Mario Rosa, sócio e responsável pela Echos

Publicado em: 31 dezembro - 2018

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O trabalho desenvolvido pela Echos tem como objetivo estimular a inovação como via de transformação de pessoas, organizações e a sociedade como um todo. Mario Rosa, profissional especializado em desenvolvimento de marcas, é um dos sócios da instituição e quem está à frente da área de design thinking. É sobre esse tema que ele falou com a MundoCoop, nesta entrevista exclusiva. O tema por si só já é bem interessante, mas o fato de Mario já ter um envolvimento com o cooperativismo tornou a conversa ainda mais rica. “O último trabalho que fiz antes de vir para a Echos foi a criação do SomosCoop”, conta ele. Acompanhe como foi o bate-papo.

 

Como é esse processo de ensinar a inovar?

A gente vem de contextos educacionais, empresariais, que acabam refletindo nas pessoas. Qualquer grande conceito de transformação que já aconteceu impacta, mas hoje são diferentes. Partimos, em um primeiro momento, do despertar da potência criativa de cada pessoa. Desde olhares para uma perda de emprego, quando é preciso se renovar, até olhares mais amplos, como a mudança de uma sociedade. O desafio é olhar mais para dentro e menos para fora.

O primeiro passo para a inovação é começar a enxergar o mundo de uma forma diferente, ninguém inova só com ferramentas, é preciso ter um olhar diferente, uma relação diferente com o mundo. Nas grandes organizações, por exemplo, há uma cobrança pelo crescimento, pela evolução, mas só por conta desses resultados. Precisa enxergar de forma diferente, fazer diferente. Essa visão precisa mudar – se eu trouxer algo mais relevante para as pessoas, os outros resultados vêm.

E o que é o conceito de design thinking?

O design não é só desenhar e sim projetar, e isso é projetado para alguém, para atender a alguma pessoa, de acordo com três pontos básicos, três valores: empatia, colaboração e experimentação. A empatia não é só ser empático com as pessoas, preciso entender os valores das pessoas, conectar com os meus, aprender a ouvir. O aprendizado da inovação começa por aí. A colaboração não é cada um fazendo uma parte, é necessário haver uma integração, e aí precisa saber lidar com diversidades. A gente busca a troca, a horizontalidade, não apenas vertical, de cima para baixo. No caso da experimentação, vamos olhar para o erro como forma de aprendizado, não só como um problema. A falha e o erro fazem parte do aprendizado, então quanto mais cedo eu errar mais cedo eu consigo corrigir e aprender.

Há um trabalho sobre divergência e convergência. Nosso mindset tradicional está acostumado a trabalhar em soluções, buscando resolver problemas que nem sempre necessitam ser resolvidos. O design nos leva um passo atrás para entendermos qual é a prioridade, o problema “diamante” que realmente precisa ser resolvido. Pensar, perguntar. Nossa maior preocupação não é ferramentalizar as pessoas, pois isso você encontra facilmente em qualquer lugar, o que precisa é mudar o mindset da pessoa para que possa utilizar essas ferramentas, aplicar e aproveitar a aplicação. Não existe mudança nas organizações se não for pelo mindset, a maneira como eu faço as coisas.

Que pessoas podem passar por esse processo?

Pode ser usado como abordagem para solução de qualquer tipo de problema para qualquer tipo de pessoa. Muitas cooperativas pedem nossos serviços, inclusive o próprio Sescoop, temos muitos clientes da área de saúde, setor financeiro, educação, área de varejo. Quanto mais diverso e multidisciplinar for, maior é a capacidade de multiplicação, pois há muitas culturas e está diretamente relacionado à experimentação. Relacionamento de diversos olhares com as pessoas abertas à inovação.

Como colocar no dia a dia esses diversos termos em inglês?

Quando falamos de linguagem, e o próprio design thinking é uma linguagem, olhamos para as empresas que são departamentalizadas e o que fazem para inovar é colocar as melhores cabeças para realizar um brainstorm. Isso acaba burocratizando o processo e evita a criação de um campo generativo, trazendo uma disputa de posições e aumentando as barreiras. Grandes clientes nossos buscam exatamente essa linguagem para promover essa colaboração, o olhar múltiplo centrado nas pessoas, buscando o que é mais relevante para o desenvolvimento.

Como somos um laboratório de colaboração com atuação internacional, o inglês faz parte dessa linguagem, então temos de estar relacionados dessa forma. Um de nossos grandes projetos em 2017 foi com a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). Eles nos chamaram para ajudá-los a repensar o formato de remuneração do sistema de saúde suplementar – todo o modelo é remunerado a partir do procedimento e não do resultado centrado nas pessoas. Ninguém queria começar, participar, porque tudo estava pautado na lógica da desconfiança. Era só um monte de relatos, mas não sugestões de melhorias.

Por isso precisamos trabalhar com o olhar da sensibilidade para focar naquilo que é realmente humano. Nosso olhar está acostumado a mirar nos processos, nos procedimentos, nos resultados, nas metas, o que vem dos processos industriais. Precisamos de um bom ponto de vista, até para sair daquele estigma do “como é que eu não vi isso antes?”.

Quanto tempo demora a transformação?

Não há uma resposta para essa pergunta. O processo de aprendizagem é individual e funciona de acordo com a origem, os valores de cada um, a maneira como a pessoa foi formada, como se desenvolveu. A gente pode colocar duas pessoas em um mesmo processo e o resultado é diferente, uma pode entender tudo de imediato, cai logo a ficha, e a outra pode demorar uma semana, um mês. O importante é que ocorra de forma efetiva, e aí eu preciso trabalhar com as lideranças para que mudem essa cultura, também olhem diferente. O ambiente deve promover essa mudança, não adianta o profissional passar por todo um processo com a gente e depois volta para um sistema burocrático dentro da empresa em que não possa ser criativo, que não estimule a mudança.

Como multiplicar os resultados?

Depende muito de cada empresa, pois há diferentes culturas. Procuramos trabalhar a capacitação das pessoas, mas vimos muitas vezes que a pessoa se torna uma multiplicadora. O convencimento e o propósito do que está fazendo, independentemente de onde esteja e do que faça. Nossa missão é gerar o maior número possível de inovações e inovadores dentro das organizações.



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