Cooperativas de crédito aderem em peso ao Pix

Publicado em: 19 novembro - 2020

Leia todas


Coerente ao seu perfil de vanguarda, as cooperativas de crédito aderiram em peso ao lançamento, na última segunda-feira (16), do Sistema Brasileiro de Pagamentos Instantâneos (PIX), no qual detêm participação majoritária (85%), de um total de 619 participantes – que incluem outras 47 instituições de pagamentos e seis fintechs.  

Embora, na prática, substitua os antigos TED e DOC, tarifados – o PIX não deverá alterar o atual quadro de concentração bancária, sobretudo no mercado de crédito e de depósito de clientes, a despeito de este ter ganhado capilaridade, apontam especialistas. Reforça essa tese o fato de que boa parte das instituições que aderiram ao PIX já atuavam nesse mercado de pagamentos, mediante a oferta de TED, DOC e boletos, por exemplo.

 Somente no longo prazo, alegam os experts, será possível reduzir de forma substancial tal concentração, por meio da migração de clientes de bancos maiores para menores. Em contrapartida, o economista-chefe da consultoria Análise Econômica, André Galhardo, acredita que o novo sistema deverá acirrar a competição, mas não no curto prazo. “Vejo com bons olhos o esforço do Banco Central, no sentido fomentar a concorrência nesse mercado, mas a concentração atual não deverá se modificar no curto e médio prazos”, adverte. 

A possibilidade de isonomia em relação aos bancos foi o que levou as cooperativas a aderirem em massa ao PIX, segundo o superintendente de Soluções Corporativas do Sicoob, Angelo Curbani. “Sempre há dúvidas sobre se a cooperativa oferece cartão da bandeira X ou Y, onde o cliente poderá sacar dinheiro se abrir uma conta. Com o PIX, as coisas ficam mais fáceis, especialmente com a opção de saque em varejo (só disponível em 2021)”, afirma.

A combinação entre o novo sistema de pagamentos instantâneo com o open banking – plataforma pela qual o cliente pode compartilhar dados e estudar as linhas de crédito mais acessíveis – certamente contribuirá para dotar as cooperativas de maior poder de competição. “Não haverá mais diferença entre a conta em uma cooperativa e outra, de um banco, que terão a mesma facilidade de acesso pela clientela”, analisa Curbani, acrescentando que as cooperativas têm como vantagem comparativa “oferecer melhores condições e preços, inclusive em locais sem interesse para os bancos”.

Modelo distinto

Por possuírem um modelo de negócios distinto, as cooperativas não são atrativas para fins de aquisição pelos bancos, como as demais, pontua Curbani. “Sempre vemos instituições que crescem e são compradas em seguida, isso não ocorre no cooperativismo”, exemplifica. O analista econômico da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Thiago Borba, por sua vez, avalia que a ‘adesão em massa’ das cooperativas ao PIX decorre da constatação de que “os clientes vão descartar automaticamente a instituição que não oferecer o serviço desejado”. 

Enquanto isso, Galhardo observa hoje no país um movimento vigoroso, em especial, dos cinco maiores bancos para ‘abocanhar’ instituições menores, eliminando a concorrência direta e inviabilizando um processo mais consistente de desconcentração do mercado financeiro. “Atualmente, grandes instituições respondem por 80% do mercado de crédito. Ao menor sinal de que uma [instituição] menor está crescendo, ela é comprada”, aponta.

O professor do Insper, Michael Viriato, assinala que o PIX, sozinho, não será suficiente para mitigar a concentração bancária, mas ele admite que, nesse período, os grandes bancos poderão perder receita com a inovação. “Os que mais ganham com o novo sistema são o consumidor e o comerciante, uma vez que o PIX reduz custos e oferece facilidades de uso. Contudo, isso pode ser apenas o ‘ponto de partida’ para que as instituições (menores) atraiam mais clientes”, condicionou.

Determinação

Para a primeira etapa, o BC determinou que os bancos com mais de 500 mil clientes são obrigados a operar com o novo sistema de pagamento. Os demais puderam escolher se gostariam de participar de seu lançamento, embora todos tenham de passar a oferecer o serviço a partir de 1º de junho próximo. No total, 734 instituições estão cadastradas no Pix, com a previsão de abertura do processo de autorização em 1º de dezembro deste ano.

A redução de barreiras ao ingresso no sistema financeiro é realçada pelo chefe de Produto da fintech Juno, André Carrera, para quem “esse deve ser o maior impacto, uma vez que não é mais necessário cartão de débito para se ter uma conta, e em breve as pessoas vão poder sacar em varejo em vez de apenas no caixa eletrônico”, ilustra. A gratuidade do serviço para Pessoas Físicas é outro fator que deve equilibrar a diferença entre os bancos tradicionais, que ainda cobram esse tipo de tarifas e serviços de seus clientes, explica o representante da fintech provedora de tecnologia Sinqia, Edson Fonseca.


Por Marcello Sigwalt – Redação MundoCoop


Notícias Relacionadas



Publicidade