Alberto Roitman, consultor de carreiras e diretor Criativo na Nexialistas Consultores

Publicado em: 26 novembro - 2018

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Para Roitman, no momento é fundamental analisar a competência técnica, pois apesar de os aspectos comportamentais serem sempre relevantes, as empresas e cooperativas precisam de profissionais que saibam navegar em um mercado instável

Quando estávamos trabalhando a matéria Olhar que agrega (página 22) da edição 84 da revista MundoCoop, tivemos a oportunidade de conversar com o consultor de carreiras Alberto Roitman para nos aprofundarmos ainda mais no tema. Roitman é diretor Criativo na Nexialistas Consultores, com 15 anos de experiência em empresas privadas, participando ativamente da elaboração e aplicação de estratégias de unidades de negócio e companhias. Ele ainda reúne habilidade como levantamento, desenho e aplicação de treinamentos técnicos e comportamentais; condução de projetos de consultoria para desenvolvimento de soluções comerciais, tais como diagnósticos de equipes, construção de modelos comerciais e trilhas de desenvolvimento; criação e aplicação jogos empresariais; e gestão de equipes e projetos internacionais.

Sua expertise nos proporcionou outra visão do mundo corporativo e as conexões importantes que devemos fazer no cooperativismo. Confira:

Qual a maior dificuldade que as cooperativas tem em atrair talentos, seja como colaborador ou como cooperado?

As dificuldades são muito parecidas com as de uma empresa tradicional. Em geral, as companhias encontram uma grande quantidade de profissionais disponíveis no mercado, e como a taxa de desemprego é muito alta, diversos deles estão atualizando seus currículos de acordo com as vagas existentes. Isso significa que muitos estão desesperados, aceitando ou procurando qualquer emprego. Neste aspecto, fica muito difícil selecionar profissionais que tenham experiência comprovada em cooperativas, ou que de fato, queiram trabalhar em uma porque realmente se identificam com o negócio, ou se estão tentando se recolocar a qualquer custo no mercado.

Quais as dificuldades das cooperativas em profissionalizar sua gestão?

O aspecto reside no fato de que muitos profissionais que coordenam cooperativas ainda adotam modelos de gestão ultrapassados. Isso vem mudando, mas ainda é muito comum conhecer cooperativas com gestão familiar, e que existem há muitos anos praticando as mesmas rotinas. O mundo está mudando rapidamente e em algumas cooperativas o processo não muda. Os sistemas ainda são antigos, processos são ainda da época do “bambu com arame”. Claro que existem aquelas mais modernas que entendem que seu diferencial competitivo reside na informatização, adoção de políticas de compliance, governança sólida, profissionalização de seu quadro de executivos e diretores. Há cooperativas que nascem – ou já são – digitais, e outras que são analógicas. Estas certamente vão sofrer em todos os aspectos corporativos e a tendência é que sumam, se não se profissionalizarem.

Quanto a estrutura organizacional de uma cooperativa interfere no processo de profissionalização, por ser composta por vários donos que não visam ao lucro e as decisões são tomadas coletivamente?

O fato de não visar o lucro não pode ser confundido com assumir uma informalidade na gestão, ou mesmo, aceitar prejuízos. A lógica de uma cooperativa é extremamente louvável e vai ao encontro dos princípios mais relevantes do desenvolvimento econômico e social de um país. Porém, é muito importante entender que a democracia na tomada de decisão não pode ser morosa. Em muitas cooperativas decisões não são tomadas simplesmente porque todos precisam ser ouvidos, quando na verdade poderia se limitar a tomada de decisão a um grupo menor, mais especializado por assunto, com a concordância dos demais. Se seus representantes não confiam uns nos outros, o processo emperra e todos sempre desejarão ser ouvidos, principalmente nos assuntos mais irrelevantes ou sem sentido. A velocidade da tomada de decisão é um diferencial competitivo. Decisões precisam ser tomadas de maneira compartilhada, mas rapidamente. Se o processo é demorado, perde o sentido.

Como esse problema pode ser resolvido?

Em muitos casos a vaidade fala mais alto do que a orientação ao resultado e ao cooperado. Simplesmente precisa-se ouvir a todos, mesmo que suas respostas não sejam relevantes. A essência de uma cooperativa não pode deixar de ser realizada em virtude de uma lógica que atrase as decisões e os processos. É importante criar mecanismos de consulta e decisão rápidos. Não é necessário fazer reuniões presenciais, com deslocamentos demorados, viagens, encontros demorados, atas intermináveis. A tecnologia pode ajudar muito no compartilhamento de decisões.

Em função disso, é preciso ter uma formação específica para trabalhar em cooperativas?

Certamente. Orientação ao resultado, trabalho em equipe, visão de longo prazo e integridade são competências mais do que necessárias. Apenas admirar a lógica do cooperativismo não pode ser quesito suficiente. O setor precisa se profissionalizar. É a mesma coisa na política. Sofremos tanto com maus políticos que acabamos votando naqueles que parecem honestos. Porém, deveríamos votar nos honestos e competentes.

O que o RH deve contemplar ao realizar recrutamento, seleção, treinamentos, desenvolvimento de líderes?

Neste momento é fundamental analisar a competência técnica. Aspectos comportamentais são relevantes, sempre, mas agora precisamos de profissionais que saibam navegar em um mercado instável. Estamos em momentos econômicos turbulentos e que demandam profissionais com habilidades complexas. Realizar leitura de cenário, identificar oportunidades de parceria em outros ramos de atividade e desenvolver forte networking são quesitos importantes. O currículo passou a ser um jornal velho. Agora, importa muito mais o que um profissional poderá fazer para ajudar a cooperativa a alcançar novos patamares de resultados.

É importante ter uma empresa especializada por trás da atividade de seleção de novos cooperados e colaboradores?

Depende. Algumas cooperativas já passam por processos de profissionalização sem perceber. Tem executivos são muito bons e, aos poucos, vão adotando práticas de gestão conceituadas e vistas como modernas. Para estas cooperativas, solicitar ajuda especializada pode gerar a sensação de ouvir mais do mesmo. Para aqueles que ainda estão na ‘idade da pedra’, vale a pena solicitar ajuda de consultorias especializadas. Basicamente, uma empresa desta começará fazendo um bom diagnóstico. Levantará informações sobre pessoas, processos e sistemas e proporá alternativas para, paulatinamente, modernizar a cooperativa. Mas se a cooperativa possuir processos de gestão muito ultrapassados, a mudança, em geral, será mais dolorosa do que se imagina.

Que processo de transformação da área de RH precisa passar para atrair e reter talentos nas cooperativas?

Hoje está muito valorizado o conceito do EVP: Employee Value Proposition. Significa que o RH precisa adotar uma forte estratégia de ciclo de Gestão de Pessoas. O recrutamento e a seleção precisam ser muito bons. A integração de novos funcionários tem de ter o objetivo de antecipar a curva de aprendizagem. A contratação de objetivos, desenvolvimento dos profissionais, movimentações, promoções e até a demissão precisam ser bem estruturadas. Recursos humanos de cooperativas fortes são tão estratégicos e importantes quanto a área comercial ou de crédito.

Como customizar o que o mercado tem de melhor em práticas de RH de acordo com o negócio e atratividade necessária aos colaboradores das cooperativas?

É preciso tomar muito cuidado com as soluções prontas. No mundo corporativo e, principalmente no mundo das cooperativas, o que funciona bem em uma empresa pode não funcionar em outra. Para isso é fundamental realizar uma análise isenta do status quo, e o que seria o mundo ideal. Porém, é importante refletir sobre os benefícios das mudanças propostas. Quais ganhos em escala serão alcançados com a customização? Quais economias serão feitas? O que isso trará de vantagem para o cooperado? As respostas precisam ser, invariavelmente, muito positivas. Caso contrário, corre-se o risco de não sentir benefícios com as mudanças. Mudar os móveis de lugar pode dar uma sensação de que a casa está diferente, mas no fundo, são os mesmos móveis.

Qual o perfil de associados e de colaboradores que as cooperativas devem buscar?

Em ambos os casos é fundamental contar com pessoas com perfil progressista. A lógica de uma cooperativa esbarra em permitir que as fortalezas de cada um tornem uma equipe ainda mais forte. Para tanto, é importante enxergar como associados e colaboradores podem contribuir para a melhoria de desempenho do sistema. Pessoas subservientes, conformadas ou recorrentemente preguiçosas não podem fazer parte de uma cooperativa. Falamos que é necessário ter muita iniciativa, mas também, muita ‘acabativa’.

Quais são as características que um profissional deve ter para ser um bom cooperado?

Promover apontamentos com bom fundamento. Esquecer de fazer a crítica pela crítica. Estudar o mercado, enxergar e propor alternativas de desenvolvimento como um todo. Desenvolver o amor de dono e adotar comportamentos compatíveis com isso. Em muitas situações, cooperados decidem pela emoção. Na verdade, todos precisam zelar para que as decisões sejam as mais racionais e coerentes possíveis, embasadas em fundamentos claros e conceituados. Gerir com o coração, nem sempre é uma boa alternativa.



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