Paramos… e agora, Brasil? Vilmar Sebold, presidente da Cocari

Publicado em: 03 junho - 2018

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Vilmar Sebold, presidente da Cocari – Cooperativa Agropecuária e Industrial, sediada em Mandaguari (PR) acredita que a quase totalidade dos brasileiros entendeu como justa a greve dos caminhoneiros, afinal, saímos de um processo de controle absoluto do preço dos combustíveis, controle esse utilizado pelos governantes para os mais diversos fins, exceto a preocupação com a viabilidade dos caminhoneiros e da população em geral. Foi, antes, uma moeda de troca muito valiosa para que fosse mantido o poder dos agentes dos mais variados ramos no Brasil. Num primeiro momento, aquela política inviabilizou o segmento sucroalcooleiro, com graves consequências econômicas e sociais aos agentes financeiros e pessoas envolvidas naquele processo produtivo.

Confira nessa entrevista o que o presidente da Cocari pensa sobre o futuro do Brasil.

O que está acontecendo com o País?

Em 31/08/2016 houve uma ruptura no poder no País, com a decisão do Congresso Nacional, que aprovou o impeachment da, então, presidente Dilma Rousseff. Assumiu o poder um novo grupo, com novas ideias e diferentes formas de gestão.

E os combustíveis, quais foram os fatores complicadores?

No caso dos combustíveis, aquilo quer era conduzido com controle absoluto de preços, de um dia para o outro passou a ser operacionalizado com liberdade absoluta. E então, para complicar ainda mais o processo, tivemos fatores externos que pressionaram sobremaneira os preços destes combustíveis e do valor no Brasil, a saber:

Preço Médio Petróleo Brent em 31/08/2016 –  U$S 45,77 / barril

Preço Médio Petróleo Brent em 29/05/2018 – U$S 75,27 / barril

Cotação Dólar em 31/08/2016 – U$S 3,2090

Cotação Dólar em 29/05/2018 – U$S 3,7220

E isso trouxe uma situação de inviabilidade?

Óbvio que com a liberação dos preços ao sabor das oscilações do mercado, os caminhoneiros viram-se numa situação de inviabilidade de sua atividade, até porque, quando pactuavam o frete, ficavam à mercê das variações diárias de preços dos combustíveis que corroíam sua margem.

Contratos de qualquer modalidade de serviço, que tinham como fator relevante na planilha de custos o preço dos combustíveis, geraram tensão e prejuízos de grande monta, tornando-se, portanto, inviáveis.

Foi justa a reivindicação?

Discorridos apenas alguns fundamentos, reforçamos, entendemos justa a reivindicação dos caminhoneiros, porém, e sempre existe um porém, a radicalização, nunca é benéfica para quaisquer das partes envolvidas.

E o que acontece com as cooperativas?

Por favor, permitam-nos expor agora algumas ameaças futuras, que envolvem toda a sociedade (nós) que ao final, pagará a conta. Somente no Paraná, as cooperativas estão descartando, aproximadamente, 3 milhões de litros de leite por dia e no estado, como um todo, são aproximadamente 5 milhões de litros por dia. Basta multiplicarmos este volume pelo número de dias dos bloqueios que a produção foi jogada no lixo, e teremos o reflexo. Precisamos lembrar que não estava sobrando leite e que este volume fará falta mais à frente. Precisamos lembrar da lei da oferta e da procura.

E os outros segmentos?

Da mesma forma, temos a questão da carne de frango. A atividade vinha sofrendo os reflexos dos problemas de falta de uma estrutura adequada sob responsabilidade governamental (número de agentes de fiscalização insuficientes), mais corrupção que geraram a famigerada Operação Carne Fraca e outras tantas que derrubaram a credibilidade do Brasil, as exportações de carne e, consequentemente, achataram os preços internos. A carne de frango estava muito barata, já com graves prejuízos para o setor.

Agora, em função dos bloqueios de estradas que impediram o suprimento da cadeia avícola, foram abatidos no Paraná, aproximadamente, 7 milhões de pintainhos, já que não havia ração disponível para a criação, e os frangos que estão no campo passam por severa restrição alimentar, que acarreta, primeiro, a perda de peso, depois, o canibalismo e, finalmente, a morte por fome. Com os suínos não é diferente. Não podemos abrir as porteiras e soltar os animais no campo.

Como fica a credibilidade do Brasil?

Lembramos ainda que o Brasil é signatário de diversos acordos internacionais que preveem o cumprimento de normas do bem-estar animal, fato que poderá agravar ainda mais a pouca credibilidade que restou ao País, em especial, no segmento avícola.

A posição pode ser: “E daí…, não tiro o leite, não crio frangos nem suínos etc.”. Vamos tratar só da nossa região, para entendermos um pouco melhor. No Abatedouro de Mandaguari temos mais de 2 mil colaboradores diretos, que industrializam mais de 7 milhões de frangos alojados no campo. Temos os transportadores de ração, de matérias-primas, de frangos vivos, de produtos acabados, os apanhadores, as empresas prestadoras de serviços etc. Enfim, temos mais de 10 mil pessoas que dependem, de forma direta ou indireta, da atividade na nossa região.

Estas famílias têm compromissos, são consumidores? Qual o sentimento da família do produtor destes animais que vê sua criação passar fome e até morrer por falta de comida? Qual é o nosso sentimento quando precisamos muito de algo e ficamos impotentes, quando não demos causa àquilo que está ocorrendo? Seguramente, um dos piores sentimentos é o de impotência.

E o comércio terá reflexos?

Apoiamos os caminhoneiros, mas não podemos apoiar a radicalização das ações, e torcemos muito para que o movimento justo e digno não seja contaminado por ideologias políticas e por aproveitadores, que se apoderam dos ideais da coletividade em benefício próprio ou de grupos organizados.

Acreditamos que, ao final, a sociedade, todos nós, seremos atingidos pelas ações que estão sendo tomadas e Deus permita que sejam ações que respeitem aqueles que são tão vítimas quanto os manifestantes.

Por favor, vamos refletir e avaliar o preço e a justiça, para termos um Brasil melhor.

Fonte: Sistema Ocepar



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