Entrevista: Paulo Souza, diretor de fiscalização do Banco Central

Publicado em: 29 julho - 2020

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O cooperativismo de crédito vem se consolidando cada vez mais no mercado como uma vertente essencial na desverticalização do Sistema Financeiro Nacional e hoje, em meio a pandemia do Covid-19, prova seu potencial de crescimento e apoio à economia do Brasil.

Se destacando nos últimos anos com sua contribuição na expansão de mercado de crédito no país, o movimento vem beneficiando principalmente as micro, pequenas e médias empresas, além das pessoas físicas com ênfase nos produtores rurais.

Para saber mais sobre a importância do movimento nos novos rumos econômicos e entender a representatividade das cooperativas para a consolidação do futuro, a MundoCoop conversou com o Diretor de Fiscalização do Banco Central, Paulo Souza, sobre a recente publicação do “Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo” (SNCC), divulgado pelo Banco Central.

Confira a entrevista exclusiva!

MundoCoop: O cooperativismo de crédito caminhava em constante crescimento antes do estouro da pandemia do Covid-19 e, mesmo em meio à crise, tem mostrado sua contribuição na expansão de mercado no Brasil. Analisando os dados do Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo, divulgado recentemente pelo Banco Central, é possível dizer que o potencial de inserção do movimento e a contribuição no desenvolvimento regional, podem ser essenciais na retomada da economia? 

Embora o recém-divulgado Panorama do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC) traga a evolução do segmento até dezembro de 2019, portanto, anterior à pandemia do COVID-19, o acompanhamento próximo do setor pelo Banco Central mostra que continuam válidas as conclusões do estudo: de crescimento sustentado da base de cooperados e de depósitos e de manutenção da concessão de crédito em viés positivo. Em relação à retomada da economia, acredito firmemente que o cooperativismo de crédito tem um relevante papel a cumprir. Pelas características particulares da atuação das cooperativas de crédito, de captar recursos e conceder crédito a grupos de contornos delimitados, de pessoas físicas e jurídicas, o crédito cooperativista costuma ter um comportamento diferente do conjunto do restante da economia, o que pode resultar em um importante papel anticíclico. Além disso, um estudo recente realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) comprovou a contribuição do cooperativismo de crédito para o desenvolvimento socioeconômico regional, com relevante impacto positivo do crédito cooperativo em diversas variáveis, como, por exemplo, renda, emprego, empreendedorismo (número de estabelecimentos) e comércio exterior, mesmo em tempos de crise, como mostra o histórico de momentos críticos anteriores.

MundoCoop: Muito se fala que o maior concorrente das cooperativas de crédito não são os bancos, mas a falta de propagação do movimento. Qual a importância da existência do Sistema Nacional de Crédito Cooperativo para as cooperativas? As transformações digitais, intensificadas com a crise, contribuem e/ou desafiam as instituições financeiras no Brasil? 

As cooperativas de crédito, como instituições financeiras, de fato concorrem com bancos e outras instituições. Mais recentemente, também as fintechs são concorrentes diretas das cooperativas de crédito na oferta de produtos e serviços financeiros. A pressão competitiva é sem dúvida um grande desafio para as cooperativas. Entretanto, o modelo de negócio cooperativista tem relevantes diferenciais, alicerçados nos princípios cooperativistas, que podem representar uma enorme vantagem competitiva, sobretudo o princípio da intercooperação, que inclusive deveria ser mais exercitado, não só dentro do ramo crédito, mas em todos os ramos do cooperativismo e, também, entre ramos diferentes. Essa é justamente a principal importância do SNCC: a organização sistêmica pode potencializar a intercooperação entre todos os seus componentes (singulares, Centrais, Confederações e Bancos Cooperativos).

Quanto às transformações digitais, cabe destacar que elas são uma decorrência natural da evolução tecnológica, com potencial de trazer grandes benefícios tanto para os clientes quanto para as instituições financeiras. Caberá às instituições desenvolver uma estratégia para que essa evolução aconteça de maneira segura, com o estabelecimento de controles adequados para a gestão dos respectivos riscos.

MundoCoop: Quais são os principais desafios, oportunidades e mudanças, vistos pelo Banco Central, no cenário do cooperativismo de crédito atualmente? E como vocês enxergam o papel e a influência das cooperativas singulares nessa atuação? 

O cooperativismo de crédito tem uma grande importância na desverticalização e desconcentração do Sistema Financeiro Nacional, além de contribuir diretamente para a Inclusão Financeira, e por isso está inserido na agenda estratégica do Banco Central, a Agenda BC#. Para as cooperativas essa agenda está estruturada em três eixos. O primeiro é o fomento a atividades e negócios, que já teve algumas entregas, como a permissão de captação de poupança rural e imobiliária, emissão de Letras Financeiras e da Letra Imobiliária Garantida. O segundo é o aprimoramento da organização sistêmica e da eficiência no SNCC, que prevê um enforcement da atuação das centrais e das confederações no seu papel de supervisão auxiliar, bem como um aprimoramento da governança do FGCOOP. O terceiro é o aprimoramento da gestão e da governança do SNCC, e isso está diretamente relacionado às cooperativas singulares e aos seus membros, que são a base das decisões tomadas e, por isso, determinam o rumo não só de suas cooperativas, mas do próprio SNCC. Em relação aos desafios, o SNCC precisa fazer um esforço para expandir ainda mais: a sua atuação em regiões pouco atendidas pelo SFN, notadamente as regiões Norte e Nordeste, a associação e o atendimento (em termos de concessão de crédito) a pessoas físicas de baixa renda e a participação relativa no Sistema Financeiro Nacional.

MundoCoop: O Conselho Monetário Nacional e o Banco Central do Brasil vêm implementando diversas ações no intuito de fomentar o desenvolvimento das cooperativas de crédito como, por exemplo, a permissão da emissão de Letra Imobiliária Garantida e de Letra Financeira. Quais outros projetos podem possibilitar o crescimento do cooperativismo financeiro no mercado brasileiro? 

Além do fomento a atividades e negócios, fazem parte da Agenda BC# ações no sentido de aprimorar a organização sistêmica e a eficiência do SNCC e também a gestão e governança das cooperativas de crédito. A atualização da Lei Complementar 130, que está em tramitação no congresso desde março, traz relevantes inovações que podem alavancar o crescimento do segmento. Entretanto, não há ninguém mais preparado para promover o crescimento e o desenvolvimento do cooperativismo de crédito do que seus dirigentes e executivos. Eles é quem estão no dia a dia da cooperativa e quem tem não só a capacidade, mas a reponsabilidade de desenvolver a sua cooperativa de crédito e contribuir para o crescimento do SNCC.  

MundoCoop: Pesquisas mostram que, em função da pandemia, houve um aumento significativo na procura de crédito para a sobrevivência dos negócios e, analisando os dados, era claro a pouca busca por cooperativas em relação aos bancos públicos e privados. Porém, quando o assunto é resultado, o nível de êxito para quem escolhe cooperativas é 3 vezes maior. O que tem determinado esse sucesso do cooperativismo de crédito? É possível dizer que o segmento é um grande aliado econômico do país?

As cooperativas de crédito desempenham um papel importante não só na inclusão, como também na educação financeira dos seus membros, tendo em vista que as cooperativas comprovadamente proporcionam o acesso de pessoas com baixa disponibilidade de atendimento pelo sistema tradicional a produtos e serviços financeiros. Ademais, as cooperativas de crédito são um tipo de instituição centrada nas pessoas, em que os membros são ao mesmo tempo clientes e donos. Por isso, todos seus resultados são destinados a seus associados ou revertidos de alguma forma à sociedade. A participação dos associados na gestão da cooperativa, por meio da realização das assembleias, também contribui para a formação de uma consciência financeira nessas pessoas.

MundoCoop: O que a participação do cooperativismo na agenda BC# representa para a economia do Brasil? Quais são as perspectivas do Banco Central para o novos rumos econômicos que estão surgindo no país e no mundo?

A agenda BC# está estruturada em 4 pilares: Inclusão, Competitividade, Transparência e Educação. Apesar de o cooperativismo de crédito aparecer explicitamente na dimensão Inclusão, também tem relação com as outras dimensões, principalmente Competitividade e Educação Financeira. A experiência demonstra que um sistema financeiro sólido e eficiente é um dos fundamentos para o desenvolvimento econômico sustentado, e a implementação das ações da agenda estratégica do Banco Central, bem como a sua atuação, tem esse objetivo.

Acerca dos novos rumos econômicos que estão surgindo com o aprendizado decorrente da atual pandemia, três temas estão bem presentes nos fóruns internacionais. Primeiro, a necessidade de maior atenção a projetos de renda básica e, recentemente, o Brasil descobriu milhares de pessoas que viviam à margem dos programas sociais e que merecem uma atenção especial. Segundo, destaco um maior foco em economia sustentável, devendo ser crescente os projetos voltados para a chamada “economia verde”. E terceiro, o avanço tecnológico, abrindo novas frentes de relacionamento entre os diversos agentes econômicos e, como exemplo dessa mudança, temos visto diversas empresas elogiando o sucesso e os benefícios do home office.

Entendo que os três temas representam uma enorme oportunidade para o cooperativismo de crédito e temos convicção de que suas lideranças e dirigentes estão atentos e preparados para esse novo mundo.

Por Jady Mathias Peroni – Revista MundoCoop


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