Ciência e tecnologia podem alimentar o mundo

Publicado em: 29 março - 2019

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Em recente passagem pelo Brasil, a bióloga molecular norte-americana Nina Fedoroff demonstrou preocupação com o crescimento da população mundial. Não é para menos, afinal, em 1950, éramos cerca de 2,6 bilhões de pessoas. Pouco mais de 50 anos depois, já somos mais de 7 bilhões de pessoas e a Organização das Nações Unidas (ONU) prevê que atingiremos a marca de 10 bilhões até 2050.

O problema demográfico envolve uma questão de escassez. Bilhões de pessoas em países em desenvolvimento, principalmente na China e na Índia, estão acessando alimentos mais caros, a exemplo da carne. Os animais de criação precisam ser alimentados com grãos e beber água para converter proteína vegetal em animal. Se todos os habitantes do planeta passarem a consumir esses e outros alimentos em grande quantidade, nossos recursos serão suficientes para suportar essa demanda sem exaurir o planeta? Essa é uma questão que interessa a Nina Fedoroff e deveria interessar ao leitor também.

Nina acredita que a saída para esse problema passa, necessariamente, pela ciência. Mais especificamente, pela sua área de especialização, a genética. Para ela, com o entendimento que temos a respeito dos genes, poderíamos modificar geneticamente as plantas para que elas consumissem menos recursos, por exemplo. Fedoroff aposta nos organismos geneticamente modificados (OGM) como ferramentas para lidarmos com a complexa questão de alimentar uma população crescente de maneira sustentável.

Seus esforços para encontrar uma solução para essa e outras questões, já foram reconhecidos pelo próprio governo dos Estados Unidos. Ela foi conselheira científica do Departamento de Estado dos EUA durante os governos Bush e Obama e foi condecorada com a Medalha Nacional da Ciência, a principal comenda destinada a cientistas. Em sua última visita ao Brasil, em outubro de 2018, falamos sobre esse assunto e depois, por e-mail e telefone. Confiram a seguir os principais pontos dessa instigante conversa.

Vamos começar pelo ponto mais sensível do debate sobre os OGM. Eles oferecem algum perigo para a saúde humana, animal ou ao meio ambiente?

Até o momento, não há qualquer evidência científica de que a adoção de culturas geneticamente modificadas (GM) cause mal à saúde humana, animal ou ao meio ambiente. Existem diversos resultados muito robustos que corroboram com essa afirmação. Por exemplo, a Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos, divulgou em 2016 um estudo que confirma que as culturas transgênicas são seguras. Vou usar as mesmas palavras da pesquisa “não foram encontradas evidências de que as culturas GM oferecem riscos para a saúde humana diferentes daqueles que apresentam as culturas convencionais, nem foram encontradas relações de causa e efeito conclusivas de problemas ambientais provocados por lavouras transgênicas”.

Mas como podemos ter certeza de que eles são realmente seguros?

Como cientista, sei ninguém podem afirmar nada com 100% de certeza. Entretanto, em ciência, a gente acumula evidências para formar nossos argumentos e opiniões. Se houvesse apenas dois estudos, um que indicasse que os transgênicos causam efeitos negativos e outros que dissesse o contrário, não teríamos base para uma afirmação contundente e confiante sobre a segurança desses produtos. Por outro lado, se 100 estudos falharam em mostrar que existe malefícios e um mostrou o contrário, é seguro afirmar que esse último seria desconsiderado. A proporção de estudos que mostram que os alimentos transgênicos são tão seguros quanto os convencionais, entretanto, é ainda maior. Apenas no documento da Academia de Ciências dos EUA que mencionei foram avaliadas mais de 900 publicações, mais de 80 especialistas foram ouvidos e 700 comentários do público foram considerados. Além desse trabalho, existem milhares de outros nos EUA e em todo o mundo. Portanto, “o peso da evidência” está do lado da segurança dessa tecnologia.

Isso me leva mencionar um dos trabalhos mais obscuros sobre o assunto. Em setembro de 2012, um pesquisador francês correlacionou o consumo de milho transgênico ao desenvolvimento de tumores em ratos. Como a população pode ficar tranquila diante de uma informação como essa?

Sim, essa publicação é uma das poucas que apresentou efeitos deletérios. Nesse caso, o trabalho de Gilles Eric Seralini mostrava ratos com enormes tumores. Entretanto, como eu disse acima, é improvável que todos os outros estudos que demostraram a segurança dos transgênicos tivessem ignorado um problema tão evidente quanto esse. Isso nos leva a crer que existe algo estranho com esse trabalho ou que, no mínimo, é preciso olhá-lo ainda mais criticamente. Nesse caso, cientistas que analisaram o estudo rapidamente identificaram graves falhas metodológicas. O número pequeno de ratos usados nas comparações (10 em cada grupo) não é suficiente para tirar conclusões e a linhagem de roedores utilizada é naturalmente propensa ao desenvolvimento de tumores. A revista que havia publicado o estudo, um ano depois, fez a retratação. À época, a investigação do editor-chefe encontrou “causas legítimas de preocupação” sobre a metodologia do estudo e afirmou que “em última instância, os resultados apresentados eram inconclusivos”.

Então, qual é o papel dos transgênicos na agricultura do futuro?

O futuro da agricultura e da alimentação, em um cenário de crescimento populacional, mais do que nunca, dependerá das decisões que tomarmos agora. Tecnologias que aumentam a produtividade e, ao mesmo tempo, reduzem seu impacto ambiental estão sendo desenvolvidas em diversos países. Essas novas ferramentas incluem, além de organismos geneticamente modificados (OGM), a digitalização da agricultura, o uso de inteligência artificial e o monitoramento de áreas por robôs. A velocidade com que seremos capazes de lançar mão desse pacote tecnológico, que pode nos ajudar a alimentar 10 bilhões de pessoas, depende de alguns fatores. Certamente, o nível educacional dos agricultores e sua propensão a mudanças vão influenciar. Entretanto, políticas governamentais, incentivos públicos e o estabelecimento da tecnologia como prioridade – o que inclui alocação de recursos – serão ainda mais relevantes.

O papel dos OGM no futuro da agricultura depende de todos esses fatores e de um adicional: a aceitação pública. A hostilidade das pessoas em relação aos transgênicos é generalizada no mundo hoje. Exatamente por isso, a habilidade dos cientistas, dos divulgadores científicos e da imprensa em comunicar nunca foi tão importante. Entretanto, ainda não vejo o reconhecimento da importância crescente dos cientistas que modificam as plantas em nível molecular e a valorização das muitas contribuições que eles já deram para a agricultura. Esse passo, será fundamental para que se desencadeie um processo que levará aos outros ou que, no mínimo, os tornará mais fáceis. Se levarmos em consideração o longo histórico de uso seguro das tecnologias de modificação genética no campo, por exemplo, veremos que é possível reduzir as exigências regulatórias sobre esses produtos e, assim, torná-los mais acessíveis para um número maior de agricultores.

Os críticos aos transgênicos também argumentam que essa tecnologia concentra o desenvolvimento de sementes em poucos players

Esse fenômeno é causado pelo altíssimo custo das regulamentações. Apenas grandes empresas de sementes conseguem dispor do investimento necessário em pesquisa, desenvolvimento e regulamentação para colocar no mercado sementes geneticamente modificadas. Uma recente estimativa calcula que seriam necessários investimento de aproximadamente US$ 100 milhões e em torno de uma década. Não é qualquer empresa que pode esperar 10 anos para ter retorno, se tiver. É por isso também que essa tecnologia, na maioria dos casos, está disponível para commodities, produtos produzidos em larga escala e que podem ser estocados sem perda de qualidade. Pequenas empresas, agentes públicos ou universidades, em geral, só conseguem fazer pesquisa básica, mas não desenvolver um produto e levá-lo ao mercado.

A resposta para esse quebra-cabeças parece óbvia. É preciso que as regulamentações ao redor do mundo foquem nas propriedades do organismo e no ambiente em que ele vai ser introduzido, não no método de obtenção por meio do qual o produto foi desenvolvido. Nos Estados Unidos, um passo nessa direção foi a decisão de não submeter um cogumelo Paris geneticamente editado à regulamentação de OGM. O fungo teve um de seus genes foi silenciado – mas nenhum DNA de outro organismo foi adicionado – e isso resultou na ausência de uma enzima que é responsável pelo escurecimento do fungo após o corte.


Entrevista originalmente publicada na edição de janeiro de 2019 da Revista Scientific American Brasil 

 



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