sete milhões de membros e clientes, com US$ 250 bilhões de ativos. Da mesma forma Rabobank. O “core value” predominante nessas organizações foi inspirada por um dos fundadores, Raiffeisen, em 1862, que registrou os valores como “auto ajuda, auto governança e sustentabilidade, com um objetivo em comum: o permanente progresso econômico”.

As metas da ACI são “fazer do cooperativismo o modelo mais veloz de crescimento do mundo até 2020 e ser um líder global econômico, social, ambientalmente sustentável”.

A liderança democrática (quem já viu uma assembleia de uma cooperativa brasileira, como tive a chance de ver, fica entusiasmado), servir aos “stakeholders”, a visão sistêmica de cadeia de valor e de comunidade (toda cidade onde existe uma boa cooperativa a qualidade de vida é superior em todos os sentidos). Há desafios também, e muitos. O principal deles explicitado no título deste artigo. É necessário comunicar intensamente os valores e os fundamentos do cooperativismo para que venha a ser plano de governo. Educar autoridades, universidades e governos. E eu acrescentaria, educar toda a sociedade de um País, para a dignidade que esta autodeterminação, que se afasta da vitimização e do ‘assistencialismo’, permite à humanidade.

Ao revermos a história do capitalismo, ao olharmos a desconfiança com que é olhado hoje, por não ter conseguido fazer a base da pirâmide mundial sair das zonas de miséria, e ao nos encantarmos com essa obra de leitura obrigatória, ali encontramos exatamente as cooperativas e o cooperativismo, fundamentado nas suas legitimas raízes de dignidade para prosperar em grande escala, e lutando para não deixar gente pra trás, como modelo mestre.

Dessa forma termino este artigo apaixonado e carregado de realistas esperanças, da mesma forma como Monique Leroux o encerra: “as empresas cooperativas são o modelo de negócio para o século XXI”, seja a sua empresa uma cooperativa ou não.

Agora, além das iniciativas de intercooperação, além de um cooperativismo multinacional com cooperativas de várias partes do mundo buscando negócios sinérgicos entre si, é necessário sim, educar toda a sociedade.

No Brasil, dados da OCB, apontavam para cerca de R$ 350 bilhões de movimento financeiro e em torno de 14 milhões de brasileiros envolvidos diretamente. Da mesma forma, o maior negócio brasileiro dentre todos os demais. E não falamos disso com a sociedade. Apenas entre nós. Tem algo a ser mudado nisso.

Está na hora da percepção fazer jus à essa nobre e boa realidade. Hoje o Brasil precisa mais do cooperativismo do que o cooperativismo do Brasil. Sr. Presidente da República, senhores dos poderes constituídos, não percam a hora. Façam das cooperativas parte vital do engajamento e da evolução da dignidade do povo brasileiro. Para todos, e agora.

 

* Jose Luiz Tejon é doutor em educação, mestre em arte e história da cultura e professor de MBA na Audencia Business School (Nantes/França)
(1) Re-Imagining Capitalism, Barton, Horváth, Kipping e autores (Oxford University Press, 2016).

 

 



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