O que esperar da nova era?

Publicado em: 29 janeiro - 2020

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Em tempos de transformações, é essencial analisar o contexto econômico com um olhar inovador. Trazendo essa questão para a realidade das crises e alavancando essa ideia através do mundo tecnológico e suas ferramentas, houve o surgimento de novos modelos econômicos.

A economia compartilhada, colaborativa e circular, além de novos termos disseminados pelas pessoas, representam uma nova lógica de consumo e de mercado com um aspecto em comum: usar a interação e a tecnologia como principal caminho para a sustentabilidade.

Esses conceitos, que se tornaram referências para as empresas atuais, traduzem um modelo econômico baseado na aproximação de pessoas com interesses recíprocos em um ambiente digital e social, onde as partes se beneficiam e criam um sistema de compartilhamento de produtos e serviços.

Para saber mais sobre o assunto, a MundoCoop conversou, com exclusividade, com o professor do Mestrado em Governança e Sustentabilidade do ISAE Escola de Negócios e , no meio corporativo, diretor da RCA Governança & Sucessão, Rodrigo Casagrande.

Confira!

Qual a diferença entre economia colaborativa, compartilhada e circular? Quais são suas vantagens?

A economia colaborativa busca impactar a forma como vivemos ao propiciar uma alternativa ao comportamento de acúmulo e, também, oferecer novas possibilidades para a realização de negócios. Para que ¨ter¨ se é possível experienciar? Nessa linha, o Airbnb se tornou uma alternativa interessante para quem não quer ter a propriedade de uma casa na praia e a cada férias escolher novos destinos. A economia colaborativa também oferece a possibilidade de rendas extras e o DogHero é um aplicativo muito interessante nesse sentido. Você pode ser um anfitrião de cachorros ou gatos, fazendo com que os animaizinhos possam receber amor, atenção e até manutenção da rotina que têm nas suas casas. Nesse contexto, é possível receber não apenas dinheiro por esse serviço, mas o que é muito melhor: o carinho e gratidão dos seus hóspedes que não precisarão ficar confinados em petshops enquanto seus pais e mães humanos viajam.

A economia compartilhada prevê compras coletivas, consumo colaborativo e a propriedade compartilhada. Nessa cena, é preciso um sistema de partilha eficiente, que gere vantagem às partes interessadas. Podemos ilustrar a economia compartilhada de forma simplificada, como a utilização do app uber carona, ou considerando toda a complexidade de uma estratégia de intercooperação, como o caso da criação da Union, pelas cooperativas Frisia, Capal e Castrolanda, que as torna mais fortes para competir com gigantes do setor de carnes, farinhas e lácteos.

A economia circular oferece um contraponto à economia linear, em que exploramos a matéria-prima, produzimos bens e depois os descartamos em forma de lixo. Na economia circular buscam-se meios para mitigar a geração de lixo por meio de atitudes sustentáveis que propiciam a eliminação ou reaproveitamento de materiais que seriam simplesmente descartados. Gosto de uma abordagem do Carlos Ohde, autor do livro Economia Circular, que faz uso da metáfora ¨imitação da genialidade da natureza¨, na medida em que em uma floresta não existe o conceito de lixo: a árvore que apodrece serve de adubo para uma nova planta que serve de comida para um animal, que também será alimento de outro…

O que impulsionou o surgimento desses novos modelos econômicos?

O reconhecimento de que a confiança e a reciprocidade fortalecem a cooperação e as expectativas mútuas de que um favor concedido hoje venha a ser retribuído no futuro. Esta visão vai ao encontro do conceito de capital social. O capital social destaca a importância central das redes de fortes relações pessoais que se desenvolvem ao longo de um período de tempo. Tais relações fornecem uma base para a confiança, a cooperação e a ação coletiva. Aí você coloca na equação, além do capital financeiro, fatores intangíveis como boa vontade, companheirismo, solidariedade e as relações entre os que compõem uma unidade social. Estamos falando, então, de uma perspectiva de  capital que é criado quando um grupo de organismos desenvolve a capacidade de trabalhar em conjunto para ganhos mutuamente produtivos.

O que é o cooperativismo de plataforma? Ele pode ser considerado uma maneira de dialogar com essas novas vertentes da economia?

Depende. Sobre o cooperativismo de plataforma, gosto da visão de Trebor Scholz, professor de cultura e mídia digital, que questiona o modelo de propriedade para a Internet e propõe plataformas de propriedade coletiva. Trata-se de um contraponto ao domínio estabelecida por gigantes como as mencionadas no início da nossa entrevista: Airbnb, Uber, dentre outras. Motoristas de Uber sabem muito bem que o maior beneficiário do sistema é a plataforma digital, que se torna grande por meio da alienação do trabalho e dos bens dos pequenos. Já no conceito de cooperativismo de plataforma, a união dos pequenos frutifica em um grande negócio, em um ambiente de equilíbrio e justiça nas relações de trabalho no universo digital. Nessa cena, instituições cooperativas atuam no mercado tecnológico como plataformas de serviços online, só que orientadas pelos princípios cooperativistas, que sempre merecem ser lembrados: adesão livre e voluntária, gestão democrática, participação econômica, autonomia e independência, educação, formação e informação, intercooperação e interesse pela comunidade.

Qual a principal transformação que o cooperativismo de plataforma traz para o movimento cooperativista?

Negligenciar os novos modelos econômicos seria uma miopia imperdoável.  Gosto muito de uma parábola do David Hume, filósofo inglês do século XVIII, que reflete um dilema sobre cooperação:

Teu milho está maduro hoje; o meu estará amanhã. É vantajoso para nós dois que eu te ajude a colhê-lo hoje e que tu me ajudes amanhã. Não tenho amizade por ti e sei que também não tens por mim. Portanto não farei nenhum esforço em teu favor; e sei que se eu te ajudar, esperando alguma retribuição, certamente me decepcionarei, pois não poderei contar com tua gratidão. Então, deixo de ajudar-te; e tu me pagas na mesma moeda. As estações mudam; e nós dois perdemos nossas colheitas por falta de confiança mútua.

A parábola de Hume demonstra que ambas as partes teriam a ganhar se cooperassem. Na falta de um compromisso mútuo confiável, porém, cada qual prefere desertar. Racionalmente, cada um espera que o outro o abandone, fazendo-o passar por “aquele que foi enganado”. Existe um entendimento de que é irracional cooperar por não haver confiança entre os agentes. Esta postura elimina as ações coletivas, ao subestimar a cooperação voluntária.

A antítese dessa parábola é justamente a existência da reciprocidade e ganhos para a coletividade, que circulam por meio de relações pessoais facilitadoras da cooperação econômica e que mitigam o oportunismo, o que vai bem ao encontro da essência do desenvolvimento de um ambiente de plataforma de cooperativismo.

Como você enxerga o futuro econômico do brasil?

Há muita incerteza. O FMI projetou expansão da economia global em 3,3% para 2020. A desaceleração da economia mundial tem como principais causas a contração da indústria de transformação, puxada pelo menor crescimento do investimento corporativo e do comércio internacional. Além da guerra comercial EUA e China e do Brexit, saída do Reino Unido do Mercado Comum Europeu, há também muita nebulosidade sobre como o mundo lidará com o desafio de repensar as políticas de estímulo ao consumo, lembrando que a previsão é de que a China tenha crescimento abaixo dos 6% este ano, o que não se vê desde 1990.

Esse cenário externo impacta os desenvolvimentos recentes na economia brasileira, estamos com inflação e juros baixos. Não obstante, até que ponto é interessante uma estabilidade em que a inflação e os juros são baixos, mas o PIB cresce pouco e o desemprego não cede? Desde o segundo trimestre de 2014, quando entramos tecnicamente em recessão, a situação está muito difícil. O FMI projeta expansão 2,2% em 2020. Mesmo que essa projeção se confirme, o PIB brasileiro fecharia o próximo ano abaixo do patamar atingido no início de 2014. Isso significaria conviver com mais um ano de desemprego elevado, receitas tributárias contidas, pouca confiança para consumo das famílias e baixo apetite para investimentos de parte do empresariado.  Gosto muito da análise feita pela equipe da FGV que elabora o Painel Macro – IBRE, que certamente influencia muito esse meu olhar. Na sua penúltima edição de 2019 a equipe do Boletim trouxe que ¨ Não deixa de ser irônico, portanto, que o Brasil esteja se tornando um país mais normal justo quando o mundo caminha para um novo normal que ninguém sabe bem como será¨.

Apesar de todo esse cenário tempestuoso, é possível constatar que o Brasil vai muito bem no agronegócio. Em 2020 o Brasil pode se tornar o maior produtor mundial de soja, superando os EUA, caso se confirme a safra recorde de grãos com 243,2 milhões de toneladas. O VBP – Valor Bruto da Produção Agropecuária encerrou 2019 com 2,6% de crescimento em relação ao ano anterior, com R$ 630 bilhões, um recorde considerado o horizonte temporal de 1989 até agora. Em 2020 a previsão é de o VBP cresça 7% em relação a 2019, o que sinaliza uma espécie de oásis de prosperidade no setor agropecuário.

Como o cooperativismo e essas novas tendências contribuem para o desenvolvimento socioeconômico do Brasil? O cooperativismo pode ser considerado o modelo econômico do futuro?

A resposta é sim para as duas questões, na medida em que o cooperativismo, como parte de um sistema de relacionamento e de relações sociais. remete a reflexões sobre a ação coletiva. As ações de cooperação preconizam a complementaridade, com a união de esforços em direção à coletividade.

Estamos presenciando um novo paradigma em termos de comportamento tanto dos consumidores, que se preocupam em atrelar os seus valores pessoais aos hábitos de compra, quanto das organizações, que passam a levar em consideração, de forma sistêmica, as dimensões econômica, social e ambiental para as suas tomadas de decisões. Cada vez mais, perde espaço a crença de que a única finalidade de uma organização é o lucro para os acionistas ou as sobras para os cooperados. O universo do capitalismo revelou-se muito mais complexo e desafiador que isso.  

Obviamente que os resultados da ¨última linha¨ devem ser buscados, é o que assegura a sobrevivência. Porém, uma cooperativa é muito mais que uma instituição que gera sobras. Considere a necessidade de alimentação para um ser humano, que não vive para comer, mas come para sobreviver e, a partir daí, construir uma vida rica em vários aspectos. O mesmo vale para as cooperativas, que existem para gerar valor não só para os seus cooperados, mas também para seus funcionários, clientes, fornecedores, comunidade, sociedade, planeta. 

É possível verificar empresas que parecem lagartas, com tomadas de decisão que buscam sugar tudo o que puder sem devolver nada em troca, ou organizações que criam uma atmosfera positiva para converter lagartas em borboletas, seres que criam valor para os outros e ajudam a tornar o mundo mais bonito.  É assim que vejo o cooperativismo.


Por Fernanda Ricardi/Redação MundoCoop – Entrevista realizada para o Anuário Brasileiro do Cooperativismo 2020



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