O impacto da Agenda 2030 no mundo dos negócios

Publicado em: 19 novembro - 2020

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Com uma sociedade de consumo cada vez mais exigente, a sustentabilidade no meio corporativo precisa deixar de ser um conceito para se tornar a parte principal de uma estratégia de negócio.

Nesse cenário, a Agenda 2030, que contempla os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), vem influenciando o mercado a fazer uma transição para economias mais inclusivas, onde existe uma preocupação na relação de impacto que as organizações causam nas comunidades e no meio ambiente.

Pensando nisso, para entender mais sobre a importância do cumprimento dos ODS e a responsabilidade que o comprometimento com a agenda traz, a MundoCoop conversou, com exclusividade, com o Diretor-Executivo da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, Carlo Pereira, que ainda abordou a importância do movimento cooperativista para a conquista mais rápida e eficaz das metas nos próximos 10 anos.

Confira a entrevista na íntegra!

Entrevista do diretor-executivo da Rede Brasil do Pacto Global para a publicação MundoCoop

MundoCoop: Antes da 75˚ Assembleia Geral da ONU, o Secretário-Geral, António Guterres, falou sobre “fazer a transição para economias inclusivas”. Como vocês enxergam a influência da Agenda 2030 nos novos rumos econômicos que estão surgindo?

A Agenda 2030 é mais do que uma agenda, é uma necessidade. Estamos atrasados em muitos dos pontos dela. Aqui no Brasil vemos que os ODS ainda estão longe de serem atingidos, mas não podemos perder essa meta de vista. É difícil? Sim! Mas é necessário e por isso precisamos correr. Temos dez anos para avançar o mais rápido possível e temos condições de fazer. A pandemia nos mostrou mais uma vez como é preciso fazer direito. Não podemos deixar de lamentar as mortes e todo o sofrimento que ela causou no Brasil e no mundo, mas temos também que usá-la como uma oportunidade de voltar melhor. Uma retomada mais verde, inclusiva e ética, com os ODS no centro. Muitas empresas já assumiram globalmente esse compromisso e a cada dia mais vemos outras se comprometendo, o que é muito bom. O setor empresarial tem um papel essencial no alcance dos ODS até 2030, já que as empresas possuem os recursos financeiros essenciais para o avanço da Agenda 2030 – dos 200 maiores PIBs do mundo, 157 são empresas.

MundoCoop: O cumprimento dos ODS está diretamente relacionado com as formas de se fazer negócio. Pensando nisso, como as pequenas organizações podem realizar pequenas mudanças para contemplar esses objetivos em suas atividades? Como as grandes organizações podem se adequar e contribuir com isso? Afinal, qual é o primeiro passo?

O primeiro passo muitas estão dando: que é entender que sustentabilidade é um caminho sem volta, que é parte da estratégia de negócios de toda e qualquer empresa. E isso não sou eu quem estou dizendo. O consumidor tem dito. Os investidores têm dito. E sem esses players, não há como prosperar. Além disso, ODS pode indicar oportunidades de negócios e fazer as empresas reverem os produtos e serviços que ofertam, adequando-os às novas necessidades da sociedade. Também contribuem para reduzir os custos e tornar a operação mais eficiente. É claro que temos empresas de todos os portes e situações e que cada uma tem a sua dificuldade. Mas temos observado cada vez mais que as companhias entendem a necessidade de fazerem melhor. O Pacto Global da ONU é a maior iniciativa de sustentabilidade corporativa do mundo e tem crescido ano a ano. Aqui no Brasil, acontece o mesmo. E mesmo nesse contexto de crise, que existia antes da pandemia, a Rede Brasil tem crescido significativamente e nesse ano não foi diferente. Já somos a terceira maior do mundo e estamos avançando. Da nossa rede, em média, 30% são PMEs, e buscamos ainda, por meio de iniciativas de engajamento, mobilizar a cadeia de valor das grandes empresas que fazem parte do Pacto no Brasil.

MundoCoop: Recentemente, a Aliança Cooperativa Internacional (ACI), adotou um documento que explora as contribuições da economia social e solidária para as ODS e argumenta que o movimento cooperativo é um ator importante nesse sentido. Por que a economia social e solidária é tão necessária? Como o cooperativismo pode colaborar ainda mais nessa causa?

A economia solidária tem no seu DNA conceitos fundamentais como igualdade, trabalho digno, inclusão social e respeito ao meio ambiente, entre outros tantos conceitos importantes. A economia solidária ensina para as grandes empresas que é possível fazer mais e melhor e por isso é, foi e será um ator importante no alcance dos ODS. E cada vez mais pessoas estão inseridas nesse contexto, o que mostra que é mais do que possível, é necessário. Assim como é cooperativismo, já que essa união dá ainda mais força para quem produz. Estamos vendo cada vez mais cooperativas comprometidas com os ODS e isso é muito importante, somente no Brasil são mais de 6 mil. A Agenda 2030 não é só para empresas que movimentam milhões e milhões de dólares. É possível e necessária para todo mundo. E cada vez mais quem produz percebe isso. E faz realmente a diferença. Não somente para o planeta, que é o mais importante, mas também é uma vantagem competitiva de negócios.       

MundoCoop: O desenvolvimento sustentável tem sido cada vez mais discutido na sociedade e, principalmente, no mundo corporativo. O cooperativismo possui esse propósito como um dos seus principais objetivos, mas por ser um movimento muito amplo e populoso, pode não aplicar totalmente essa teoria na prática. Como uma cooperativa pode garantir a sustentabilidade em sua atuação? Ao que é preciso se atentar?

Diretor-Executivo da Rede Brasil do
Pacto Global da ONU, Carlo Pereira

Sustentabilidade deve ser parte central da estratégia de negócios. Ou seja, tudo, desde o começo da cadeia, até o produto final deve ser pensado de forma que o processo todo seja sustentável. Parece complicado, mas na verdade não é. Mas é preciso ter estratégia, é claro. Envolver a área desde a concepção até a produção. Entender o que sua produção vai impactar no meio ambiente. Porque mesmo setores como moda, que é um dos que mais impacta, hoje já tem muita gente produzindo melhor. O Brasil é exemplo em energia limpa, outro fator que também ajuda. Então, é preciso diversidade de opiniões e o entendimento que sustentabilidade deve estar em todos os níveis da empresa. Sabemos, claro, que nem sempre a informação de qualidade chega à cadeia como um todo, mas por isso também é importante capacitação constante e acompanhamento e um envolvimento das grandes empresas que interagem com a menores. Essas são ferramentas importantes para melhorarmos.

MundoCoop: As cooperativas são formadas essencialmente por pessoas. Como faze-las entender o que é sustentabilidade na prática?

Os exemplos estão aí todos os dias. Desde eventos climáticos extremos, como a pandemia ou até mesmo a exigência de consumidores e dos investidores por produção sustentável. E realmente precisamos envolver as pessoas, mostrar que não são apenas conceitos ou palavras bonitas, mas que sustentabilidade é parte do como produzir ou operar de hoje. O Pacto Global recentemente lançou uma campanha com o mote #NãoVolte, incitando a todas e todos a não repetirem comportamentos prejudiciais que tínhamos antes da pandemia, como desperdício de água ou de recursos, ou mesmo não se preocupar com o destino do lixo. Esse tipo de campanha ajuda as pessoas a entenderem a necessidade de se pensar no todo, de como todo o processo é fundamental para fazer a diferença na prática. E temos sempre de usar exemplos. Somente aqui no Brasil, estamos chegando a mais de mil empresas de todos os portes signatárias do Pacto. Ou seja, é muita gente comprometida com os 10 princípios e com a sustentabilidade. Fora toda a rede que o Pacto tem no mundo todo.

MundoCoop: Para as organizações, qual a vantagem de inserir a sustentabilidade em seus negócios? E qual o benefício de levar essa mensagem até as pessoas e as comunidades?

Sustentabilidade deixou de ser marketing ou um acessório e passou a fazer parte da estratégia de negócios das empresas. Isso é uma exigência cada vez maior do consumidor e do investidor já que a gente vê cada vez mais esse movimento do mercado financeiro nesse assunto. E esse movimento de grandes fundos de investimentos exigindo processos mais e mais sustentáveis faz com que toda a cadeia de valor se mexa. E o consumidor também é parte fundamental desse processo. A gente vê o quanto ele mudou nos últimos anos e quanto eles estão cada vez mais exigentes nesse sentido. Então, quem produz já nem pode pensar em inserir, já deve ter inserido a sustentabilidade como estratégia de negócio.

MundoCoop: Qual é a visão do Pacto Global em relação ao futuro?

Precisamos nos mexer. O ano de 2030 é amanhã e precisamos ter essa agenda como parte fundamental de todos os nossos processos. E não sou eu, o Pacto Global ou a ONU que estão dizendo. Temos cada vez mais exemplos dessa necessidade. A covid é um exemplo. Os eventos climáticos extremos é outro. Recentemente foi apontado o aumento cada vez mais desses eventos, que levam a mortes e prejuízos. Não temos como fazer negócios do jeito que fazíamos. E o setor empresarial está cada vez mais atento a isso. É preciso união de governos, entidades, empresas e pessoas para que todas e todos contribuam para uma melhora significativa das condições do planeta. Para termos planeta. Mas sou otimista, acredito que temos uma grande chance de rever muitas coisas agora e estou certo que cada vez mais pessoas já se atentaram a isso. Cada vez mais empresas se comprometem. E muita gente tem buscado fazer a sua parte. Precisamos acelerar, mas já entendemos a real necessidade de trabalharmos processos sustentáveis.


Por Jady Mathias Peroni – Entrevista realizada para a Revista MundoCoop, edição 96

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