Desenvolvimento que transforma o país

Publicado em: 07 maio - 2019

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Completando 46 anos em abril, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ligada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, possui uma trajetória de contribuições com o desenvolvimento do Brasil a partir do fomento às tecnologias e inovações na área rural. As pesquisas desenvolvidas não só transformaram o país como, também, tornaram a agropecuária nacional em uma das mais eficientes e sustentáveis do planeta.

Para criar um panorama atual de como a Empresa tem impulsionado os avanços brasileiros e estimar progressos futuros, o presidente da Embrapa, Sebastião Barbosa, em entrevista exclusiva para a MundoCoop, falou sobre os maiores desafios do setor agropecuário no país, a relação da ciência e tecnologia com o meio rural e como o cooperativismo incentiva o crescimento tanto do setor quanto do país.

Confira!

Com uma trajetória que ultrapassa quatro décadas, é possível dimensionar as maiores conquistas da Embrapa para o país nos últimos anos?

Desde a sua criação, a Embrapa tem contribuído muito com a história do desenvolvimento da agropecuária brasileira. Ao longo dos últimos 46 anos,  a pesquisa científica ajudou para que o Brasil aumentasse em cinco vezes a produção de grãos,  em 240% a produção de trigo e milho, 315% a produção de arroz, sem contar a elevação da produtividade do setor florestal em 140%, o triplo do setor cafeeiro e 59 vezes mais a produção de carne de frango. Graças a isso, atualmente conseguimos alimentar aproximadamente 1,5 bilhão de pessoas no mundo – uma marca representativa que tende a ser ampliada ainda mais no futuro, graças ao esforço da pesquisa. É importante destacar que tudo isso foi alcançado sem que houvesse distinção – a Embrapa trabalha para o pequeno produtor e para o grande, da mesma forma para o orgânico e para o transgênico, assim como para os demais segmentos, porque todos são agentes fundamentais no contexto de constante transformação.

Claro que durante esses anos a ciência, a tecnologia e a inovação contaram com a parceria dos agricultores, com o apoio de políticas públicas, com a organização das cadeias produtivas, com a extensão rural e com as demais instituições de pesquisa com as quais esteve vinculada, para que esses impactos  pudesse ser realmente efetivos.

A Embrapa gerou conhecimentos e tecnologias para a agropecuária nacional, que permitiram, por exemplo a redução de custos e ajudaram o Brasil a aumentar a oferta de alimentos e a diminuir o valor da cesta básica em mais de 50%. Desenvolveu produtos (variedades e híbridos, clonagem animal, germoplasma, bioinseticidas, organismos geneticamente modificados, máquinas agrícolas, equipamentos, vacinas), processos (manejo de sistemas agrícolas, metodologias de processamento de alimentos, modelagem de precisão, etc), informação (rastreabilidade e certificação, redes de segurança biológica, biossegurança, monitoramento de qualidade ambiental e de cadeias de alimentos, entre outros) e serviços (incubação de empresas, consultorias, intercâmbio de germoplasma, redes de informação e controles de qualidade).

Para o Brasil, o desenvolvimento de cultivares de espécies de plantas adaptadas às condições tropicais e subtropicais do País e adequadas às necessidades dos diversos segmentos fez toda a diferença. Entre 1970 e 2018, houve um aumento de 196% na produtividade das lavouras, com muito menos desmatamento de cerrados e florestas, graças à pesquisa científica.

O que torna a agropecuária nacional uma das mais eficientes e sustentáveis do planeta?

 Esta sempre foi uma das principais preocupações da pesquisa: conciliar produtividade com a preservação dos recursos naturais. Nos últimos anos, o Brasil tem avançado em tecnologias de manejo e conservação do solo, manejo integrado de pragas e doenças e na fixação biológica de nitrogênio, só para citar alguns exemplos. Por meio da adoção do plantio direto em cerca de 46 milhões de hectares do território, o país hoje produz cereais, leguminosas, oleaginosas e algodão sem a necessidade de aração. Graças à fixação biológica de nitrogênio, foi possível diminuir o uso de fertilizantes químicos, contribuindo para a redução na emissão de gases de efeito estufa. O manejo integrado de pragas e doenças, que tem sido implementado em algumas das principais culturas, como soja, algodão e frutíferas, também tem ajudado muito a conferir essa característica de sustentabilidade ao agro. Em parceria com diversas instituições de pesquisa, a Embrapa também tem investido em ações voltadas para cada um dos biomas brasileiros, por meio do ordenamento, monitoramento e gestão em territórios, valorização do bioma e produção agropecuária e florestal sustentável. Com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a Embrapa coordena um projeto específico com o objetivo de viabilizar soluções que associem os sistemas de produção e de preservação em diferentes paisagens, fortalecendo o componente arbóreo nas propriedades rurais. Durante nove anos, mais de 200 pesquisadores de diferentes instituições de pesquisa estarão trabalhando envolvidos na iniciativa.

E temos ainda uma das mais importantes estratégias de eficiência e sustentabilidade da agropecuária que é a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, que permite a produção de grãos, carne, leite e madeira ao longo de todo ano em uma mesma área na propriedade rural, com inúmeras vantagens, além, é claro, do aumento da renda do produtor rural, da pressão por desmatamento e a redução das emissões de gases do efeito estufa. Atualmente, essa estratégia está sendo adotada em cerca de 15,5 milhões de hectares.

Ainda sob essa perspectiva, podem ser citadas as pesquisas relacionadas à agronergia, uma alternativa aos combustíveis fósseis, e o conjunto de informações sobre os solos do País, um trabalho extremamente importante porque ordena e classifica o conhecimento, subsidiando a produção a partir de um banco de dados composto por 220 projetos de pesquisa cadastrados e cerca de 8.800 perfis de solos.

Temos ainda o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), fundamental para orientar as melhores datas de plantio das culturas para cada município brasileiro, reduzindo riscos de perdas por fatores climáticos, atendendo a mais de 40 culturas, e que hoje é a base para o seguro agrícola brasileiro.

Centro de pesquisas Embrapa

Quais são as maiores dificuldades e obstáculos do setor agropecuário no Brasil atualmente?

 Os desafios não são poucos. A maturidade tecnológica que a pesquisa atingiu hoje tem contribuído com a identificação dessas dificuldades e a prospecção das estratégias que precisam ser desenvolvidas para que sejam superadas. As profundas transformações – econômicas, culturais, sociais, tecnológicas, ambientais e tecnológicas – têm ocorrido em alta velocidade. E nesse contexto, podem ser destacadas, a partir da necessidade de manter o protagonismo como País produtor de alimentos, as projeções de aumento de consumo e os impactos sobre os recursos naturais, além das mudanças do clima, o protagonismo dos consumidores, que têm se tornado ainda mais exigentes, a escassez de mão de obra no meio rural e a obtenção de lucratividade, com redução dos custos de produção. A democratização das inovações tecnológicas e do conhecimento desenvolvido pela ciência, a profissionalização e o empreendedorismo do agricultor familiar são fundamentais para que haja a evolução que se espera do setor para os próximos anos.

Os agentes públicos também precisam estar atentos cada vez mais à necessidade de elaboração e fortalecimento de políticas públicas que garantam o suporte à atividade agropecuária.

Qual é o nível de desenvolvimento da ciência e tecnologia do país e sua relação com o meio rural hoje? O que é preciso ser feito para que isso se amplie? 

A liderança brasileira como um dos principais produtores de alimento do mundo é a resposta a essa pergunta. Temos uma agricultura movida a ciência. Desde a revolução agropecuária dos anos 70, quando o Brasil deixou a posição de país importador de alimentos para se tornar um grande exportador, com a adoção de novas formas de produção tropical, a pesquisa tem sido reconhecida como o principal fator que impulsionou essa evolução em prol do produtor. Hoje mais de 20% do Produto Interno Bruto nacional vem do setor agropecuário, graças aos benefícios que a ciência tem oferecido.

Por meio da inovação, tem sido possível a adoção de boas práticas no campo, com enorme impacto nas opções de consumo, na redução de custos com alimentos e nas exportações para cerca de 200 países.

Mas para que esse nível se mantenha e os novos desafios do futuro sejam superados, investimento é essencial. A pesquisa requer mais atenção e principalmente políticas públicas que garantam a disponibilização de recursos. Existe uma necessidade imensa de que o produtor rural seja atendido em suas necessidades, em primeiro lugar,  e só com recursos será possível ampliar o impacto das inovações no campo. A pesquisa não é imediatista – a pesquisa é prospectiva. Ela tem que antecipar os problemas e identificar novas oportunidades. Não apenas atender demandas. Por isso, é fundamental o fortalecimento das instituições não apenas com pessoal qualificado, mas com equipamentos, infraestrutura, laboratórios sofisticados, enfim, com os elementos necessários ao desenvolvimento da ciência. Não se pode perder de vista que a competitividade do agro brasileiro precisa continuar dando saltos de qualidade para manter essa condição invejável que o Brasil conquistou.

Qual a importância da cooperação internacional para a agricultura e pecuária brasileira?

 A troca de conhecimento e experiências é fundamental para uma instituição de pesquisa, principalmente quando o seu foco de atuação é o desenvolvimento agropecuário e a busca por alternativas que garantam produtividade, com sustentabilidade, qualidade e segurança alimentar para a sociedade. Não há dúvidas de que a Embrapa hoje não é mais uma empresa nacional – é uma empresa global e para isso, ao longo de sua trajetória tem reforçado uma sólida rede de cooperação internacional. Estamos presentes em todos os continentes, com parcerias com algumas das principais instituições e redes de pesquisa do mundo, além de participar ativamente na negociação de políticas globais, apoiando os Ministérios da Agricultura (Mapa) e das Relações Exteriores (MRE), por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), responsável pela negociação, implementação e acompanhamento da atuação brasileira, como parte da política externa do Governo Federal.

Entre as iniciativas de cooperação científica, podemos destacar o Programa Embrapa Labex Estados Unidos e o Programa Cientista Visitante, que possibilitam a inserção de pesquisadores da Empresa em equipes científicas internacionais sem a necessidade de uma infraestrutura própria fora do País. São 196 acordos bilaterais, 9 acordos multilaterais, parceria com 141 instituições de 45 países. Entre os resultados mais importantes, a Embrapa contribuiu para o desenvolvimento da vacina contra a influenza H1N1, em suínos.         

Unidade Embrapa Soja

O ramo agropecuário é um dos maiores e mais fortes dentro do cooperativismo, qual a influência desse modelo socioeconômico para o setor?

 O cooperativismo agropecuário tem importante participação na economia brasileira, sendo responsável por quase 50% do PIB agrícola. São mais de 1 milhão de pessoas envolvidas diretamente em mais de  1.500 instituições e 180 mil produtores. Segundo dados do Censo Agropecuário do IBGE, 48% da produção agropecuária brasileira estão vinculadas a uma cooperativa, que contribui para manter o agricultor no campo, fomentando a comercialização dos produtos, sem contar os outros benefícios. Além da inclusão do homem do campo, o cooperativismo beneficia a coordenação da cadeia produtiva, com geração e distribuição de renda, acesso a mercados e agregação de valor à produção. Essa forma de organização representa a melhoria da qualidade de vida do produtor e um meio de desenvolvimento sustentável local. As cooperativas constituem forças poderosas de disseminação do conhecimento justamente por trabalhar com bastante proximidade à Embrapa, captar o conhecimento gerado pela pesquisa e disseminá-lo aos seus cooperados. O cooperativismo é uma estratégia de negócio para os produtores que teriam dificuldade de alcançar o mercado – quando os produtores se organizam em torno de uma cooperativa fica mais fácil comprar insumos a um baixo custo e também conseguir melhores preços para o seu produto. É o caminho para a inclusão.

Quais questões a Embrapa vê como primordiais para conseguir continuar com o trabalho extremamente necessário que vem realizando em território nacional?

 A necessidade de mais investimentos na pesquisa, sem dúvida, é uma prioridade, assim como a busca por parcerias que contribuam com a garantia de recursos. A Embrapa tem enfrentado dificuldades com um orçamento praticamente estagnado.  Para que a Empresa continue sendo estratégica e mantenha o seu protagonismo na produção de conhecimento, é preciso sustentabilidade econômica. Para cada real aplicado na Embrapa em 2018, foram devolvidos R$ 12,16 para a sociedade, segundo o Balanço Social, que apontou um lucro de R$ 43,52 bilhões para o setor agropecuário. Uma instituição estratégica depende de investimentos contínuos de médio e longo prazo.

Quais as expectativas da Embrapa para o futuro?

Grande parte da pobreza brasileira está no meio rural, por isso um dos maiores desafios é dedicar mais atenção a esse setor, sem perder de vista que a competitividade do agro brasileiro precisa continuar dando saltos de qualidade para manter essa condição invejável que o Brasil conquistou. A Embrapa não impõe suas tecnologias – ela as disponibiliza e o mercado é quem as regula. Produzimos as ferramentas. Conhecendo as demandas do setor, temos soluções que melhor se adaptam às necessidades do produtor, do consumidor e do mercado. É um processo dinâmico em que precisamos estar muito mais atentos. Atingimos uma fase de maturidade tecnológica, que nos habilita a enfrentar os novos cenários. A partir de agora, se espera não só a expressividade quantitativa da produção científica, mas a prospecção e a busca de oportunidades, adaptadas ao contexto atual da realidade agropecuária nacional e internacional.

Como o senhor definiria esses 46 anos da Embrapa?

A Embrapa deixou registrada uma marca forte na trajetória do agro nacional. O que a elevou a uma instituição de pesquisa referência na ciência agropecuária foi o protagonismo. Não só por meio de produtos ou contribuições em cima de processos, seja no café da manhã, ao consumir um pão, seja no leite, seja no café (a Embrapa é líder no programa do Consórcio Brasileiro do Café), no almoço, no arroz, no feijão, no bife (hoje, mais de 90% da forrageiras tropicais são produzidas pela Embrapa), a Embrapa está presente no dia a dia da sociedade.

Nas principais cadeias produtivas do agronegócio, também se pode enumerar a sua participação no desenvolvimento de ativos tecnológicos, por meio de produtos, processos, de serviços e na formulação de políticas públicas que impactaram os diferentes setores do agro.

Ao longo dos 46 anos, a Embrapa conseguiu promover mudanças de hábitos de consumo, auxiliando na busca pela qualidade de vida e para a segurança alimentar, para além do País, a partir do momento em que o Brasil hoje produz alimentos para abastecer cinco outros Brasil, para cerca de 1,2 bilhão de pessoas.

A Embrapa também está na liderança da produção científica do ranking das instituições não acadêmicas do País e entre as dez primeiras com o maior nível de produtividade, de acordo com o Balanço Social 2018.


Por Fernanda Ricardi – Redação MundoCoop



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