Sustentabilidade (ainda) depende de ação


Destaque


A popularização do termo, no entanto, nem sempre é positiva, pois não significa conhecimento ou ação efetiva no tripé social, econômico e ambiental, pois não há Sustentabilidade sem Responsabilidade Social.

Prova é que processos de recuperação judicial, miséria, desastres ambientais, entre outros problemas, continuam existindo e afetando a vida de centenas e milhares de pessoas, sem contar as espécies animais e vegetais com extinção apregoada.

Para alguns teóricos, esse uso frequente e até excessivo do termo por empresários, executivos, políticos, educadores e principalmente pela mídia, faz com que a palavra perca o sentido e o impacto, tornando vago, genérico, o conceito a ela incorporada, dando a impressão de que se refere a qualquer coisa boa ou voltada ao meio ambiente, idealizada, distante do dia a dia da gestão das empresas e instituições.

É verdadeiro que há organizações (incluindo cooperativas) que incorporaram as dimensões social, ambiental na gestão, implementando processos capazes de diminuir os impactos negativos e ampliar os positivos, assim como buscam oportunidades   para inovar, buscar soluções, mas o comprometimento ainda precisar crescer.
O processo é irreversível, e aqueles que não incluírem as questões ambientais, sociais e éticas em suas organizações, perderão mercado e reputação, além de pagarem
um preço alto no futuro.

Essa é a opinião de vários teóricos, entre eles está a professora, consultora de gestão e pesquisadora Fernanda Gabriela Borger, que também responde pela coordenação do curso de pós-graduação de Gestão Estratégica de Sustentabilidade da FIA (Fundação Instituto de Administração). A necessidade de a sustentabilidade trazer para o modelo de negócios “perspectiva de longo prazo, inclusão sistemática da visão e interesses das partes interessadas, e transição para um modelo onde os princípios, a ética e a transparência precedem a implementação de processos, produtos e serviços” é destacada pela acadêmica.

Conceito intrínseco à organização

No caso específico das cooperativas, a sustentabilidade deve ser indissociável da ação, pois está diretamente inserida na Doutrina Cooperativista, em dois princípios: intercooperação e interesse pela comunidade.

Júlio Aurélio Vianna Lopes – pesquisador em Direito da Fundação Casa de Rui Barbosa (vinculada ao Ministério da Cultura) e autor da obra “Cooperativismo Contemporâneo: Caminho para Sustentabilidade” – entende que a inserção do cooperativismo na sustentabilidade, contribui para reintegrar o aspecto econômico ao ambiental, pois o sexto princípio (intercooperação) orienta as cooperativas a cooperarem com outras cooperativas e, “ao se apoiarem os empreendimentos cooperativos uns nos outros, eles se tornam mais sustentáveis enquanto conferem maior sustentabilidade ao mercado em geral, à medida que nele se amplia a presença das cooperativas entre as empresas que o compõem”, explica.

Mais direta a relação com a sustentabilidade em seu tripé social, econômico e ambiental, o sétimo princípio – esclarece o pesquisador – “orienta as atividades econômicas (e não só) das cooperativas de modo a torná-las beneficiárias, em algum grau, do entorno social no qual se inserem”. Além disso, segundo Vianna Lopes, este princípio “conjuga a sustentabilidade abrangente à de cada cooperativa, tornando sua continuidade e expansão de cooperados dependente, diretamente, de sua interpelação da comunidade em que se situa”.

Usando como base de seu discurso sua nova obra, em fase de lançamento, Vianna Lopes define que “sustentável é a sociedade na qual se exercem dádivas entre gerações, onde a atual geração concede – literalmente – espaços e recursos para o desenvolvimento das futuras gerações. Se sustentabilidade é cooperação entre gerações, então a contribuição cooperativa advirá da combinação entre seus sexto e sétimo princípios: intercooperação e interesse pela comunidade”.

Para Borger, mais do que um princípio, no caso das cooperativas, o vínculo com a sustentabilidade é intrínseco à organização, “porque o modelo de negócios da sustentabilidade tem de ser colaborativo, os problemas e os desafios que temos – como mudanças climáticas e a redução da pobreza – só podem ser resolvidos com a colaboração de todas as partes interessadas, e por meio das parcerias estratégicas entre empresas, governo e terceiro setor”.

No entanto, apesar de na concepção da professora e coordenadora da FIA as cooperativas poderem trazer “um bom modelo para as relações de trabalho e inovação”, há desafios a serem vencidos, vinculados à melhoria no processo de decisão: “as cooperativas precisam ser mais eficientes e eficazes, com transparência e responsabilidade social”.

Essa afirmação da acadêmica e consultora não é uma crítica, mas uma realidade condizente com o próprio posicionamento do Brasil no cenário mundial. Para ela, o País tem todas as condições para ocupar posição de liderança e protagonismo no modelo de sustentabilidade, como disponibilidade de recursos naturais, legislação, competência técnica, entre outros. Contudo – e infelizmente – “nós não aproveitamos as oportunidades de investir mais em energia renovável (solar e eólica), tecnologias mais eficientes, desenvolver as comunidades. O que falta é uma cultura de empreendedorismo para sermos mais competitivos. Queremos ser um país do futuro, mas estamos presos ao passado, à educação, às relações de trabalho, e alguns setores da economia ainda estão no século passado, por isso temos algumas ilhas de sucesso, avanços e retrocessos ao mesmo tempo”, diagnostica.

Cooperativismo contemporâneo 

Ao tomar o momento presente como base, onde nota a emergência de economias alternativas resultantes da cultura de redes, que cria um outro tipo de cooperativas, o pesquisador em Direito da Fundação Casa de Rui Barbosa MCT fala de um cooperativismo contemporâneo, que, “diversamente de sua forma clássica, funde as lógicas da mercadoria (preço geral) e da dádiva (relacionamento pessoal)”.

A cultura de redes contemporânea – comenta o autor, utilizando informações de sua obra mais atual, em fase de lançamento – cria empreendimentos “mais intensivos em coisas quanto mais extensivos em pessoas”, resultado do fato de a sustentabilidade na sociedade moderna condicionar a continuidade ao crescimento. “Nesse âmbito, tanto emergem tais formas econômicas, quanto se reconhece, ostensivamente, impacto social positivo à profusão de cooperativas no mercado”, constata Vianna Lopes.

Ao recomendar como caminho que “as novas experiências econômicas aprendam com o cooperativismo a precificar o que circula em rede (bens trocados como oportunidades de trabalho ou itens de consumo), enquanto as cooperativas aprendam com essas novas experiências ele aprenderia com elas a sobrevalorizar atividades – para além de seu valor monetário – que fortalecem o grupo, seja internamente ou em sua abertura externa (bens usufruídos coletivamente)”, Lopes frisa que ”não basta focalizar o apoio às cooperativas sem uma legislação que as distinga, suficientemente e favoravelmente, das empresas ordinárias”.

Seu posicionamento tem como base o que aconteceu na Argentina, onde “o crescimento acelerado das cooperativas foi abortado assim que seu órgão ministerial se enfraqueceu, pois elas não estavam capacitadas, efetivamente, à concorrência com outras empresas”.

Ao exemplificar sua teoria, o pesquisador afirma que “cada cooperativa – prudentemente capitalizada para tal – ao investir na formação de outra cooperativa correlata à sua área de atuação, a instituição disseminaria-se através de redes cuja configuração tanto as expandiria quanto garantiria sua continuidade”.

Nesse cenário, “cooperativas de trabalho se beneficiariam ao investirem na formação de cooperativas de crédito e/ou de consumo que lhe fossem correlatas; cooperativas de consumo se beneficiariam ao investirem na formação de cooperativas de trabalho e/ou de crédito que lhe correspondessem; e cooperativas de crédito se beneficiariam ao investirem na formação de cooperativas de consumo e/ou de trabalho. Foi assim que a cooperação entre cooperativas, ampliando a adesão comunitária, baseou o sucesso do empreendimento de Mondragón (articulação entre cooperativas que também denomina a região na qual nasceu), hoje transcendente das fronteiras espanholas. Porque empreendimentos são mais sustentáveis quando cooperam com suas comunidades, unindo os aspectos econômico, social e ambiental”, sinaliza Vianna Lopes, frisando que “a arte política das lideranças cooperativistas pode construir uma ampla frente (mesmo que provisória) para fortalecimento do modelo cooperativo – reconhecendo seus distintos espaços sociais – em face das empresas ordinárias”.

Com base em seus estudos, o pesquisador da FCRB segmenta a atividade em dois tipos de cooperação: “ora se coopera para não precisar competir, ora se coopera para competir (melhor). Ao primeiro tipo correspondem as cooperativas solidárias e, ao segundo, cooperativas de mercado. Ambos os modelos – que no Brasil disputam representação e políticas públicas, respeitando suas especificidades – poderiam se aliar para pleitear um marco legal que as beneficie, pois cada qual é adequada a situações distintas em qualquer área”.

Lopes utiliza uma das festas mais populares do País para exemplificar sua definição. “Até no Carnaval isto fica evidente: o modelo da cooperativa solidária cabe para bloco carnavalesco, enquanto o da cooperativa mercantil para a escola de samba (caso aderissem a um modelo cooperativo), porque no primeiro caso a competição é inviável e no segundo caso é fundamental. O mesmo raciocínio as distingue nas demais áreas de trabalho, consumo ou crédito, no qual os bancos comunitários se adequam à reconstrução de comunidades vulneráveis e o crédito cooperativo (de formato bancário ou não) se adequa para ascender padrões de vida – sem que seus espaços se confundam”, explica.

Legislação como motor

Em sua obra de 2012, Vianna Lopes apregoa a necessidade de “uma boa lei geral e o foco em verbas públicas na formação das cooperativas”, o que compreende um novo marco regulatório e financiamento público focalizado, pois contatara ser essa “uma prática comum aos países nos quais as cooperativas se tornaram mais relevantes, tanto na adesão populacional (percentuais da população cooperada), quanto na relevância econômica (economia nacional)”. A continuidade dos estudos e pesquisas, levam o teórico à convicção de que essa regulação básica das cooperativas brasileiras, decretada pela ditadura militar em seu auge, objetiva controlar e não impulsionar a adesão de cooperados. O necessário é uma legislação de repercussão empresarial geral, que discrimine, positivamente, a cooperativa em face dos modelos tradicionais de negócios.

“Com tal dispositivo na ordem jurídica brasileira, o direcionamento de verbas públicas para a formação (não suas atividades) de cooperativas as disseminaria no mercado brasileiro. Uma combinação de política regulatória permanente (discriminação legal positiva) e politica distributiva provisória (em prol de grupos amplos de cooperados), a meu ver, permearia o mercado brasileiro – especialmente, onde a competição ordinária sequer supre um mínimo de crédito, trabalho ou consumo – de cooperativas”, garante.

Na visão de Borger, há uma dicotomia clara em termos legais: “temos uma boa legislação para a sustentabilidade, o que precisamos é ter uma visão de longo prazo, sair do discurso e ter mais diálogo entre o público e o privado, é desenvolver relações cooperativas, trabalhar em rede e integrar as políticas em todos os níveis e criar um ambiente para a inovação e prosperidade.

O futuro, entretanto, não é nebuloso. “Apesar de Sustentabilidade e Responsabilidade Social não serem temas que estão na moda para a gestão empresarial, cada vez mais farão parte da estratégia, das práticas e do dia a dia da gestão. Esta é uma jornada e não um destino, é preciso liderança comprometida, reconhecer e respeitar as partes interessadas e ter um bom desempenho econômico, social e ambiental”, preceitua a coordenadora da pós-graduação de Gestão Estratégica de Sustentabilidade da FIA.

A receita de Vianna Lopes é desafiadora: uma cooperativa deve ser, para seus cooperados, sua empresa em geral, mas também sua comunidade em especial. Seguir os passos dos pioneiros (final do século XIX), pode ser a saída. “Assim como os pioneiros do movimento tiveram que superar a portentosa, mas inviável, formulação original de Robert Owen (teórico que concebeu a cooperativa moderna em 1821), as lideranças atuais precisam ajustar o cooperativismo para incorporar as novidades trazidas pela emergente cultura de redes. Mantendo sua solidez coletiva, as cooperativas precisam estar sempre prontas a se integrarem – como grupo – às demais formas associativas emergentes”, preceitua.



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