Consumo sustentável: teoria ou prática?

Publicado em: 20 março - 2020

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É fato que nos dias de hoje a pauta sustentabilidade vem sendo cada vez mais debatida. Entretanto, o crescimento dessas discussões não resulta, necessariamente, em uma evolução máxima de consciência e preservação. Pensando nesse cenário, a MundoCoop produziu o Anuário Brasileiro de Sustentabilidade 2020, onde entrevistamos a analista do Sebrae em Mato Grosso e gerente do Centro Sebrae de Sustentabilidade, Suênia Maria Cordeiro de Sousa.

Em entrevista, Suênia falou à MundoCoop sobre o consumo sustentável, pauta que deve deixar de ser debatida apenas em teoria e sim exercida na prática, visando um mundo melhor em que a sociedade tenha maior consciência das ações que impactam o meio ambiente e a vida da população.

Confira entrevista exclusiva!

O que é consumo sustentável?

As expressões ‘consumo consciente ou consumo responsável ou consumo sustentável’ possuem o mesmo significado. São conceitos que buscam chamar a atenção das pessoas para as consequências do consumo exagerado, impulsivo e desnecessário, que gera enormes impactos na geração de resíduos, descartes volumosos e incorretos com drásticas consequências ambientais e na saúde pública. Todos nós somos consumidores e precisamos consumir, mas é preciso se conscientizar de que nosso ato de comprar produtos e serviços implica em impactos. Não se trata de sugerir que as pessoas se privem de ter uma vida confortável e bem-estar, mas de mudar seus hábitos de consumo, que podem, inclusive, tornar a gestão financeira pessoal mais eficiente.

Portanto, consumo consciente não é deixar de consumir. É consumir o necessário, sabendo fazer escolhas de produtos e serviços para contribuir com a redução de impactos, desperdícios e do desequilíbrio econômico e socioambiental. Os hábitos de consumo provocam mudanças nas empresas e indústrias, responsáveis pelo fornecimento de produtos, serviços e alimentos ao mercado. Os consumidores são o motor dessas mudanças. A tão desejada implantação da ‘economia circular’ no Brasil depende da conscientização deles.

O consumidor consciente é aquele que sabe que os produtos e serviços têm um ciclo de vida, que começa na extração de matérias-primas da natureza, passa pelos processos produtivos, vai para o mercado, são adquiridos e usados até o momento do descarte, mas não para aí. A economia não é linear, mas circular. O ciclo de vida dos produtos e serviços, conceito basilar da economia circular, continua após o descarte: os resíduos são separados e encaminhados para serem reciclados ou reaproveitados – alguns retornam a um novo ciclo produtivo como matéria-prima, sem gerar impacto na natureza – e apenas os rejeitos, isto é, aqueles que não podem ser reciclados ou reaproveitados seguem para o descarte.

É preciso esclarecer que há outros aspectos importantes relacionados com o consumismo ou consumo exagerado. Segundo especialistas, questões existenciais próprias da natureza humana impelem ao consumismo como forma de preencher insatisfações de ordem individual e que podem acarretar endividamentos com despesas supérfluas e até a depressão. O cérebro desenvolve mecanismos para buscar novas necessidades e a pessoa pode se tornar um consumidor compulsivo. Consumir movido a vazios existenciais não é bom para o indivíduo nem para o planeta.

“O termo ‘consumo responsável’ incorpora a noção da utilização do poder de compra para definir práticas produtivas para incentivar o uso mais racional dos recursos naturais finitos e discutir a necessidade de redução dos resíduos”, diz a cartilha Produção e Consumo Responsáveis, desenvolvida pelo Centro Sebrae de Sustentabilidade, que está acessível para download em nosso portal www.sustentabilidade.sebrae.com.br  Convido os leitores do Anuário Brasileiro de Cooperativismo a acessarem esta e outras publicações que desenvolvemos e publicamos.

Quais atitudes individuais podem gerar um impacto sustentável coletivo?

Estudos demonstram que existem características específicas dos consumidores conscientes, responsáveis ou sustentáveis. Podemos citar algumas delas: evitam produtos que gerem impactos ambientais negativos; valorizam empresas que respeitam a legislação trabalhista; observam os selos verdes; procuram produtos certificados e valorizam certificações; levam em conta a biodegradabilidade ou degradabilidade do produto; consomem preferencialmente alimentos (frutas, verduras e legumes) orgânicos; compram produtos de madeira com certificação ambiental; escolhem produtos isentos de alvejantes e corantes; admitem pagar um preço maior por produtos ecológicos; compram produtos que tenham o mínimo de embalagem; preferem produtos com embalagens biodegradáveis, recicláveis ou retornáveis; dão preferência para o consumo de produtos de empresas que investem na preservação do meio ambiente e agregam alto valor social; reutilizam produtos, quando possível, ao invés de simplesmente descartá-los; não aceitam produtos testados em animais; valorizam a responsabilidade socioambiental.

Como uma organização pode implementar a sustentabilidade no dia a dia e como pode incentivar seus colaboradores a criar uma consciência sustentável?

As organizações são formadas por pessoas. Elas precisam estar no centro das atenções, quando se quer implementar a sustentabilidade na cultura organizacional, seja em empresas, instituições públicas ou privadas, cooperativas, entre outras. É necessário incluir a sustentabilidade como valor ou crença e que este conceito esteja ligado à missão da organização. Hoje, no mundo, não há mais espaço para organizações que não tenham sustentabilidade inserida em seu planejamento e estratégia. Em um negócio bem-sucedido, este tema tem que refletir a atitude de sua alta liderança. A liderança dá o exemplo.

No Sebrae MT, por exemplo, a cultura de sustentabilidade foi criada ao longo de várias etapas, sempre coordenadas pela diretoria.  A primeira delas foi a mais simples, voltada à ecoeficiência. Partimos de perguntas simples como: o que custa mais – energia, água ou resíduos? O que é mais importante? Assim decidimos começar pela redução do número de impressões, depois de verificar que grande parte era desnecessária, gerando economia de papel, energia e tempo.

Depois de algum tempo e outras práticas implantadas, desenvolvermos o Programa de Gestão Sustentável Interna, abrangendo todos os colaboradores com indicadores, que se tornou referência para todo o Sistema Sebrae.  A sustentabilidade passou a integrar o planejamento estratégico da instituição, em 2011. A implantação do Centro Sebrae de Sustentabilidade, no mesmo ano – como centro de referência nacional do Sistema Sebrae e para os pequenos negócios – foi consequência da atitude inovadora do Sebrae MT, reconhecida pelo Sebrae Nacional.

Nossa liderança é altamente conectada com valores da sustentabilidade e temos visão estratégica e nos tornamos também referência internacional em sustentabilidade para pequenos negócios. O tema está presente em nossas metas institucionais. Isto gera consequências positivas e reconhecimento no mercado. Desde o ano passado, o Sebrae MT e o CSS ocupam assentos no Comitê Brasileiro do Pacto Global junto a grandes empresas. Os pequenos negócios são vistos como protagonistas do desenvolvimento sustentável do Brasil, especialmente devido a seu impacto nas economias locais e territórios.

Citamos o nosso exemplo, pois é o que melhor conhecemos. A partir dele, podemos afirmar que a alta liderança das organizações, engajada com a sustentabilidade, é que é o melhor indutor do movimento de sensibilização e inserção do conceito na cultura organizacional.

Sugerimos outro caminho, também simples, para implementar esta cultura: analisar os processos da empresa/organização e os impactos da legislação em seu segmento. O que deve cumprir para sua sobrevivência: os licenciamentos ambientais, acordos setoriais, entre outros? Quais processos impactam mais os custos fixos, que podem ser reduzidos e retornar como ganhos para os colaboradores? Este tipo de atitude conecta muito as pessoas e equipes, tanto às metas como aos benefícios que vão receber.

Não podemos esquecer nunca as ações sociais, pois fazem parte da imagem e responsabilidade da organização perante a sociedade. Afinal, organizações/empresas se beneficiam muito atuando na sociedade e no mercado, afetando a vida das pessoas. A dimensão social deve fazer parte da missão das organizações/empresas.

Pesquisas mostram que ocorre maior engajamento dos times das organizações/empresas nas ações sociais e colaborativas, pois estas aumentam o sentimento de pertencimento nos colaboradores. Isto reverte em imagem positiva para a organização/empresa, pois o engajamento dos funcionários aumenta a conexão social com os clientes. A sociedade e a boa qualidade de vida precisam ser consideradas sempre como condição final das atividades empresariais e produtivas.

A economia circular ditada mundialmente é a grande tendência, no momento, para que empresas e organizações reduzam seus custos, desperdícios e impactos.  Além disso, para que possam reincorporar toda e qualquer sobra dentro do próprio processo produtivo e, no final, encaminhar para o descarte apenas o que não dá para ser reaproveitado. Nesse contexto, existem práticas exitosas em diversos setores e em muitos países, que podem ser replicadas por todos os tipos de organizações em várias regiões do planeta. Vale a pena conhecer para também aderir a este movimento, que veio para ficar.

O Brasil tem potencial para se tornar um país sustentável? Se sim, por que ainda não se tornou?

O Brasil é um dos países que possuem maior potencial de se tornar um país sustentável. A primeira condição está no fato de a maior base econômica do Brasil, em termos de quantidade, estar alicerçada nos pequenos negócios. Eles estão em toda parte: nas grandes, médias e pequenas cidades, nos rincões e nas fronteiras do país. Este segmento corresponde a 98,5% das empresas brasileiras.  É uma massa silenciosa que trabalha muito e gera mais de 54% dos empregos e renda em todo o território nacional.

Sustentabilidade tem a ver com qualidade de vida.  A distribuição de renda, geração de emprego decente e qualidade de vida permeia todas as metas dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 das Nações Unidas (ONU). Isto é o que os pequenos negócios fazem no Brasil, contratando mão de obra local, comprando de fornecedores também locais e apoiando as comunidades, que vivem em seu entorno.  

O Brasil é um país de pequenos negócios. Isto é uma riqueza. Se forem dadas as condições de desenvolvimento e ambiente propício aos empresários de micro e pequenas empresas e aos microempreendedores individuais, o Brasil pode se tornar um exemplo de país sustentável para o mundo.

Outro diferencial brasileiro é a riqueza de nossa biodiversidade. Hoje, o mundo vive de negócios ligados à biodiversidade dos países. França, Costa Rica e Inglaterra são alguns exemplos de como desenvolvem o turismo como setor grande gerador de riquezas. O Brasil possui enorme potencial turístico, especialmente ligado à sua rica biodiversidade, e temos muito a fazer para implementar esta indústria no país.

Além disso, podemos e devemos potencializar a bioeconomia, pois possuímos seis biomas diferenciados (Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga, Mata Atlântica e Pampas) com vários ecossistemas, que são uma riqueza incalculável, porém ainda não sabemos valorizá-los. Se integrarmos esta riqueza às atividades empresariais e das organizações, a partir de uma interação harmoniosa com os biomas e ecossistemas, poderemos gerar mais negócios e alcançar prosperidade e bem-estar para todos. Tudo será muito diferente. Nossa rica biodiversidade pode ser aliada dos negócios e não o contrário.

Não nos tornamos, ainda, uma potência sustentável, pois não enxergamos as oportunidades existentes no desenvolvimento sustentável, isto é, que podemos nos desenvolver economicamente com preservação ambiental e alto valor social. Precisamos reconhecer, também, que os pequenos negócios são protagonistas essenciais do desenvolvimento brasileiro.

Quando isto for percebido, teremos um outro Brasil. Enquanto isto não acontece, vamos continuar copiando modelos ou replicando condições econômicas, sem contemplar as maiores riquezas do Brasil.  Esses modelos importados geram escassez de recursos naturais e podem aumentar a mortalidade de empresas e, consequentemente, a redução de empregos e renda no país.

Campanhas como as que incentivam o uso e venda de canudos de inox, por exemplo, contribuem para gerar uma consciência sustentável ou acabam apenas incentivando mais o consumo que a conscientização?

A grande pegada mundial, hoje, para conscientização sustentável é a redução do desperdício. Estamos migrando de uma economia puramente material para a de serviços (desmaterializada), reduzindo a pegada dentro do ambiente natural para entregar serviços com valor agregado em experiência e vivência. Na economia desmaterializada, comandada pelo setor de serviços, as pessoas contribuem como consumidores conscientes e engajados com o bem-estar e a qualidade de vida coletiva. Não são meros consumidores de produtos materiais.

Substituir o canudo de plástico por canudo de inox ou feito com outro material não significa muita mudança, pois nós bebemos sucos naturais da biodiversidade brasileira, por exemplo, que talvez nunca provamos antes, que podem estar em copos de vidro ou copos biodegradáveis. O que importa é a experiência, é o consumo de experiência e não das coisas.

Campanhas para usar novos materiais na produção de canudos estão numa zona de transição. Na verdade, não há necessidade de canudos, sejam eles de plástico, inox, etc Se ele desaparecer, não será imprescindível para termos a experiência de beber deliciosos sucos de frutas de nossa biodiversidade.

O setor de serviços cresce rapidamente. Negócios conectados ao bem-estar humano são a tendência atual. A bioeconomia cresce no mundo, pois a experiência é mais importante. Estamos vivendo a consolidação da economia desmaterializada, na qual o setor de serviços é o grande protagonista.

Outra constatação é o fato de os jovens não quererem mais possuir automóveis. Eles desejam viajar pelo mundo, preferem alugar patinetes, bikes, motos e carros para não enfrentar engarrafamentos ou não ter onde estacionar. O mesmo acontece com computadores: hoje os espaços de coworking oferecem equipamentos com recursos tecnológicos, que são caros, para quem quiser trabalhar, estudar, etc A tecnologia muda diariamente e fica praticamente impossível comprar todas as novidades para se manter atualizado.  É mais fácil e mais barato entrar no coworking e pagar pelas horas que se vai usar os computadores com todos os recursos. A migração da economia materializada para a desmaterializada, centrada no compartilhamento, também está atingindo a vida das organizações e empresas.

O cooperativismo é uma alternativa para construir uma cultura mais sustentável na sociedade?

As cooperativas estão centradas na ideia da cooperação e do compartilhamento, que são as palavras-chave da migração da economia materializada para a economia desmaterializada. Então, as cooperativas saem na frente.

Colocar o foco na experiência é uma forma de potencializar os negócios, inclusive no movimento cooperativista. Ações cooperadas na área de ecoeficiência serão melhor implementadas de modo coletivo, por exemplo, em projetos de energias renováveis, na gestão de resíduos e na adoção de tecnologias inovadoras. Fazer tudo isto coletivamente se torna mais barato e é um caminho muito mais rico em experiências. A troca de conhecimento entre aqueles que sabem mais e os que sabem menos resulta em um formidável aprendizado, que beneficia a todos. Ao fazer o planejamento conjunto, envolvendo todos os cooperados que adotam o mesmo valor e comunicar à sociedade e mercado, resultará em maior relevância enquanto segmento.

Se a gente pensar em alimentos, por exemplo, uma cooperativa de leite que realiza boas práticas – o solo é recuperado, as nascentes são preservadas e o alimento é vendido com rastreabilidade – alcançará muito mais significado na sociedade e no mercado.

No contexto internacional e nas certificações em cadeias de valores com grandes players globais, os consumidores prestam cada vez mais atenção sobre: como os produtos chegam até à sua mesa; como são as condições de preservação ambiental, de saúde animal e, especialmente, as condições dos trabalhadores, entre outros.

Um empresário sozinho dificilmente vai conseguir satisfazer os consumidores conscientes. As cooperativas, ao contrário, têm grande rede de interlocução com a sociedade e com as questões nacionais. Podem aderir e repercutir muito mais estas tendências. Há vários prêmios instituídos pela ONU, suas agências e vários outros organismos que incentivam pessoas e organizações a se adequarem às melhores práticas sustentáveis. Essas premiações dão enorme visibilidade a quem está participando ativamente da transformação da economia.

As cooperativas agregam pessoas que geram emprego e renda e estão relacionadas com o ODS 8 (Trabalho decente e crescimento econômico). Então, as cooperativas que olharem para as metas do ODS 8 e falarem quantos empregos geram e como apoiam as comunidades onde atuam, despertarão muita atenção e se diferenciarão daqueles que não estão participando da transição.  

O cooperativismo também está intensamente relacionado com o ODS 12 (Produção e Consumo Sustentáveis). Se houver atividades de planejamento das cooperativas, deliberadamente ligadas a estes dois ODS, comprovadas por indicadores por todos os cooperados para apresentar à sociedade, certamente alcançarão maior relevância na sociedade de consumo. As práticas dos ODS 8 e 12 são muito observadas pelos consumidores, especialmente pelos jovens que estão ingressando no mercado.

As práticas de sustentabilidade como premissas básicas de contratos também podem gerar uma grande repercussão para as cooperativas, pois demonstrarão como elas lidam com as pessoas, o bem-estar da humanidade e a natureza. E, ainda mais: como estão contribuindo para a evolução da economia e o equilíbrio do planeta.  


Por Redação MundoCoop – Entrevista realizada para o Anuário Brasileiro do Cooperativismo 2020



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