Entrevista exclusiva: Ariel Guarco, presidente da ACI – Aliança Cooperativa Internacional

Publicado em: 08 janeiro - 2019

Leia todas


Contribuir para ampliar as condições de um mundo mais justo e mostrar cada vez mais os conceitos do cooperativismo de forma global. Estas são algumas das prioridades de Ariel Guarco, presidente da ACI, para 2019

Ariel Guarco acaba de completar um ano à frente da ACI, a Aliança Cooperativa Internacional, e acredita que o balanço é positivo, sobretudo em relação à aproximação entre os integrantes da instituição. Esta era uma de suas prioridades quando foi eleito, em novembro do ano passado, quase que por unanimidade, para o mandato que vai até 2021. O argentino é o segundo latino-americano a ocupar o cargo – o primeiro foi o brasileiro Roberto Rodrigues, entre 1997 e 2001.

O dirigente nasceu em Coronel Pringles, cidade ao sul da província de Buenos Aires caracterizada pela produção agropecuária, principalmente grãos e gado de corte. Guarco é formado em Medicina Veterinária, mestre em Economia Agrária e graduado em Economia Social. Neste segundo semestre de 2018, esteve no Brasil em algumas oportunidades, inclusive como palestrante em dois importantes eventos do calendário cooperativista nacional. Um deles foi o Bahiacoop – Encontro Estadual de Cooperativas Baianas, realizado em outubro, em Salvador. O outro foi o Concred – Congresso Brasileiro de Cooperativismo de Crédito, que aconteceu em novembro, em Florianópolis (SC).

Nesta entrevista exclusiva à Revista MundoCoop, que foi parceira desses dois eventos em que Guarco foi palestrante, o dirigente conta mais detalhes sobre suas passagens pelo Brasil, as conquistas na presidência da ACI e os próximos desafios do cooperativismo global. Acompanhe.

Qual é o balanço desse primeiro ano na presidência da ACI?

O balanço é muito positivo. Acredito que conseguimos avançar em grande parte daquilo que nos propusemos antes de assumir tal responsabilidade. Como primeira ação, consultamos os membros para temos um diagnóstico melhor de como eles estão, o que podem fazer, quais necessidades têm as organizações que representam e o que elas esperam da ACI. Estamos terminando este ano com grande crescimento, creio que conseguimos aumentar a conexão entre a presidência e o escritório global, os diretores, as regiões e os setores. Há uma maior sinergia interna e estamos mais bem posicionados para o exterior, de fato consolidamos os vínculos com outros atores no cenário global, como a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). A Aliança Cooperativa Internacional é hoje uma organização ativa, aberta à participação e que integra 313 membros de 110 países nos cinco continentes.

Como foram suas visitas ao Brasil? O que mais chamou sua atenção?

Este ano tive a oportunidade de visitar o Brasil em diversas ocasiões. Agradeço às organizações do seu país pelos convites e porque me receberam com muito carinho e gentileza. O movimento cooperativo brasileiro é um dos mais poderosos, por conta da influência que o país tem em níveis regional e global. Acredito que o interior do país é fundamental para reduzir as desigualdades e mobilizar a economia naqueles lugares onde o Estado ou grandes empresas privadas não estão presentes. Durante a última visita tive a agradável oportunidade de participar da inauguração de um monumento à fraternidade cooperativa, em Nova Petrópolis (RS), que fortalece o vínculo com a cidade de Sunchales, na Argentina. Isso nos encoraja ainda mais a trabalhar pela integração além das fronteiras.

Quais são os principais desafios do cooperativismo mundial?

Vivemos tempos complexos, com uma economia global que ainda não se recuperou, fortes tensões sociais e políticas nos países centrais, incluindo expressões xenofóbicas que tomam forma, nessas e em outras nações, uma deterioração ambiental que pode se tornar irreversível e inaceitável das desigualdades sociais. Nesse cenário, o cooperativismo deve assumir a liderança junto com outros atores no âmbito de uma aliança global para o desenvolvimento sustentável, como indica o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número 17. Devemos colocar nossos princípios cooperativos em ação e mostrar ao mundo que para resolver desigualdades e conflitos é necessário colocar o ser humano e o meio ambiente no centro dessas discussões. As cooperativas incorporam um modelo de negócio capaz de ser economicamente eficiente e socialmente responsável. Temos que colocá-lo em jogo em cada um dos nossos territórios, mas também no âmbito da comunidade global.

 

“Há líderes que estão vendo o cooperativismo como uma alternativa chave quando se trata de corrigir a direção da economia mundial”

– Ariel Guarco –

Como os países sul-americanos podem contribuir para superar esses desafios? Como podem trabalhar juntos?

O que acontece com a irmandade entre Sunchales e Nova Petrópolis é um símbolo da direção em que devemos caminhar. A integração continua a ser indispensável para os que buscam um cooperativismo ativo e comprometido com os desafios globais. Na América do Sul e no resto do continente, uma rica agenda foi proposta depois da V Cúpula Cooperativa das Américas, realizada em Buenos Aires, de 23 a 26 de outubro. Estamos falando da defesa do planeta, da inclusão e da democratização financeira e da integração da economia solidária. Devemos aprofundar os vínculos entre as organizações mais representativas de cada país e trabalhar em conjunto na Região das Américas da ACI, que, por sua vez, escolheu pela primeira vez uma mulher, Graciela Fernández (Uruguai), como presidente.

Como melhor divulgar para as sociedades os conceitos e os benefícios do cooperativismo?

As cooperativas são organizações em constante movimento. Diariamente, e por quase dois séculos, prestamos serviços ou produzimos bens que nossas comunidades exigem. Por isso é importante entender que nossas ações sejam o primeiro elemento de comunicação para nossos associados. Devemos ter autocontrole sobre o cumprimento dos princípios e valores cooperativos, otimizar a governança de nossas entidades nesse sentido e prestar contas aos nossos associados. Então, é fundamental investir recursos em educação e em uma comunicação estratégica que mostre tudo o que impacta positivamente a comunidade.

Por sua atuação em diversos setores da economia, como o cooperativismo pode contribuir para resolver os principais desafios globais (econômicos, sociais, produção de alimentos)?

Naturalmente, as cooperativas satisfazem as principais necessidades das pessoas, que é nossa gênese e nosso significado, desde sempre, em diferentes contextos culturais, políticos e econômicos. Isso vem acontecendo há 175 anos em dezenas de milhares de cidades ao redor do mundo. Hoje as cooperativas têm mais de 1,2 bilhão de membros. Então é necessário interpretar que os desafios nos são apresentados localmente, em diferentes regiões e, fundamentalmente, em nível global. Isso porque o mundo em que vivemos exige que pensemos em respostas globais para os desequilíbrios que têm sua origem na forma como está estruturado o funcionamento da economia em escala planetária. As cooperativas têm uma longa história e estamos preparados para contribuir com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, entre outras questões, com o cuidado do planeta, a geração de trabalho decente, equidade de gênero e produção e consumo responsáveis.

Como vê o alinhamento das lideranças mundiais do cooperativismo? Qual é o nível dessa aproximação e como pode evoluir?

Há líderes que estão vendo o cooperativismo como uma alternativa chave quando se trata de corrigir a direção da economia mundial. O Papa Francisco é um deles e, de fato, tanto nos intercâmbios que tivemos quanto nas diferentes expressões do Vaticano nos últimos tempos, pudemos ver que há um claro apoio à maneira cooperativa de organizar a economia, em comparação com qualquer outro sistema que exclui as pessoas, idolatra dinheiro e destrói o meio ambiente. Por outro lado, nas reuniões que tive com os líderes das organizações internacionais e no intercâmbio que tivemos nas Nações Unidas, por conta do Dia Internacional das Cooperativas, pude constatar que há um grande entusiasmo com o papel do cooperativismo e seu trabalho em favor da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

 

O movimento cooperativo brasileiro é um dos mais poderosos, por conta da influência que o país tem em níveis regional e global

– Ariel Guarco –

Em quais segmentos o cooperativismo mais pode crescer?

É difícil responder a essa pergunta e falar de valores absolutos, porque a ACI não desenvolveu um sistema estatístico que nos permita medir os desenvolvimentos setoriais. É algo em que estamos trabalhando e recentemente criamos o cargo de coordenador de estatísticas. Levando em conta a evolução social, podemos esperar que as cooperativas sociais e aquelas relacionadas a novas tecnologias cresçam consideravelmente para responder às necessidades de grande parte do planeta.

Quais são os passos mais importantes para a ACI em 2019?

Os esforços para dar visibilidade às cooperativas nos ODS estarão no centro das prioridades. Nossos membros nos perguntaram na pesquisa que realizamos no início deste ano e tomamos nota. A equipe da ACI está trabalhando no desenvolvimento de uma campanha que vai até 2030 sobre essa questão. Por outro lado, em junho vamos organizar uma conferência em Genebra com a OIT, por conta de seu centenário, sobre o futuro do trabalho. Esta questão será central em nossa agenda. Em outubro nos reuniremos em Kigali (Ruanda) para a nossa Assembleia Geral e Conferência Global, que será focada no Desenvolvimento Sustentável.



Publicidade