A humanidade tem um novo desafio e a sustentabilidade é a solução

Publicado em: 17 julho - 2019

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José Guilherme Barbosa Ribeiro, diretor-superintendente do Sebrae MT e idealizador do Centro Sebrae de Sustentabilidade

O mundo está mudando e isso não é mais novidade, mas os novos desafios da humanidade estão mais presentes do que nunca e todos eles possuem uma coisa em comum, o apelo para a sustentabilidade.

Mais do que uma tendência, ser sustentável se tornou uma necessidade. Para esse movimento ganhar espaço, força e efeito é preciso que todas as partes da sociedade colaborem entre si e façam sua parte. Pensado nisso, e levantando a bandeira da sustentabilidade no Brasil, o diretor-superintendente do Sebrae MT e idealizador do Centro Sebrae de Sustentabilidade, José Guilherme Ribeiro, falou com exclusividade com a MundoCoop sobre o papel das empresas na busca desse equilibro entre o social e o econômico, que é a garantia de um futuro melhor para todos.

Confira a entrevista!

O que é um negócio sustentável?

É a empresa que tem rentabilidade, é produtiva e competitiva e, ao mesmo tempo, está comprometida com a sustentabilidade, ou seja, também trabalha com foco na continuidade da vida da humanidade e do planeta. Um negócio sustentável é aquele que gera resultados econômicos em harmonia com os resultados sociais, ambientais e culturais.

Hoje sabemos que os recursos naturais são finitos, que exageramos em sua exploração nos últimos séculos, e geramos uma situação crítica em todos os cantos do planeta. Os negócios sustentáveis são atores fundamentais para a solução desta situação preocupante, sejam eles pequenos, médios ou grandes. Precisamos agir em conjunto e urgentemente – empresas, consumidores, governos e cidadãos – para resgatar e garantir a qualidade de vida no presente e no futuro.

Os negócios que atuam comprometidos com os princípios da sustentabilidade contribuem com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 das Nações Unidas (ONU), lançada em 2015 e ratificada por 193 países. Os 17 ODS precisam estar no radar das empresas e empreendimentos no Brasil e em todos os países.

O que é a “nova economia global’”, que se pauta em sustentabilidade e inovação? Qual o impacto, principalmente socioeconômico, de inserir os pequenos negócios dentro desse novo cenário?

A ‘nova economia’ ou ‘economia em transição’, como tem sido chamada por estudiosos e especialistas, é fruto da intensa conscientização mundial, ocorrida nas últimas décadas, sobre a escassez/extinção dos recursos naturais; falta de gestão dos resíduos que impactam vidas (humanas, da fauna e flora), solos, rios, mares e oceanos; agravamento das desigualdades sociais; ausência de oportunidades para a inclusão de milhares de pessoas; e da concentração das riquezas geradas no mundo nas mãos de poucos indivíduos e organizações.

“Não é exagero dizer que estamos vivemos uma revolução incomum na história da humanidade”

O binômio ‘sustentabilidade e inovação’ está ditando a nova economia, que também representa esperança no sentido de que podemos regenerar a natureza, criar novos modelos de negócio mais justos e inclusivos, desenvolver soluções tecnológicas e sociais para questões coletivas, adotar novos valores e hábitos de consumo, verificar o comprometimento empresarial, entre outros.

Minha opinião é de que sem os pequenos negócios, a ‘nova economia’ e o desenvolvimento sustentável não serão alcançados. A revolução da sustentabilidade depende muito mais do que se imagina deste segmento invisível. A relevância dos pequenos negócios é também notória na economia de dezenas de países em desenvolvimento. Não é prerrogativa do Brasil ter mais de 90% de micro e pequenas empresas e empreendedores individuais. É preciso melhorar o ambiente de negócios para que prosperem, pois eles garantem o equilíbrio social, econômico, ambiental e cultural. Precisam ser mais valorizados, compreendidos e apoiados.

Centro Sebrae de Sustentabilidade em Mato Grosso

A sustentabilidade é uma tendência que vem sendo cada vez mais falada. O que falta para ela ser colocada definitivamente em prática, principalmente no Brasil?

Este conceito já foi implantado principalmente nos países desenvolvidos e, também em alguns países em desenvolvimento mais sensíveis à questão da sustentabilidade. As empresas já adotaram a ética baseada na sustentabilidade, revolucionando suas práticas e processos produtivos, respeitando o meio ambiente e a diversidade cultural, implementando políticas públicas inclusivas e sustentáveis. Nesses países há gestão de resíduos, fontes de energias renováveis e limpas, grandes plantas industriais de reciclagem, etc Nem é preciso mais falar em sustentabilidade.

No Brasil, ao contrário, ainda temos muito por fazer. Faltam-nos: educação de qualidade para os cidadãos; consumo responsável; cultura de descarte correto de resíduos e redução da geração de resíduos; coleta seletiva, aterros sanitários, saneamento e água tratada; políticas públicas inclusivas e sustentáveis; ética empresarial, entre outros.

Nosso país é considerado uma potência em recursos naturais, porém não possuímos indicadores que comprovem estarmos de fato no caminho do desenvolvimento sustentável. Temos bons exemplos pontuais de grandes empresas e organizações com práticas sustentáveis no país. Os pequenos negócios estão fazendo a sua parte, silenciosamente e por intuição. Muitas vezes os empresários nem sabem que estão sendo sustentáveis ao implantarem práticas inovadoras de eficiência energética, gestão de resíduos, apoio às comunidades em seu entorno, entre outras.  

Como um pequeno negócio pode buscar se tornar sustentável? Qual a maior dificuldade que esse tipo de negócio enfrenta para crescer no país atualmente?

Quando o empresário de um pequeno restaurante ou oficina mecânica, por exemplo, reduz o consumo de energia elétrica, aproveitando melhor a iluminação natural e adotando lâmpadas LED (mais eficientes), está sendo sustentável e ao mesmo tempo reduzindo os custos do negócio. A proprietária de um salão de beleza, que separa embalagens plásticas, vidros, caixas de papelão e os vende ou doa para cooperativas de recicladores, está sendo sustentável.

Todo empreendimento pode e deve ser sustentável. Sustentabilidade é bom senso e economia; é boa para o meio ambiente e para o negócio. As práticas sustentáveis reduzem custos e geram boa reputação junto aos consumidores cada vez mais exigentes. A nova ética empresarial já está em vigor em nosso país. Quem não se adequar, será excluído.

“Os pequenos negócios precisam ingressar na nova era da economia global”

A grande dificuldade para aumentar a adesão à sustentabilidade no país é a falta de conhecimento. Geralmente o conhecimento em sustentabilidade disponível é gerado pelo setor acadêmico e voltado aos grandes empreendimentos. A maioria dos bons exemplos sustentáveis veiculada pelas mídias é sobre as grandes empresas, corroborando a percepção de que este assunto é apropriado apenas às grandes organizações.

Cria-se assim a crença de que sustentabilidade não é para os pequenos negócios, quando na verdade este conceito é responsabilidade de todos: cidadãos, consumidores, empresas, instituições e setor público. Sustentabilidade não é mais coisa de idealistas e ambientalistas. Hoje é condição básica para continuar competitivo e sobreviver no mercado do século 21.

O que é o Centro Sebrae de Sustentabilidade? Qual a sua principal forma de atuação?

Este centro de referência nacional em sustentabilidade para os pequenos negócios, localizado em Cuiabá (MT), foi criado exatamente para cobrir esta lacuna: a falta de conhecimento, informações e orientações para que a grande maioria das empresas brasileiras participe da ‘nova economia’.

O CSS foi fundado em abril/2011 e ocupa terreno contíguo ao Sebrae MT. Esta unidade estadual foi a primeira a implantar práticas ambientais e, posteriormente, o Programa de Gestão Sustentável Interna, que acabou sendo adotado por outras unidades do Sistema Sebrae.  Há mais de 20 anos, este conceito foi inserido nas ações e projetos do Sebrae MT.

A missão deste Centro é produzir e disseminar conhecimento em sustentabilidade para subsidiar o atendimento em sustentabilidade dos pequenos negócios pelo Sistema Sebrae em cerca de 600 postos da instituição em todo o país. O edifício-sede do Centro é um laboratório vivo de práticas sustentáveis que conquistou vários certificados e prêmios no Brasil e no exterior.

Centro Sebrae de Sustentabilidade em Mato Grosso

Qual o impacto de um pequeno negócio para a região em que atua e a sociedade como um todo?

No ano passado, o Centro Sebrae de Sustentabilidade desenvolveu a primeira pesquisa realizada no país sobre Engajamento dos Pequenos Negócios Brasileiros em Sustentabilidade e aos ODS. Este estudo aponta que eles contribuem sobremaneira com o desenvolvimento sustentável local e os ODS, exercendo papel fundamental nas economias locais e regionais, porém silenciosamente.

Foram entrevistados 1.887 empresários de Microempresas (faturamento até R$ 360 mil/ano) e Empresas de Pequeno Porte (faturamento superior a R$ 360 mil até R$ 4,8 milhões/ano), nas cinco Regiões Brasileiras nos quatro principais setores econômicos (agropecuária, indústria, comércio e serviços). Os resultados foram divulgados em setembro/2018, com repercussão na imprensa nacional.

Os principais resultados desta pesquisa foram: 93% se sentem comprometidos com a sustentabilidade; 91% consideram que a sustentabilidade gera oportunidades para novos modelos de negócios; 88% já implantaram alguma ação de eficiência energética; 81% adotaram iniciativas de gerenciamento de resíduos; e 60% adotam práticas para economia de água. A margem de erro da pesquisa é de 3% para mais ou para menos.

O protagonismo deste segmento nas economias locais e no desenvolvimento sustentável local ficou evidente: 93% contratam mão de obra local; 85% apoiam a comunidade local; 80% dão preferência a fornecedores locais. A análise dos dados obtidos revela que os empresários de pequenos negócios se preocupam mais com o custo da energia elétrica (88%) do que com a água (60% adotam práticas de economia desse importante recurso natural).

Há muito trabalho pela frente para conscientizar micro e pequenas empresas sobre o consumo hídrico no país. Imagine, por exemplo, a contribuição do segmento de lavanderias à sustentabilidade. Segundo a Associação Nacional das Empresas de Lavanderias (Anel), existem cerca de 23 mil no país. Se elas cortarem perdas e desperdícios de água e adequarem seus processos e equipamentos para economizar 2 litros de água/dia, o quanto poderá significar para os sistemas de tratamento e abastecimento hídrico em municípios e regiões? Os pequenos negócios somam mais de 15 milhões de empreendimentos no país e equivalem a 98,5% das empresas brasileiras. Imagine o impacto positivo das práticas sustentáveis deste segmento no equilíbrio socioambiental. Somos um país de pequenos negócios. Este segmento precisa ser incluído na ‘nova economia’.

O cooperativismo tem em seus princípios o desenvolvimento sustentável das comunidades. Qual sua opinião sobre esse tipo de negócio? Seria uma alternativa de sustentabilidade para a sociedade?

O cooperativismo é uma das bandeiras do Sistema Sebrae. É um sistema econômico que favorece o desenvolvimento territorial e setorial, especialmente quando integrados por pequenos negócios. Ao longo de décadas, nossa instituição participou e estimulou a criação de várias cooperativas no país.

“Acreditamos que o cooperativismo transforma realidades locais e regionais. “

Atualmente os sistemas de cooperativas de crédito se firmaram no mercado nacional, oferecendo acesso ao crédito em condições competitivas e melhores do que as instituições financeiras. Tornou-se uma ótima alternativa para a nossa clientela.

Sabemos que a sustentabilidade e os ODS já estão na pauta de várias cooperativas.  Sugerimos às cooperativas em geral adotarem critérios que valorizem as práticas sustentáveis e o comprometimento com os ODS de seus associados. Esta iniciativa pode levar seus associados a aderirem à sustentabilidade e, consequentemente, à ‘nova economia’. Esperamos o cooperativismo no Brasil prossiga adotando os princípios sustentáveis em suas realizações.

Refletindo sobre a trajetória do CSS, qual mensagem você deixaria para as pessoas a respeito da sustentabilidade e do desenvolvimento da sociedade?

Nossa mensagem é simples: a sustentabilidade é a solução para o enorme desafio da humanidade no século 21.  Acredito que é possível, a partir da sustentabilidade e da inovação, aprimorar os negócios e seus resultados; regenerar os recursos naturais; promover inclusão social; gerar um mundo mais próspero e com equidade; adotar valores e estilo de vida sustentáveis; e viver em harmonia com o meio ambiente e a diversidade cultural.

As empresas têm enorme compromisso com o desenvolvimento social e a prosperidade da sociedade. Os negócios precisam ir além dos resultados econômicos. A busca do lucro a qualquer custo é coisa do passado. Negócios predatórios em termos ambientais e sociais estão sendo expurgados do mercado.

Nas últimas décadas, os consumidores mudaram e não estão dispostos a comprar de empresas e marcas que abusam da natureza e não geram impacto positivo para a sociedade. Graças às tecnologias de comunicação digital, hoje, os consumidores aumentaram exponencialmente o poder de vigilância social sobre o mercado, práticas e ética empresariais.  Eles e as empresas são os principais protagonistas da transição da economia global para vivermos em um mundo mais próspero, justo, inclusivo, democrático e respeitoso com a natureza.


Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop



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