O Brasil, a atualidade e o cooperativismo


Entrevista


Marcius José Lessa Braz, diretor Executivo da Unicred Niterói, nesta entrevista fala sobre o momento atual vivenciado pela população brasileira, o cooperativismo e a contribuição que esse movimento pode dar à sociedade como um todo.

Confira!

No momento atual, entende que o cooperativismo tem vantagens frente às empresas tradicionais?
Segundo Charles Gide, a origem da cooperação está na própria humanidade, no seu modo de ser, de viver e de agir diante das necessidades e desafios que permeiam a vida, assim,  na parte central deste tema temos a mutualidade. Para fundamentar esta análise voltamos no tempo, até chegarmos na teoria da evolução dos seres vivos, na qual, segundo o teórico evolucionista Peter Kropotkin, que em seu livro Mutualismo: Um Fator de Evolução, defendia uma concepção centrada em torno do que ele viu como o uso generalizado de cooperação como mecanismo de sobrevivência nas sociedades humanas e animais. Ele usou argumentos biológicos e sociológicos em uma tentativa de mostrar que o principal fator para facilitar a evolução é a cooperação entre indivíduos em sociedades e grupos associados livremente.  Há de reconhecer, contudo, que a atualmente vivemos em uma sociedade de modelos econômicos e sociais carentes de prosperidades e sustentabilidades, neste momento voltamos a atenção para a chamada economia colaborativa, trazendo os interesses da coletividade para o centro da discussão, convergindo a isto a doutrina e a prática cooperativista como um novo modelo de negócio global. Por certo, a utilização do cooperativismo como ferramenta e instrumento de desenvolvimento local é assegurar a formação de um círculo virtuoso na geração de riquezas e renda para a comunidade, ou seja, o reinvestimento produz novas riquezas nas próprias comunidades.

No caso do Brasil, como o cooperativismo pode contribuir com a população como um todo?
Hoje, o nosso país como um todo está passando por dificuldades não somente econômicas, mas sociais e organizacionais. É um momento importante, que se faz necessário o investimento na população e no social, quando as cooperativas surgem como uma solução para as instituições públicas, oferecendo construção de soluções com qualidade e preços justos, concomitante com o investimento em pessoas e não em capital, alinhado assim, com os valores e princípios cooperativistas. É importante salientar que uma gestão democrática, participação econômica e interesse pela comunidade fazem parte da intensa luta diária de conquistar o bem-estar da população a qual estamos inseridos, renovando o senso de pertencimento da população e a sua participação na evolução e solução de problemas de suas comunidades. Acredito que parcerias e trabalhos em conjunto nos três níveis: municipal, estatual e federal, conforme declarado na Constituição Federal de 1988, Art. 174,§ 2º (a lei apoiará e estimulará o cooperativismo e outras formas de associativismo), inegavelmente acrescentariam virtudes no desenvolvimento de comunidades sustentáveis, na geração de renda agregada e no bem-estar das comunidades.

A situação atual exige mudanças?
A situação atual – e o próprio cooperativismo – caracteriza-se pela necessidade de muitas mudanças institucionais e organizacionais. A principal delas é a evolução da Governança Cooperativa, que coloca o segmento na direção dos mais diversos mercados e leva ao conselho de administração e seus cooperados ao planejamento estratégico. Toda essa movimentação tem de ser feita junto com as lideranças, direcionando a organização a ocupar seu lugar de muita importância e sendo geradora de bem-estar e qualidade de vida para os seus associados, construindo o planejamento que será executado como uma carta de navegação para os seus executivos. É incontestável a necessidade de, neste momento tanto econômico quanto social, estarmos juntos, unidos e com pensamentos e interesses associados aos princípios e valores cooperativistas. Hoje com a capacidade de gestão alcançada temos que estar em posição de vigilância permanente para detectar os primeiros indícios que devemos começar uma nova etapa no processo ininterrupto de transformação.  É preciso balizar o pensamento estratégico na participação dos associados, que constituem a organização, e em uma mentalidade inclinada à mudança e inovação de seu negócio. O planejamento como parte integral de uma gestão institucional deve estar integrado a políticas de abertura de mudanças e interação com o entorno. Deve ser dinâmico, eficiente e, principalmente garantir a prestação de serviço aos associados, convertendo em fonte fundamental de desenvolvimento social e econômico. O planejamento deve assumir como política central a satisfação das suas principais necessidades, da sua razão de ser: os associados.

Com relação especificamente ao cooperativismo de crédito, qual é a sua recomendação?
Para o segmento específico do cooperativismo de crédito, é de extrema relevância fazermos a leitura dos princípios fundamentais e pétreos do cooperativismo mundial. O fato de segmentar e individualizar vai contra os princípios que nortearam e inspiraram a criação do negócio. Estamos sendo egoístas conosco e com os demais em não compartilhar uma solução social e econômica, que o desenvolvimento destes mesmos princípios nos fez alcançar. Fazendo um paralelo com o cooperativismo mundial, que notoriamente é pujante e vencedor em todos os aspectos, não encontramos vestígios de segmentação e destinação por atividade profissional, situação econômica ou classe social, entre outros itens que podemos lista. Assim, vale questionar: estamos no caminho certo? Estamos preparados estrategicamente e com uma gestão que proporcione pensar em mudanças e discussões desta magnitude?

Tal como se refere Ernestro Gore: “As organizações mais capazes de enfrentar o futuro não creem em si mesmas pelo que elas são, sim pela sua capacidade de deixar o que são, não se sentem fortes por sua estrutura, sim por sua capacidade de fazer mudar sempre que é necessário”. A mudança é uma realidade e pretende ignorar os suicidas.

Em que patamar considera que está o conhecimento das pessoas em geral sobre os benefícios do cooperativismo? Gosto de perguntar às pessoas se elas sabem para onde vão os juros que pagam para os bancos. O que parece ser uma resposta óbvia, na verdade, guarda uma preocupação natural de qualquer cidadão ao realizar uma operação de crédito. Em palestras a resposta mais comum é: “Vai para a Avenida Paulista…”, esta resposta nos remete ao segundo ponto de reflexão, pois parece em um primeiro olhar que não tem solução. Isso leva a um temor certo, diante da aparente falta de solução e da indagação que lhe é comum: onde posso pegar crédito se não for em um banco? É exatamente nestes dois pontos – o juros e qual o seu destino  – que vamos manter o foco. Em primeiro lugar, devemos desmitificar a ideia de que só é possível obter uma linha de crédito com os bancos e que, dentro dessa preocupação, seriam eles os melhores financiadores. Essa impressão é atribuída à indução subliminar que é motivada pelos fortes apelos diante das mais variadas mídias comerciais eficientes, o que nos faz pensar, até por comodidade, que a melhor negociação está na agência bancária mais próxima. Já em 1844, os pioneiros de Rochdale, ao difundirem a missão do cooperativismo, ensinaram-nos  em seu quinto princípio a “devolução de excedentes”. Mais recentemente, em 1995, a Associação Internacional das Cooperativas (ACI) descreve no sétimo princípio o “interesse pela comunidade”. É possível perceber que, somente pela leitura dos citados princípios, a missão de uma cooperativa de crédito é ser diferente, fazendo com que o seu associado não só desfrute da possibilidade de créditos mais vantajosos, mas a garantia de que, o juro praticado, constituirá o “excedente” que, por meio da sobra, a ele será devolvido. Assim, trazendo a pergunta inicial para o âmbito das cooperativas, o caminho dos juros que se paga vai, parte dele, no investimento da própria instituição e seus sócios na própria comunidade local e outra parte vai para a devolução anual em forma de sobras para aqueles que, assim como eu, são cooperados. Não podemos deixar de levar em conta que os juros e tarifas praticados pelas cooperativas já são, em média, 50% mais baixos do que os praticados por instituições bancárias, dependendo do tipo de linha de crédito e variando de acordo com cada cooperativa e sua região. Nesse panorama, posso responder a pergunta inicial dizendo que: sou sócio de uma cooperativa de crédito há 18 anos, e não podemos nos ater somente ao fato do retorno dos excedentes. É muito importante a consequência desse retorno, pois esse recurso volta para o ciclo econômico-financeiro da comunidade local e, desta forma gera mais negócios e mais fomento para toda a comunidade.

Marcius José Lessa Braz, diretor Executivo da Unicred Niterói



Publicidade