Ganhos de escala e competitividade ditam fusão de cooperativas

Publicado em: 16 outubro - 2020

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Ganhos de escala e maior competitividade no já acirrado mercado de crédito. Esse foi o fator determinante para o anúncio recente da fusão do Sicoob Metropolitano (Maringá-PR) com o Sicoob Ouro Branco (Paranavaí), de acordo com o presidente do conselho de administração do primeiro, Luiz Ajita.

“Concluímos que o momento (para a fusão) é agora, e até já passou da hora, porque a pandemia nos obrigou a repensar na questão de custos, de como podemos ganhar escala, sem contar com a queda do spread da empresa, devido à redução da Selic (taxa básica de juros) ”, explica.

A nova cooperativa resultante já nasce grande, com ativos de R$ 2,5 bilhões e mais de 100 mil cooperados.

Antes do que complementariedade, a necessidade de obter ganhos de escala foi determinante para a decisão da fusão, comenta Ajita, ao acentuar que a demanda por crédito continua ‘aquecida’, sobretudo nas áreas empresarial e rural, a reboque da expansão da produção pelo agronegócio nacional. Para tanto, a nova cooperativa demandará uma reestruturação administrativa, mediante a eliminação da duplicidade de conselhos, diretoria e controladorias, como atualmente.

Paralelamente, o executivo destaca a importância de que a iniciativa conte com total transparência junto aos cooperados. “Todas as mudanças têm de ser comunicadas de forma muito clara à comunidade cooperada, em especial, no que toca aos ganhos projetados pela nova cooperativa, no caminho da solidez patrimonial. Neste aspecto, é sempre bom lembrar que os respectivos delegados, que representam os cooperados, igualmente foram ouvidos antes da fusão, assim como os conselhos”, frisa.

Desafio gigante

Ao mesmo tempo, a nova cooperativa já nasce com um grande desafio à frente: a entrada de novos players, como as plataformas financeiras Magalu e Mercado Pago, grandes bancos digitais, fintechs e as ‘big techs’ (Whatsapp, Facebook e Apple). Nada gratuito, esse movimento de mercado resulta de uma série de medidas de incentivo à concorrência no setor, adotadas pelo Banco Central (BC), como a implantação do novo Sistema de Pagamentos Instantâneos (PIX), capitaneado pela autarquia.

“Como todas as instituições financeiras, as cooperativas de crédito são obrigadas a usar o PIX como ferramenta financeira. Na verdade, não vejo vantagem à empresa, mas apenas para o maior empoderamento do consumidor, que deixará de pagar tarifas como DOC e TED para fazer suas transações financeiras”, aponta. Ao contrário, Ajita prevê que a ‘novidade’ implicará perda de receita para as instituições de crédito, de maneira geral.   

Além de lançar mão da tecnologia como ‘aliada’ de primeira hora, as cooperativas de crédito, segundo Ajita, vão precisar se ‘reinventar’. “A grande fortaleza das cooperativas é seu relacionamento com o cooperado, cujo atendimento deve ser, cada vez mais, diferenciado e único, para que estes contem com taxas de juros adequadas e um retorno satisfatório aos recursos aplicados”, recomenda.

Ao mesmo tempo, o dirigente lembra o papel social inestimável desenvolvido pelas cooperativas durante a crise decorrente da pandemia. “Temos de mostrar à sociedade os projetos voltados às comunidades carentes, além da iniciativa das cooperativas, que se associaram a prefeituras para viabilizar a compra de máscaras e respiradores”.  A atuação ‘humanitária’ das cooperativas de crédito nas comunidades também é enfatizada pelo dirigente. “Ela tem que inovar, mas sem perder o ideal cooperativo, voltado a um relacionamento mais humano e próximo com os cooperados, que é o seu forte”.

Gasto desnecessário

Vista como natural, para Ajita, a fusão deveria ser uma operação rotineira. Ao invés disso, ele observa que, no Brasil, há um ‘gasto desnecessário de energia’, devido à profusão de federações, confederações, centrais e cooperativas dispersas, que poderiam se concentrar em uma única entidade, que fortalecesse o setor, como existe na França.

“Um exemplo é o sistema cooperativa francês, que criou BPCE, após a fusão de seus dois maiores sistemas cooperativos, a Caixa de Poupança e o Banco Popular, e que cada um destes permanece trabalhando com a sua marca, mas numa única retaguarda, agora convertida numa grande empresa de tecnologia”. Outro caso similar, acrescenta ele, pode ser dado pelo Canadá, que possui somente um sistema cooperativo, sem centrais, o que reduz muito os custos das cooperativas.

De qualquer modo, Ajita considera ‘muito difícil’ introduzir o sistema francês no Brasil, “que esbarra na questão política”, embora ele prefira não discorrer sobre esse aspecto.  A ideia poderia servir, assinala o executivo, para fundir todos os organismos de crédito existentes no país, como Sicoob, Sicred e Unicred, numa só empresa de tecnologia, com ganhos para todos, como no exterior.

Quanto às perspectivas para 2021, Ajita entende que persiste “uma grande incógnita, pois ainda não sabe se e quando realmente as vacinas chegarão”. De qualquer modo, o executivo reconhece que há sinais evidentes de retomada firme do mercado de crédito, em especial, a partir do mês de agosto e setembro. “O sistema cooperativo de crédito, ao contrário do PIB, deve crescer de 20% a 30%, o que prova a pujança e potencial de crescimento do sistema cooperativo”. Para o ano que vem, o dirigente arrisca uma estimativa de crescimento das cooperativas de crédito em torno de 10%, mesmo diante de uma previsão de recuo do PIB.    


Marcello Sigwalt – Redação MundoCoop


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