Não é mais possível cumprir regra de 1988, diz presidente da Unimed Brasil

Publicado em: 18 maio - 2018

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Quando a Constituição Federal foi feita, não se imaginava que o setor público não teria como sustentar financeiramente um sistema de saúde para todos os cidadãos. A análise é de Orestes Pullin, presidente da Unimed do Brasil, em entrevista na série UOL Líderes. Ele defende uma mudança no modelo de assistência à saúde, incluindo a forma de remuneração no setor, e ressalta a necessidade de o país formar mais médicos que ofereçam atenção primária aos pacientes. Diz que é culpa da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) a dificuldade de adquirir planos de saúde individuais e fala da grave crise que atingiu algumas unidades da Unimed recentemente.

Não é mais possível cumprir regra de 1988, diz presidente da Unimed Brasil (Foto: Divulgação/UOL)

Não é mais possível cumprir regra de 1988, diz presidente da Unimed Brasil (Foto: Divulgação/UOL)

UOL – O brasileiro busca serviços médicos da forma adequada? Procura por hospitais e consultas no momento certo? 

Orestes Pullin – Estamos bastante atrasados em comparação aos demais países desenvolvidos ou em desenvolvimento com relação a modelos de atenção à saúde. O Brasil hoje tem um modelo que é muito focado na necessidade momentânea. A pessoa tem uma dor de cabeça e vai procurar um médico ou um posto de saúde; não sabe exatamente qual médico procurar, ou às vezes vai a um pronto-socorro porque é mais fácil para conseguir atendimento. Existe um erro já na entrada da pessoa no processo de assistência: às vezes [é atendida por] um profissional que não está adequado para aquela queixa, ou deixou agravar para procurar um médico, não há um sistema preventivo adequado.

De forma geral, na iniciativa privada, quanto mais doente o médico atende mais ele ganha. Isso causa várias deformações na atenção à saúde. Há uma vontade do brasileiro de ser bem atendido, há uma qualidade dos médicos que efetivamente atendem, mas há uma desorganização no processo, desde a entrada até o atendimento profissional, a forma de remuneração, e isso, de certa forma, estimula o uso e o abuso de exames, tecnologia e, eventualmente, deixa um pouquinho para trás olhar a pessoa dentro da necessidade dela, do que ela realmente precisa. Às vezes é um processo simples e se torna um processo complicado.

Nós temos um erro dentro do país, que não é só de uma organização, não é só do Estado, é um erro que ainda não discutimos com seriedade. Está chegando o momento de se discutir a saúde de forma bastante séria dentro do país. Tanto o Estado como a iniciativa privada precisam discutir a reforma da saúde.

Quais seriam os papéis de cada um desses setores?

Os setores público e privado hoje trabalham de forma separada, não há uma conversa muito clara entre ambos para que caminhem juntos num modelo de atenção mais adequado. O setor público está subfinanciado e há uma questão de gestão também, com defeitos na operação pública de saúde, enquanto no setor privado cada organização ainda pensa individualmente.

No momento em que foi instituída a Agência Nacional de Saúde, buscou-se dar uma cara meio única ao setor, mas nós ainda temos que caminhar muito para integrar o setor público e o setor privado.

No setor público, há algumas ilhas de excelência, mas ainda há muita deficiência de acesso, de qualidade ou de prestação de serviço de forma geral no país. A iniciativa privada ainda pensa mais em regiões onde efetivamente existe possibilidade de mercado. Com isso, não há uma integração entre os dois setores.

Hoje, você busca um serviço de ambulância, por exemplo, a iniciativa privada tem a dela, o setor público tem a dela, só que esses setores não se conversam e não há integração entre esses dois setores. Isso prejudica as pessoas na hora do atendimento, na hora da escolha ou efetivamente em como elas podem ser atendidas de forma mais adequada.

Nós estamos convencidos de que o país precisa conversar sobre saúde, sobre a questão saúde. A Constituição de 88 diz que a saúde é um dever do Estado e um direito de todo cidadão. Acho que ela foi feita em uma época em que talvez não se imaginasse que hoje isso não é possível.

Num momento em que você começa a enxergar que o financiamento privado está muito maior do que o setor público, [não dá para] imaginar que o setor público vá suportar isso. Não está suportando em nenhum país. A própria Inglaterra, que era o exemplo do NHS [national health service, o serviço público de saúde], não está suportando a questão do incremento de custos na saúde.

Mas nós estamos pensando para frente, nós temos que dar sustentabilidade para o futuro da saúde. Precisa mudar esse modelo onde não há um controle adequado ou um registro adequado das pessoas, não há um acompanhamento adequado das pessoas, não há aplicação de boas práticas médicas, há um exagero de gastos em termos de uso desnecessário ou acrítico de tecnologia…

Nós vamos vivendo mais, é ótimo isso, só que há um preço para viver mais. Então, nós temos que dar sustentabilidade para isso ao longo do tempo. Por isso queremos mudar o modelo, mudar a forma de se fazer saúde, a forma de remunerar.

A remuneração hoje na área da saúde, seja dos hospitais, seja dos médicos, é assim: um hospital interna um paciente e quanto mais ele gastar, quanto mais tiver complicações, mais o hospital ganha. Um paciente que cai da maca e fica mais dias internado porque caiu da maca, ele vai custar mais caro. Mas quem fez o paciente cair da maca? É essa discussão que temos que fazer.

A forma de remuneração tem que prever qualidade, tem que ser por indicadores de saúde, indicadores de morbidade, de mortalidade, de qualidade de vida do paciente. Você não pode remunerar por mais complicações. Essa mudança de conceito, com busca por qualidade, com indicadores de qualidade, remuneração por qualidade, meritocracia é o que nós estamos falando ao pensar na sustentabilidade futura de qualquer sistema de saúde.

A Unimed fala em um modelo de atenção integral à saúde. O que esse modelo prevê e como pode ajudar a melhorar o atendimento? 

Na Inglaterra, na França, na Holanda, na Alemanha, cerca de 40% dos médicos trabalham exclusivamente com atenção primária à saúde. No Brasil, não temos médicos que fazem atenção primária à saúde em quantidade suficiente para atender a população. Na formação, o médico já quer fazer especialidade. Precisamos ter os médicos que fazem a atenção primária à saúde. Precisamos que as pessoas tenham os seus médicos.

Cada cliente precisa ter um médico de confiança ao qual ele tenha acesso fácil. Precisamos arrumar a rede assistencial, saber que esse médico de atenção primária vai encaminhar as pessoas para uma rede hierarquizada de atendimento, e que essas pessoas vão ter o atendimento, vão retornar para ter o acompanhamento. Isso dentro de um programa que é chamado de atenção integral à saúde, que engloba desde o acesso das pessoas, o médico próprio, o registro clínico, o acompanhamento por uma equipe multiprofissional.

Haverá um grupo de pessoas cuidando daquela família, daquela pessoa, uma rede hierarquizada de hospitais, clínicas, laboratórios que vão atender o paciente, devolver para o médico que está acompanhando ou dar seguimento para um acompanhamento secundário ou terciário. Hoje, nesses programas de atenção integral à saúde, nós já temos em torno de 200 mil clientes distribuídos em várias cidades. Isso criou uma sustentabilidade maior, uma racionalidade maior. Não é mais barato, mas é mais racional, e você consegue mais qualidade no atendimento, mais segurança para o paciente e uma racionalidade no uso, seja de tecnologias, de tratamentos ou de suporte para as pessoas.

O que muda na prática? O primeiro passo para o paciente sempre será um médico de atenção primária? O primeiro contato são os núcleos de atenção primária, nos quais o paciente tem o médico dele, ou o grupo de médicos que o atende nesse núcleo, que sabe a sua história, que remédio ele toma, quais são os especialistas que o acompanham. Há a assistente social que liga para ele, para saber se ele fez o exame, se está tomando o remédio direitinho, se na sua casa não há muito tapetinho que possa fazê-lo cair, ter uma fratura de fêmur, se no banheiro há um suporte para segurar. Isso não impede que as pessoas, tendo a necessidade, busquem outros especialistas. Mas há uma lógica de atenção para cada uma das pessoas que têm planos dentro desse modelo. Porque o plano hoje é um plano de livre escolha, você procura quem você quiser, usa onde quiser, usa sem muito controle, não há um acompanhamento. Se você é atendido hoje num hospital, o médico que vai atendê-lo amanhã não tem o histórico daquele atendimento, ele pede todos os exames de novo, eventualmente desnecessários, porque você acabou de fazer, e não há uma sequência lógica do atendimento.

Esse modelo vai exigir um trabalho de comunicação forte para orientar os beneficiários… Isso é mudar a cultura. Nós estamos criando o médico de atenção primária porque não existe isso no país. Então, nós estamos estimulando para que as residências [cursos] de atenção primária à saúde ou de médico de família no Brasil realmente formem profissionais. A fundação Unimed está fazendo cursos de especialização para profissionais que queiram se reciclar. Não estamos pensando isso em curto prazo, porque não há infraestrutura que suporte isso.

A outra coisa é a infraestrutura de tecnologia para integrar todos esses serviços, integrar os hospitais, as clínicas, os laboratórios, para que o paciente, ao passar por essas etapas da assistência, isso seja marcado dentro de um prontuário eletrônico, um registro do que está acontecendo, e seja acessível para quem for prestar atendimento, em qualquer ponto em que ele estiver. É uma tecnologia que ainda vai demorar bastante. Nós criamos uma plataforma que possibilita integrar softwares diferentes ou diferentes participantes da cadeia de saúde. É um programa sobre o qual não temos a expectativa de seja rápido, seja fácil, mas estamos caminhando. Talvez seja para dez anos, 15 anos.

No que um médico de atenção primária é diferente de um clínico geral ou médico da família?

O médico de atenção primária tem uma forma de trabalhar completamente diferente do clínico geral, que senta numa poltrona, e o paciente fica na frente dele. Por exemplo, o médico de atenção primária atende pediatria, atende ginecologia, dentro do nível da atenção primária.

Obviamente, não dispensa o especialista, mas alguém que chega para esse médico ou para essa médica e precisa fazer, por exemplo, uma prevenção de câncer, um [exame] Papanicolau, não precisa encaminhar para um ginecologista para colher Papanicolau: é colhido ali naquele local, já faz o exame, já vem o resultado.

Esse médico de atenção primária tem uma característica diferente de um clínico geral. O clínico geral, o especialista, é um infectologista, é alguém que tem uma especialidade, digamos, para atender o pronto-socorro, a urgência. O médico de atenção primária tem uma forma de trabalhar diferente.  (UOL)

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