Foco na reforma da previdência

Publicado em: 13 março - 2019

Leia todas


Engenheiro e um dos mais respeitados economistas do País, Luiz Carlos Mendonça de Barros, 76 anos, presidiu o BNDES entre 1995 e 1998, foi ministro das comunicações do governo FHC, criou bancos, atuou como promotor cultural e foi sócio de bem-sucedidas empresas de investimentos. Sempre na ativa, e com uma visão assertiva dos meandros políticos e econômicos do Brasil, Mendonça de Barros presta consultorias à multinacionais e mantém colunas regulares na grande imprensa.

Nesta entrevista com exclusividade a MundoCoop, o empresário economista analisa as perspectivas do Brasil em face a esta nova configuração política do Brasil, alerta para a fundamental importância da reforma na previdência e ainda lembra da influência e aprendizado que teve na infância com uma cooperativa de cafeicultores.

 Como o senhor vê o atual momento político e econômico do Brasil com a eleição, ainda que polarizada, do presidente Jair Bolsonaro?

Vivemos um momento de grandes transformações políticas e econômicas no Brasil. À estabilidade monetária criada pelo Plano Real seguiu-se um longo período de paz e funcionalidade da política, com dois partidos de centro-esquerda dominando o cenário congressual e eleitoral. Com o colapso do governo Dilma e os escândalos de corrupção revelados pela Lava-Jato este ciclo de estabilidade chegou ao fim. Como sempre acontece em momentos como este, vamos viver agora a construção de um novo consenso político e, certamente, uma revisão da institucionalidade econômica que molda nosso chamado ambiente de negócios, adaptando-o a certa hegemonia da centro-direita.

O senhor acredita que será possível promover, de fato, uma reforma da previdência que seja consensual e ao mesmo tempo capaz de reduzir o rombo no sistema?

Hoje tenho esta convicção, pois a questão da estabilidade fiscal do governo (federal e estaduais) passou a ser de conhecimento da maioria da sociedade. Os atrasos nos salários dos governos estaduais são hoje uma força nova para a aprovação da Previdência. Outro fator importante para que tenhamos agora chance de sua aprovação vem da realidade política: os partidos de esquerda, principalmente o PT, que sempre lideraram a oposição a ela no Congresso estão de joelhos, o mesmo ocorre com os sindicatos, estão sem força de mobilização na opinião pública e no Congresso.

Na sua opinião, quais outras reformas se fazem necessárias para que o País possa, efetivamente, crescer de maneira sustentável?

A mais importante delas é a da Previdência. Sem a sua aprovação o Brasil entrará em colapso e as outras reformas não terão condições de serem sequer discutidas. Vamos focar na Previdência e deixar que a recuperação cíclica, que ocorrerá na economia, permita que o governo ganhe musculatura na política e na opinião pública para poder tocar as outras.

É notório o otimismo de muitas lideranças empresariais desde meados do ano passado, quando já se percebeu sinais positivos de recuperação econômica. Esse otimismo está bem fundamentado em fatores econômicos ou é apenas entusiasmo por conta de uma mudança nos rumos políticos do País?

O otimismo que tomou conta do empresariado, principalmente depois das eleições, tem na minha opinião dois motivos principais: o primeiro deles é de natureza política e nasce do afastamento do PT como protagonista central na sociedade brasileira; o segundo fator é de natureza puramente econômica e nasce da percepção que estamos em um ponto do ciclo econômico no qual a ação de um governo pró-mercado pode criar um novo período de pelo menos dez anos de crescimento.

Em sua opinião e análise, quais setores estão atualmente com grande potencial de expansão neste momento e qual a explicação para isso?

O setor que mais sofreu com o colapso da economia foi a indústria de transformação. Estimo hoje que o chamado hiato do produto neste setor chegue a quase 20% de sua capacidade instalada. No setor de serviços o hiato deve ser da ordem de 13% e, no PIB como um todo, quase 7%. Apenas no setor agropecuário estamos rodando a 100% de nosso potencial. Além disto, o elevado desemprego cria condições para que as demandas salariais sejam modestas e evitem uma aceleração dos salários reais por um período longo de crescimento. Por isto, um sinal de reformas e estabilidade política vai por si só trazer de volta o crescimento econômico.

Quais fatores podem beneficiar a economia brasileira nos próximos quatro anos e quais ainda podem atrapalhar?

A chamada recuperação cíclica da economia brasileira está pronta para substituir a recessão “burra” criada pelo Lula e o PT. Basta para isto uma pequena centelha de confiança no governo Bolsonaro, pois seu programa econômico é sólido e a favor do mercado. Para que a recuperação cíclica se transforme em um movimento de prazo mais longo, precisamos reformar o “ambiente de negócios” no Brasil, via várias reformas da legislação econômica atual.

Nos últimos 30 anos o Brasil experimentou, no ambiente político, algumas reviravoltas ideológicas. De centro passamos para a esquerda e agora, da esquerda, houve uma guinada à direita. Essas mudanças ideológicas deixam sequelas na economia do País e prejudicam de alguma forma o comércio exterior?

Estas mudanças fazem parte do sistema democrático que temos no Brasil. São ciclos políticos de prazo mais longo e que ocorrem no mundo todo. Estamos hoje vivendo em um vácuo político criado pela explosão do PT – e de forma mais geral da esquerda – depois de 12 anos de domínio total. Sabemos hoje que, depois de um primeiro mandato de Lula com certo respeito aos nossos valores democráticos, o objetivo do PT passou a ser o de controlar institucionalmente nosso sistema político. Por isto vejo a instabilidade de hoje, criada a partir de uma revolta na sociedade, como uma força restauradora de nossa democracia.

Com toda sua experiência no mercado financeiro e particular conhecimento da economia chinesa, como o senhor vê o cooperativismo no Brasil e, na sua opinião, como este setor pode se tornar mais eficiente e crescer?

Meu pai era cafeicultor na região de Maringá e cresci como homem de negócios sob o impacto da ação de Oripes Rodrigues Gomes na Cooperativa de Cafeicultores de Mandaguari. Por isto, sou defensor das cooperativas que conseguem hoje ter uma governança bem mais eficiente do que a que havia na época pioneira de Oripes Gomes. Não tenho dúvida do sucesso desta forma de organização de negócios privados, mas a governança é o desafio principal para alcançá-lo.

O senhor poderia deixar aqui três dicas para a atual equipe econômica comandada pelo ministro Paulo Guedes?

Vou deixar apenas uma que me parece a mais importante de todas: concentre-se na batalha da previdência e deixe questões menores, como importação de leite em pó, para depois da vitória no Congresso. Não é hora de atritos por questões, como a abertura da economia, que podem esperar. O programa econômico de Paulo Guedes é consistente do ponto de vista econômico e pode trazer mudanças importantes principalmente no ambiente de negócios e na gestão da economia. A reforma da previdência vai permitir que um novo ciclo de crescimento se inicie em nosso pais. A única preocupação que tenho e, portanto, minha mais importante dica ao ministro, é que tenha paciência na sua implantação, pois vai atingir interesses em vários segmentos da economia para chegarmos a uma etapa de nosso soft econômico.


Entrevista publicada na Revista MundoCoop, edição 86.



Publicidade