Melhora da economia brasileira favorece expansão das cooperativas

Publicado em: 16 agosto - 2018

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“2018 promete ser bem melhor do que o ano passado para a economia brasileira, o que significa oportunidades de expansão para o cooperativismo. Evidentemente, tais oportunidades devem ser aproveitadas, mas com cautela porque o cenário eleitoral ainda é muito incerto o que torna difícil extrapolar o cenário de crescimento da economia para além de 2018”. Esse comentário resume a opinião e as recomendações de Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria Integrada, para este ano.

Nesta entrevista exclusiva para o Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2018, Loyola fala sobre investimentos, taxa de juros, cenário econômico e político; faz, também, um balanço rápido de 2107 e sinaliza quais setores da economia deverão ser mais impactados em 2018, positiva e negativamente.

Doutor em economia pela EPGE-FGV, foi diretor de Normas do Mercado Financeiro e presidente do Banco Central do Brasil, por duas vezes (1992-1993 e 1995-1997), Loyola participa de conselhos de administração de diversas empresas e foi escolhido “Economista do Ano” em 2014, pela Ordem dos Economistas do Brasil.

Confira a íntegra e boa leitura!

2017 foi um ano melhor do que o esperado?

O ano de 2017 começou ainda cercado de muitas incertezas sobre a consistência da recuperação da economia, dada a grave situação herdada após anos de políticas econômicas ruins. Além disso, as turbulências políticas também recomendavam cautela na análise do ano. No entanto, o desempenho da economia superou as expectativas. Se no início do ano esperávamos um crescimento de apenas 0,3% do PIB, a expansão alcançou 1%. Tal retomada deve-se à melhora da confiança dos agentes, iniciada com a mudança na condução da economia em 2016, somada a outros aspectos, como a queda mais forte da inflação, o processo de queda da taxa de juros, a gradual volta do crédito às famílias e a estabilização do mercado de trabalho, situações que estimularam o consumo. Além de corrigir os rumos da economia, o governo também contribuiu com a liberação de recursos ociosos do FGTS. Por fim, o ambiente internacional mostrou-se mais positivo do que o esperado.

Que herança positiva 2017 deixa para 2018?

Mais do que a consolidação da recuperação econômica, que começa a se disseminar entre os setores e alcançar o mercado de trabalho, o principal legado deixado é a sinalização de que o País está no caminho certo, com uma agenda liberalizante e reformista e uma política macroeconômica responsável. Isso já havia sido reconhecido pelos mercados, com a valorização dos ativos brasileiros, mas aos poucos começa a ser percebido pela sociedade diante da melhora da economia e do emprego. Ou seja, a herança deixada é a indicação para a sociedade de que não devemos desviar o rumo novamente na direção da irresponsabilidade e do populismo, pois foi este caminho que nos levou à pior recessão da história e à situação gravíssima das contas públicas.

O que esperar da economia brasileira em 2018? 

Não será um ano exuberante, mas certamente aumentará na população o sentimento de melhora da economia. O crescimento de 2,8% esperado para 2018, se confirmado, será o maior desde 2013. O consumo das famílias continuará puxando a recuperação, embora já seja esperada uma reação dos investimentos. No mercado de trabalho, esperamos um aumento de 2,4% na ocupação, o que significa mais de 2 milhões de empregos gerados (formais e informais). No entanto, a queda da taxa de desemprego continuará lenta, dada a volta de pessoas ao mercado de trabalho. No final de 2018, esperamos desemprego ainda de 11,4%. Naturalmente, a economia também deverá sentir as incertezas associadas ao processo eleitoral.

O que precisa ser feito para que haja retomada dos investimentos?

Os investimentos dependem de uma condição mínima de previsibilidade. Dito de outra forma, quanto maior a incerteza, menor a propensão a investir. Neste contexto, as empresas e potenciais investidores estarão atentos ao desfecho do quadro eleitoral de 2018, que irá definir qual o rumo das escolhas econômicas nos próximos anos. Caso fique indicada a manutenção da atual direção econômica, que favorece a continuidade dos juros baixos e tem como um dos focos a melhora do ambiente para o setor privado, é muito provável que tenhamos um novo ciclo de investimentos vigorosos a partir de 2019.

Considerando que 2018 será um ano eleitoral, como esse fato pode afetar a economia?

Quanto maiores as chances de sucesso de candidaturas populistas, que apontem para a reversão da agenda atual, maior a tensão nos mercados e entre os agentes econômicos. Isso tende a se materializar em pressões nos preços dos ativos, com a taxa de câmbio, além de uma postura mais conservadora das empresas e investidores, que tendem a segurar decisões importantes até o término das eleições. Isso representaria um limitador ao crescimento esperado neste ano, além de impor pressões no câmbio capazes de preocupar o Banco Central.

Como devem se comportar os investimentos dos setores produtivos?

Especificamente o setor industrial deve voltar a investir. Ainda há muita ociosidade no caso da indústria. De acordo com a FGV, o nível de utilização da capacidade instalada fechou o ano pouco acima de 75%, o que indica que, na média, o setor industrial ainda pode elevar a produção sem a necessidade de ampliar a capacidade. Naturalmente, essa análise é geral, de modo que podem existir empresas e setores específicos onde os investimentos já devem estar no radar, visando à modernização do maquinário ou mesmo à recomposição da depreciação dos últimos anos.

Quais setores da economia deverão ser mais impactados em 2018? E quais serão menos favorecidos? 

Sem a repetição da supersafra agrícola que teve importante contribuição no PIB em 2017, o impulso à economia este ano do lado da oferta virá da retomada da indústria e dos serviços. Para o PIB industrial projetamos alta de 3,4%, puxado pela retomada da indústria de transformação e da construção civil. A melhora da construção será a grande novidade deste ano, estimulada pela vigorosa queda da taxa de juros no último ano. No caso do PIB de serviços, a expansão esperada de 2,4% terá como motor a continuidade da recuperação do consumo, favorecida pela gradual melhora do emprego e da renda, além da volta mais intensa do crédito.

Com relação à taxa de juros, o que esperar, novas quedas ou estabilidade?

Nosso cenário contempla uma taxa Selicde 6,5%, patamar que seria mantido neste cenário até o final do ano. Este nível, que significa uma taxa real de juros próxima a 3% ao ano, é inferior ao considerado neutro, de modo que é esperada alguma recomposição nos juros conforme a economia consolidar sua recuperação. Porém, isso deverá ocorrer apenas em 2019, tendo em vista a ociosidade que ainda permanece na economia, em especial no mercado de trabalho. Alguma elevação em 2018 viria apenas no caso de um estresse agudo em virtude das eleições, ou mesmo de fatores externos, que leve a taxa de câmbio para patamares muito elevados. Na ausência disso, a Selic a 6,5% deve permanecer neste nível até o final de 2018.


Texto Katia Penteado

 



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