Liderança, empreendedorismo e cooperativismo no agronegócio do futuro – José Luiz Tejon Megido

Publicado em: 03 maio - 2018

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A Organização das Nações Unidas (ONU) traçou 17 objetivos de desenvolvimento sustentável, mas, para que possam ser realizados, existe algo acima de todos eles: a liderança.

Esses objetivos formam uma corrente com elos que precisam ser alinhados e liderados, portanto, nesta arena complexa da liderança em um planeta fragmentado, carente e ardorosamente ansioso por líderes, visões, valores e missões que nos conduzam ao futuro, e não distante, 2030.

Numa conferência com líderes executivos do mundo todo realizada no Insead, em Fontainebleau, na França, concluiu-se que as mudanças contemporâneas são gigantescas, como, por exemplo, as demandas por sustentabilidade e valores em uma era disruption com a ciência, além da progressão exponencial, criativa e inovadora. Consumidores com empowerment por redes sociais, competitivos e impactados pela transversalidade (mudanças vindas de onde não se imaginaria e nem se esperaria) e com algo que chamou a atenção de todos: foco naquilo que ainda não se sabe.

O desconhecido e invisível hoje irá nos impactar de maneira muito mais poderosa do que aquilo que já se sabe, e isso vale para todos os agentes de uma cadeia produtiva, tanto na ciência e tecnologia dos fornecedores, quanto na produção agropecuária propriamente dita, além do pós-porteira das fazendas, no processamento, distribuição e serviços dos derivados das matérias-primas vegetais e animais, das entidades de defesa dos consumidores, a mídia, a política, e nas mais diversas manifestações da sociedade civil organizada.

Com certeza, o novo sinônimo para o agronegócio em 2030 passará a ser saúde em todos os aspectos. Saúde animal, vegetal, do planeta, a de quem produz e a saúde humana. Iremos ingressar em algo mais amplo e maior do que a visão econômica, financeira ou tecnológica do agronegócio. Será o caminho para uma agrossociedade.

Dentre os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU, o primeiro é a erradicação da pobreza, isso demanda liderança empreendedora e cooperativista. Incomoda observar que, onde tem miséria, não existe cooperativismo. E onde tem desenvolvimento, IDH elevado, ali tem uma cooperativa bem liderada. Boas cooperativas não existem sem liderança exemplar.

Os demais objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU pedem e exigem competências de liderança. Os três últimos deles, talvez os mais sofisticados, sutis e vitais são os que clamam por um poderoso refinamento de talentos, de compreensão, do fazer pela causa e de colocar a mesma num patamar extraordinariamente mais evoluído do que interesses menores, de grupos, facções, ou mesmo de países, continentes e de nações.

Dentre os objetivos, o 15º cita a vida sobre a terra, o proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres; gerir de forma sustentável florestas; combater a desertificação; deter e reverter a degradação da terra e deter a perda da biodiversidade.

Paz, justiça e instituições fortes é o tema do 16º objetivo. Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionando o acesso à justiça para todos e construindo instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis.

O 17º fala sobre a parceria em prol de metas – fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável.

Esses três últimos ODS resumem e reúnem os mais elevados desejos e consequentemente sacrifícios de seres humanos, para elevar a ordem da humanidade a patamares muito superiores aos que temos hoje. Isso só será feito com renovação dos espíritos, a educação para a autêntica liderança.

Grandes líderes são empreendedores. Criam e transformam lixo em luxo. Onde não havia nada conseguem ver riqueza, evolução e qualidade de vida. No agronegócio brasileiro, casos de líderes visionários, como Cirne Lima, que viu uma Embrapa e seus potenciais efeitos, e a fez nascer no início dos anos 1970.

Em seguida, abria uma trilha que atraia mais autênticas lideranças, com o forte poder gravitacional que somente as poderosas causas possuem. Enxergavam e tocavam antes e traziam o futuro ao valor presente. A liderança que nos levará ao futuro tem competências educadoras e pedagógicas. Paulo Freire resumiu: “o que pode ser feito agora para que se faça amanhã o que hoje não pode ser feito”.

O empreendedorismo significa o poder de condução humana por meio da arte do indivíduo. Conheci, trabalhei e convivi com três espetaculares líderes empreendedores: Shunji Nishimura, fundador da Jacto; Antônio Secundino de São José, fundador da Agroceres; e Ney Bittencourt de Araújo, que foi presidente da Agroceres e da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), líder e pioneiro no Brasil do conceito de agribusiness.

O mundo mudou. O futuro não será mais o resultado do presente. Velocidade é o nome do jogo que muda a todas as mutações. Para irmos a 2030, não podemos esperar por ele. Agora o presente vira o resultado do futuro.

Qual o desafio do futuro? A liderança empreendedora não é suficiente.   O mundo cresce a cerca de quatro nascimentos por segundo.

Não teremos mais empregos, e vamos para a era das startups, do empreendedorismo. Mas, a dignidade precisa ser para todos. Não apenas para 1% ou 10% da humanidade. Precisa ser “4all”, para todos.

Os bebês já nascerão empoderados com as redes sociais, midiáticos e imediáticos. Uma nova geração instantânea, precoce e que inunda e irriga os seus neurônios para a busca de qualidade de vida, não importa onde nasça ou onde esteja. Uma geração do “Eu quero, eu posso, eu pego”. Ninguém quer ser pobre, deseja sucesso. Como entregar isso para a imensa maioria da população que caminha inexoravelmente para os 10 bilhões? A ciência conectada com a sensorialidade explodindo no agronegócio.

É possível imaginar o chef Erick Jacquin, do programa MasterChef, conversando através de weareables (tipo google glasses já  usados numa linha de produção de uma montadora de máquinas agrícolas – que viram robots.), ou algo instalado sob a pele, com o master genetic chef, que editou os genes da última abóbora gourmet do planeta. Imagine esse diálogo sincronizado ainda com o superagricultor que a cultivou.  As pontas da neurosensorialidade com a genialidade genética e o food design fascinando o futuro.

Isso é lindo, ao brincarmos de Júlio Vernes do século XXI. Mas o desafio das lideranças para o agronegócio do futuro, de 2030, será romper a barreira do “para poucos” e criar potencialidades “para muitos”. Ou idealmente “para todos”. Isso vale em todos os cantos de cada elo de cada cadeia produtiva de todo agronegócio. Vamos ter mais produtores e não menos. Vamos ter mais pesquisadores e não menos. Vamos ter mais processadores e não menos. Vamos ter mais distribuidores e não menos. O mundo não suportará conviver com a impossibilidade da criação e da distribuição da riqueza. Produção e consumo serão criados pelo mesmo fio da interdependência.

Vamos demandar lideranças cooperativistas sólidas na jornada ao futuro. Sucessores e jovens educados para a missão. Hoje são cerca de 3 milhões de cooperativas no mundo. Representam US$ 3 trilhões de resultados econômicos, e a líder da Aliança Internacional do Cooperativismo, que já teve o brasileiro Roberto Rodrigues no seu comando, diz: “não podemos mais ficar silenciosos”. No Brasil, Márcio Lopes, presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) registra: “representamos 50% de tudo o que é produzido, mais de 1 milhão de cooperados . Uma receita de R$ 180 bilhões, e 13,5% de todo PIB do agro.”

As lideranças com firme filosofia cooperativista são suportadas e suportam suas organizações por meio da educação persistente e permanente, rigor administrativo financeiro e uma legítima democracia.

No lado da liderança empreendedora em organizações não cooperativas, basta prestar atenção nos novos critérios de Harvard, para se chegar à lista dos 1.000 maiores CEOs do planeta. Valores como responsabilidade social corporativa, sustentabilidade, lucros de longo prazo e longevidade no posto passaram a contar a partir de 2016, incluindo métricas até então desejadas, mas que não eram contabilizadas.

Quem lidera o líder? A sua compreensão da missão. A causa superior que determina a cada instante suas decisões e escolhas.

2030 será aquilo que nossas lideranças conseguirem realizar conscientes da vital liderança de cadeias produtivas, acima de cada um dos seus elos. Isso é agronegócio. São os responsáveis pela educação da sociedade, tanto na sua nutrição e saúde, como nas lutas antidesperdício, ao lado da capacitação exponencial dos novos produtores e produtoras rurais. Ou que ainda estejam eles nas agriculturas verticais dos centros urbanos, e sejam eles de quaisquer tendências de forma de produção, que desejem ser em função de nichos e de multissegmentações de mercados finais.

2030 – o agronegócio será uma montadora agrotecnológica de sustentabilidade intensiva. O líder para essa viagem ao futuro será exigido como um ser humano que reúna oito dimensões interligadas: coragem, confiança, cooperação, criação, consciência, conquista, correção e caráter.

Quem constrói um caráter, constrói o destino. A liderança terá ainda como força motora e desafiadora a luta pelas percepções humanas. Realidades são aquelas que percebemos. Uma liderança empreendedora e cooperativista não existe para fazer o que os liderados desejam, e sim para juntos fazerem o que precisa ser feito.

E será mandatório para liderar obter autorização moral e interpretar a ética. Isso será o fator sine qua non, nas decisões entre “poder fazer” x “dever fazer”.

O Brasil em 2030 poderá ser a plataforma mundial de segurança alimentar e da sustentabilidade, um agente fundamental para a obtenção com êxito dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU.

Como? Por meio de sua liderança, fator crítico sagrado para seu sucesso.


José Luiz Tejon Megido, mestre em Arte e Cultura pela Universidade Mackenzie, e Dr© em Ciências da Educação pela UDE – Universidad de la Empresa, no Uruguai. Professor convidado da Audencia Business School – França (Master Science em Food Management), Coordenador Acadêmico de Programas da FGV In Company



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