IoT: aspectos úteis, inúteis e perigosos


Entrevista


Tecnologia é realidade no dia a dia das pessoas, e IoT (sigla em inglês para Internet das Coisas) ganha espaço no dia a dia. Para falar sobre a evolução desse conceito, MundoCoop entrevistou o professor e pesquisador Eduardo Magrani, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getulio Vargas – FGV – Direito. Ao final, um alerta importante: “Com o aumento exponencial de utilização destes dispositivos que já se encontram ou que entrarão em breve no mercado, devemos estar atentos aos riscos que isso pode trazer para a privacidade e segurança dos usuários”.

Confira e esteja preparado para o presente!

Como IoT vai se desenvolver nos próximos anos?

A Internet das Coisas tem sido encarada com otimismo por setores da indústria, podendo vir a se tornar um importante elemento econômico nas próximas décadas. A estimativa de impacto econômico global vinculado ao cenário de IoT corresponde a mais de US$ 11 trilhões de dólares em 2025. Algumas estimativas antecipam cerca de 100 bilhões de dispositivos inteligentes conectados até 2020.

Quais as aplicações mais usuais hoje e como evoluirá, principalmente nos segmentos agronegócío, consumo, saúde e sistema financeiro?

Sistemas automatizados que acendem as luzes e aquecem o jantar ao perceber que você está retornando do trabalho para casa, pulseiras e palmilhas inteligentes que compartilham com seus amigos o quanto você andou a pé ou de bicicleta durante o dia na cidade ou sensores que avisam automaticamente aos fazendeiros quando um animal está doente ou prenhe. Todos esses exemplos são manifestações consideradas tecnologias inovadoras associadas ao conceito que vem sendo construído de “Internet das Coisas” (Internet of Things – “IoT”). Existem fortes divergências com relação ao conceito de Internet das Coisas, não havendo ainda um conceito único e unânime. De uma maneira geral, pode ser entendido como um ecossistema de objetos físicos interconectados com a Internet, através de sensores pequenos e embutidos, criando um ambiente de computação onipresente (ubíqua). Apesar de parecer um cenário futurístico, a Internet das Coisas já é uma realidade. Todos os dias, “coisas” se conectam à Internet com capacidade para compartilhar, processar, armazenar e analisar um volume enorme de dados entre si. É necessário, no entanto, refletirmos sobre os variados produtos que têm surgido no mercado, muitas vezes desacoplados do caráter de real utilidade e novidade, mas, que ainda assim, são considerados tecnologias inovadoras somente pelo fato de envolverem o aspecto digital. É o que podemos chamar de “A Internet das Coisas Inúteis”.

Como IoT impactará nas empresas/cooperativas? E no consumidor final?

A tecnologia digital não necessariamente torna a vida das pessoas mais fácil e os custos para conectar um dispositivo são altos e os benefícios talvez sejam baixos demais para compensar o aumento de valor no produto. Muitas vezes, uma solução de baixo custo como uma lista de compras, em substituição ao inovador EggMinder, acabaria sendo mais conveniente na análise custo-benefício, substituindo um dispositivo caro, com configurações complexas e baterias que precisam ser recarregadas constantemente. Isto não parece tão inteligente. Além disso, a quantidade de lixo oriunda do descarte de objetos e dispositivos obsoletos, o chamado “e-waste”, está aumentando no mundo inteiro, pois a conectividade dos aparelhos tende a deixá-los ultrapassados mais rapidamente do que produtos não inteligentes, sendo considerado um problema grave já em algumas cidades. É importante termos em mente também que transformar um objeto analógico em inteligente, além de encarecer o produto e deixá-lo sujeito a falhas que não teria a priori, pode gerar riscos também em relação à segurança e privacidade. Por isso é importante pensarmos, sob a perspectiva do cidadão como consumidor e do Estado como incentivador de criações intelectuais, que tipo de tecnologias e objetos inteligentes devemos incentivar.

A que setores da economia elas melhor se aplicam?

O poder público demonstra já estar atento aos benefícios da IoT, entendendo que esta surge como importante ferramenta voltada aos desafios da gestão pública prometendo, a partir do uso de tecnologias integradas e do processamento massivo de dados, soluções mais eficazes para problemas como poluição, congestionamentos, criminalidade, eficiência produtiva, entre outros. Já existem exemplos de aplicações de IoT pelo país e estas experiências tendem a aumentar. No setor privado, por sua vez, o entusiasmo com o potencial econômico da IoT vem dando margem a um forte investimento nessa área, tal como é percebido no setor do Industrial IoT ou Internet das Coisas Industriais, o qual é voltado para soluções de escala macro como cidades inteligentes, rastreamento de carga, agricultura de precisão e gerenciamento de energia e ativos. Um exemplo desse tipo de investimento é o realizado pela empresa IBM, que não só empregou US$ 3 bilhões em seu negócio de IoT, como também fez uma parceria com aAT&T para fornecer soluções IoT industriais em uma série de questões, desde a eficiência energética até serviços de saúde. Essas novas frentes de investimento em IoT decorrem das perspectivas de lucro positivo do setor. Somente a título de exemplo, cabe ressaltar a pesquisa recente realizada pela Cisco que estima que a Internet das Coisas pode adicionar 352 bilhões de dólares à economia brasileira até o final de 2022. Por conta de previsões como essa, diversas empresas estão investindo mais em tecnologias IoT, desenvolvendo iniciativas concretas em diversas áreas.

Quais os benefícios que essas tecnologias proporcionarão?

A IoT poderá trazer inúmeros benefícios aos consumidores. Dispositivos de saúde interconectados permitirão monitoramento mais constante e eficiente e interação mais eficaz entre paciente e médico. Sistemas de automação residencial permitirão que um consumidor, antes mesmo de chegar em casa, possa enviar mensagem para que os próprios dispositivos realizem ações para abrir os portões, desligar alarmes, preparar o banho quente, colocar música ambiente e alterar a temperatura da casa. Por outro lado, esses inúmeros dispositivos conectados que nos acompanharão diária e constantemente em nossas rotinas, irão coletar, transmitir, armazenar e compartilhar uma quantidade enorme de dados, muitos deles estritamente particulares e mesmo íntimos. Com o aumento exponencial de utilização destes dispositivos que já se encontram ou que entrarão em breve no mercado, devemos estar atentos aos riscos que isso pode trazer para a privacidade e segurança dos usuários.

 

 



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