A voz da sensatez

Publicado em: 14 novembro - 2019

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Representante interina do escritório da ONU Mulheres no Brasil desde fevereiro deste ano, Ana Carolina Querino reúne todos os atributos, além de longa militância, para ser oficializada no cargo. Cientista política e mestra em Ciências Sociais com ênfase em políticas comparadas, Ana Carolina tem posições firmes e sensatas para que as mulheres em todo o mundo tenham as mesmas oportunidades profissionais que os homens e, sobretudo, recebam o mesmo tratamento. Nesta exclusiva entrevista à MundoCoop, a atual chefe da representação brasileira da ONU Mulheres fala mais sobre o empoderamento feminino no mundo corporativo e os benefícios que estas ações podem trazer, inclusive para os homens.

Confira!

Como a senhora enxerga o exercício da liderança?

O exercício da liderança está estreitamente relacionado com a capacidade de influenciar pessoas, grupos e instituições visando resultados almejados. Há distintos modelos e estilos de liderança, cuja eficiência depende do contexto, resultados esperados e característica do grupo a ser liderado. Para as mulheres, exercer a liderança ganha ainda outros tantos significados seja pela própria identidade ou pelo ciclo de vida. Para maior parte das mulheres, tomar decisões sobre suas próprias vidas e influenciar grupos de que fazem são práticas verificadas após a remoção de barreiras decorrentes de desigualdades de gênero, raça, etnia, sexualidade, geracionais, do lugar onde vivem e das condições de que dispõem para o próprio sustento. Mulheres e homens ainda ocupam posição diferente em termos de poder e capacidade de tomada de decisão na sociedade. Tais obstáculos concretos impedem que a maior parte das mulheres possa exercer autonomia, autoridade em relação a outras pessoas e até mesmo decisão.

O que uma mulher no papel de liderança representa e pode mudar para a coletividade ao seu redor?

Para as mulheres, exercer liderança é político porque impacta não somente na própria vida, mas de outras pessoas. O simples fato de estarem em posições de liderança já gera um impacto simbólico por alterar o imaginário social de que estes são espaços a serem ocupados por homens e mulheres estariam em outros lugares sociais. Em geral, são elas as que são menos escutadas, têm menos possibilidades de participação nos espaços de tomada de decisão. Fenômeno que permanece mesmo quando estão exercendo papel de liderança, pois são mais questionadas e precisam demostrar cotidianamente que tem os requisitos necessários para ocupar aquele lugar. Quando esse mecanismo é rompido, elas não somente vocalizam as demandas de outras mulheres, mas de suas comunidades ao trazer visões mais amplas sobre problemas e inovações sobre as soluções que podem beneficiar mulheres e homens de forma ampla.

O que é exatamente este “empoderamento feminino”?

Empoderamento das mulheres é quando elas tomam consciência sobre a própria condição de exclusão, desigualdade e limites e passam a reivindicar mudanças no dia a dia, em cada lugar onde estejam em condição de desvantagem. Nas organizações, o empoderamento das mulheres visa a transformar a realidade das mulheres no seu conjunto, buscando a igualdade de oportunidades e reconhecimento entre elas e em relação aos homens em todos os níveis da instituição.

Quais os maiores obstáculos que as mulheres ainda enfrentam para chegar a cargos de liderança?

Geralmente, são percebidas falta de oportunidades equitativas em relação aos homens, muitas relacionadas com ciclo de vida e desigual responsabilização pelas tarefas de cuidado. Nesses casos, são necessárias medidas que corrijam tais desvantagens, a exemplo de ações afirmativas, estratégias de não discriminação de pessoas  com responsabilidades familiares e medidas que promovam mudanças de cultura organizacional. Incentivos como mentoria e coaching são importantes para encorajar mulheres a ocuparem espaços de liderança, bem como o comprometimento das instituições com o enfrentamento ao assédio e violência em todas as suas formas.  E para que elas se mantenham no espaço de tomada de decisão é necessário romper eventuais desconfianças e até mesmo “torcida negativa”. É fundamental que as mulheres sejam tratadas com respeito e confiança quando chegarem aos espaços de liderança. Dados do Observatório da Diversidade e da Igualdade de Oportunidades no Trabalho mostram que há um longo caminho a percorrer: mulheres ocupam apenas 38,2% dos cargos de direção no trabalho e os rendimentos das mulheres diretoras correspondem a 64% do rendimentos dos homens na mesma posição.

O que as empresas podem fazer para eliminar as desigualdades de gênero?

Há mais de dez anos, a ONU Mulheres e o Pacto Global desenvolvem os Princípios de Empoderamento das Mulheres para empresas públicas e privadas e organizações, para que atuem de modo ativo para eliminar as desigualdades de gênero, que impactam de modo diferente mulheres brancas, negras, indígenas, jovens, em idade reprodutiva e idosas. Por meio de 7 princípios, as empresas assumem compromisso na mais alta liderança e podem fazer diagnóstico, plano de mudança organizacional e mensurar progressos que tornem o ambiente equitativo e promovam impacto positivo na sociedade por meio de suas ações corporativas.

A liderança feminina pode ser considerada uma das principais tendências atuais, tanto no mercado de trabalhando quanto na sociedade como um todo?

Muitas mulheres têm conseguido chegar aos espaços de liderança, revelando, na prática, as vantagens de ambientes de trabalho plurais para os públicos interno, externo e para os negócios em termos de rentabilidade, competividade e impacto social. Contudo, percebe-se que nem todas as mulheres estao conseguindo romper estas barreiras, de forma que mulheres negras, por exemplo, ainda não estejam se beneficiando deste movimento, como destacado pelos dados da pesquisa do Ethos. Há ainda o desafio de a maior parte das mulheres permanece excluída dos postos de trabalho formal e das oportunidades de ascensão profissional. O Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça revela que o rendimento médio real das mulheres equivale a 70% do que recebem os homens. A dimensão racial mostra que a desigualdade salarial é ainda maior: mulheres negras acima de 16 anos recebem 58% menos do que os homens brancos. A taxa de desemprego das mulheres negras é duas vezes maior que dos homens brancos.

Qual o impacto da crescente presença feminina no mercado de trabalho? 

O aumento da partição das mulheres no mundo do trabalho não veio acompanhado da redistribuição do trabalho doméstico e de cuidado, tampouco de investimentos significativos em equipamentos públicos e privados que possam reduzir a sobrecarga de trabalho não remunerado executado pelas mulheres. Entender a ligação entre o trabalho não remunerado executado pelas mulheres e a discriminação que elas sofrem em suas atividades remuneradas e fundamental. Além disso, a crescente presença das mulheres no mundo do trabalho é marcada pela segregação ocupacional. Novas oportunidades de trabalho, como as que advêm da revolução tecnológica, mantêm lacunas de gênero. Atualmente, as mulheres têm somente 18% dos títulos de graduação em Ciências da Computação. No mundo, é necessária uma mudança significativa na educação de meninas, se quiserem competir com êxito aos “novos empregos” bem remunerados.

Na atualidade, as mulheres representam apenas 25% da força de trabalho da indústria digital. Para evitar essa trajetória excludente, uma das medidas importantes é o investimento na formação de meninas e mulheres em Ciências, Matemática e Tecnologia da Informação. Para aquelas que não estejam nessas áreas de conhecimento e trabalho, é fundamental investir na abertura e na manutenção de postos de trabalho estáveis e com potencial de crescimento no mundo do trabalho formal. Além disto, é fundamental discutir as discriminações interseccionais e o efeito do racismo para as mulheres, de forma que as mulheres negras, indígenas e jovens não sejam deixadas para trás e a igualdade entre homens e mulheres seja realidade vivenciada por todas as mulheres e meninas, como preconiza o ODS 5.  

Há um ambiente melhor para as mulheres no setor cooperativista?

Considerando que cooperativas são organizações democráticas que dependem da contribuição econômica igualitária de seus membros, elas se constituem como espaços favoráveis ao empoderamento econômico das mulheres e ao aumento de sua participação e representação. Entretanto, é necessário um enfoque de gênero e raça que garanta às mulheres em sua diversidade condições equitativas para participação e liderança em cooperativas.  Garantir a participação das mulheres cooperativadas nas instâncias de tomada de decisão das cooperativas e sua representação entre as lideranças é um desafio que precisa ser encarado não apenas por meio da promoção de práticas inclusivas dentro das cooperativas, que promovam a participação ativa das mulheres e combatam a discriminação de gênero e raça, mas também por meio do compartilhamento de tarefas domésticas e de cuidados nas famílias e do fortalecimento dos equipamentos públicos.


Por Fernanda Ricardi – Entrevista publicada em revista MundoCoop, edição 90



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