Eduardo Tevah, gestor e consultor de empresas nacionais e internacionais

Publicado em: 01 novembro - 2018

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Para Tevah, mais de 70% do engajamento das pessoas depende exclusivamente da qualidade de suas lideranças, da capacidade desses líderes de reconhecer e ouvir seus liderados

Reconhecido como um dos grandes nomes do Brasil nas áreas de liderança, vendas e mudança comportamental de equipes, Eduardo Tevah conta sua vivência em palestras e livros, que somam mais de 300 mil exemplares vendidos. O profissional acredita que o cooperativismo deve usar o seu diferencial de atuação, o jeito humano de fazer negócios, para garantir sua sustentabilidade em um mundo de hipercompetição. Segundo ele, o setor privado passa por um período crítico de engajamento de pessoas, um desafio a ser vencido pelas lideranças. Confira, nesta entrevista para o Portal do Sistema Ocemg, o que o consultor pensa sobre cooperativismo, cooperação, competitividade e gestão.

Desafios de liderança e de gestão são constantes e é a partir deles que acontece o desenvolvimento. Quais são os pontos-chave para superá-los?
O maior desafio é entender que convivemos com o mais baixo nível de engajamento de pessoas na história recente do Brasil. Em empresas e cooperativas, em média, o engajamento é ao redor de 20%. Isso significa que apenas uma a cada cinco pessoas chega no trabalho para fazer o seu melhor. É importante que os líderes entendam que mais de 70% desse engajamento depende exclusivamente da qualidade da liderança, de sua capacidade de reconhecer as pessoas e de ouvi-las. Isso porque somente 30% do engajamento está ligado à remuneração ou a questões de horário, que chamamos de parte estrutural do trabalho. É preciso que a liderança entenda que o seu foco é criar uma equipe verdadeiramente comprometida em fazer o seu melhor.

Cooperar ou competir? Ou cooperar e competir? Qual a sua visão sobre esse aparente paradoxo?
Cooperativas são competitivas porque cooperam. Vivemos tempos complexos e o modelo tradicional, em que cooperados praticam a cooperação apenas dentro da cooperativa, terá vida curta. É necessário que as cooperativas cooperem entre si, trocando know-how, experiências e ideias. Hoje vemos muito pouco de benchmarking, que é estudar e “copiar” o que os outros estão fazendo. É importante ficar por dentro do que está sendo feito com excelência no mercado para aprender. Por fim, se as lideranças cooperativistas estiverem vinculadas, cada uma tendo a humildade de aprender com a outra, isso fará com que o cooperativismo se torne cada vez mais competitivo.

Devemos nos preocupar mais com a crise ou com a hipercompetição? Por quê?
Com a hipercompetição. Porque a crise vai passar, mas a hipercompetição, não. A concorrência está maior e haverá cada vez mais players de todo o planeta vindo para o Brasil. O mundo caminha para uma competição nunca antes vista na história, por isso devemos nos preparar. Será um cenário seletivo de mercado e nem todas as cooperativas estão prontas para um novo nível de competição, mas muitas estão se preparando para que, quando esse momento se apresentar, possam aproveitar todas as vantagens possíveis.

Planejamento estratégico bem feito é a base para a excelência, mas em 70% das empresas e cooperativas, é ineficaz ou não existe. Por que isso acontece?
Em primeiro lugar, porque o planejamento estratégico é feito na rotina das cooperativas, e isso não pode ser criado em ambientes rotineiros. Só é possível ter planejamento estratégico quando um grupo de gestores se afasta do local em que trabalha, passando a ter a mente voltada para pensar sobre mudanças, cenários e objetivos. O segundo erro é que grande parte dos planejamentos estratégicos não termina com um plano de ação, ficando apenas na reflexão. E, em terceiro lugar, porque boa parte das lideranças gerencia por informação e não por constatação. Tudo isso deve ser complementado por indicadores, porque tudo que não pode ser medido não pode ser cobrado.

O cooperativismo passa por um momento de aproximação com a sociedade, de valorização e foco na visibilidade dos produtos e serviços do setor, por meio do Movimento SomosCoop. Como os líderes do segmento podem engajar cada vez mais seus cooperados e colaboradores em busca do sucesso?
Quanto mais tecnologia disponível, maior a carência do atendimento individual, do lado humano do negócio. Quando se está próximo ao cooperado, proporciona-se uma experiência que um concorrente não conseguirá oferecer. A tecnologia deve ser usada como uma aliada do cooperativismo. Claro que alguns ainda irão decidir exclusivamente pela tecnologia e pelo menor preço, mas boa parte das pessoas vai optar pelo lugar em que se sentem valorizadas e é nesse nicho que o cooperativismo assume a vanguarda.

Os princípios e valores cooperativistas diferenciam o segmento dos demais. Como trabalhar esses aspectos para sair na frente de outras empresas?
Os valores do cooperativismo são o norte de sua atuação, mas vejo que ainda estão muito no mural e pouco no dia a dia da cooperativa. O desafio dos gestores é tirá-los do plano teórico e transformá-los em realidade, e isso só é possível por meio de pesquisas junto aos associados, criando grupos e traçando perfis. Se não houver um mecanismo de feedback para os gestores entenderem as necessidades do seu público, os valores dessa cooperativa estarão apenas no manual.

Como sair do conservadorismo e inovar na cooperativa? Em que sentido a inovação pode impactar diretamente nos públicos de interesse?
Entendendo que inovação não é disrupção. Disrupção é mudar o jeito de fazer negócio. Inovação é fazer com mais qualidade e satisfação para os associados, com menor custo. Significa entregar valor além do produto e do serviço já oferecidos. Pensa-se que a única coisa que pode mudar determinado cenário é a tecnologia, porém ela é um instrumento e não o fim da inovação. Precisamos entender que a tecnologia é uma maneira que temos para nos aproximar dos objetivos traçados.



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