Por um mundo mais justo, democrático e igualitário

Publicado em: 20 dezembro - 2019

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Mais do que presidir a mais importante entidade cooperativista das Américas, a uruguaia Graciela Fernández é praticamente uma ativista que luta por um mundo mais justo e sustentável

Graciela teve contato com o cooperativismo há mais de 30 anos quando iniciou sua vida profissional dentro do Centro de Cooperativismo Uruguai, um centro de desenvolvimento e cooperação que promove o cooperativismo em seu país. “Eu fazia parte da equipe e minha função era assessorar e viajar pelo interior, conhecendo as fazendas e dando apoio aos cooperados para que eles pudessem entender melhor o espírito do cooperativismo”.

Desde então, a líder da ACI Américas nunca mais saiu do sistema. “Logo me encantei pela visão de negócios do sistema cooperativo, que é muito especial. Primeiro porque é uma visão coletiva. Não está centrada no ganho individual. É democrática e formal, regida por um estatuto, que é a lei. Temos um capital, defendemos um capital, mas as decisões sã democráticas, coletivas”.

Nesta entrevista exclusiva à MundoCoop, Graciela apresenta sua visão sobre o futuro do cooperativismo, especialmente aqui na complexa América Latina.

As novas tecnologias ensejarão mudanças nas cooperativas?

As cooperativas são organizações centradas nas pessoas. As necessidades dos seus membros são a sua força motora. Ser capaz de obter, de forma eficaz e eficiente, as melhores respostas a estas necessidades implica sempre uma utilização inteligente da tecnologia. O cooperativismo deve assumir que estamos em uma nova Era, em pleno desenvolvimento da quarta Revolução Industrial. A sofisticação das tecnologias de informação e comunicação, a Internet das Coisas e a Inteligência Artificial, entre outros fenômenos contemporâneos, têm vindo para mudar radicalmente a forma como as organizações têm procurado responder aos seus propósitos.

Mas será a solução de todos os problemas?

Essas mudanças tecnológicas devem ser integradas de forma crítica, reconhecendo que o desenvolvimento de diferentes ferramentas tecnológicas não é neutro e que nem todas elas, além de sua funcionalidade à primeira vista, podem servir para resolver os desafios de nossas organizações. É importante identificar que estas tecnologias não só dão melhores respostas às necessidades concretas dos associados, mas que devem reforçar o quadro ético de funcionamento das nossas organizações.

Qual o principal desafio do cooperativismo nos dias de hoje?

O cooperativismo no mundo de hoje inclui mais de 3 milhões de empresas e mais de 1.200 milhões de membros. O maior desafio para o cooperativismo global é traduzir essa enorme presença em uma força integrada com sentido transformador, colaborando diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 das Nações Unidas. As cooperativas devem não só dar as melhores respostas aos seus membros, mas também identificar-se como o Movimento Social e Econômico com maior capacidade de contribuir para o desenvolvimento de condições para alcançar um mundo mais justo, mais democrático e mais igualitário.

“Em um mundo globalizado, as cooperativas devem ser capazes de jogar
seus pontos fortes das raízes locais com as necessárias estratégias de cooperação em nível global”.

E quando falamos em América Latina?

As Cooperativas das Américas estão trabalhando em múltiplos sentidos: apoiar cooperativas em países onde ainda não existem organizações representativas consolidadas. Aprofundar o posicionamento do movimento contra as principais organizações intergovernamentais como OEA, CEPAL, MERCOSUL, etc, apoiar a melhoria dos quadros jurídicos nacionais, incentivar o conhecimento recíproco das cooperativas do continente a fim de gerar uma rede necessária de negócios intercooperativos na Região.

Mas os problemas sociais e econômicos na América Latina são graves

As Nações Unidas reconheceram que as cooperativas são um parceiro fundamental no avanço dos importantes desafios colocados pela Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. A realidade global nos diz que vivemos num tempo de enormes contradições. Registaram-se progressos na redução da pobreza, mas, por outro lado, nunca houve tanta desigualdade.

O nosso continente, um dos mais ricos do planeta em termos de recursos, é também o mais desigual do mundo. As cooperativas das Américas devem assumir responsavelmente o nosso papel nesta história. Não seríamos fiéis aos nossos valores e princípios se esta realidade não nos escandalizasse e nos impelisse a agir.

E como obter maior engajamento ao cooperativismo aqui na região?

As cooperativas devem continuar a ampliar a resposta aos nossos membros e, cada vez mais, integrar mais pessoas ao Movimento quer através da sua integração em cooperativas existentes, quer apoiando a criação de novas cooperativas. Também devemos projetar nosso movimento com um sentido estratégico, analisando o ambiente em mudança, as novas necessidades de nossas comunidades, as mudanças tecnológicas, o poder de outros atores nas cadeias de valor, fornecendo respostas inteligentes e construindo as alianças necessárias para fortalecer cada organização e o sistema cooperativo como um todo.

Como o conflito de gerações influencia o cooperativismo? Essa questão é positiva para o setor?

As crianças de hoje nascem em um mundo interconectado em escala global, mas fortemente desafiadas em relação à sua sustentabilidade ambiental e social. As cooperativas devem servir como pontes intergeracionais, adaptando a sua proposta de valor às diversas necessidades das diferentes gerações. É igualmente necessário criar condições para que os jovens possam apropriar-se do modelo cooperativo para desenvolverem os seus próprios projetos de vida. No trabalho, na habitação, no acesso a novos bens e serviços, as cooperativas continuam a ser uma das mais importantes fontes de rendimento para os jovens. É essencial facilitar sua incorporação ativa em nossas organizações.

Por que a intercooperação é necessária?

As cooperativas são mais fortes se cooperarem entre si. Este é um princípio básico e fundamental que faz nosso corpo de doutrina. Hoje é um princípio que tem mais valor do que nunca, tendo em conta as necessidades de escala e as relações a nível global. As cooperativas, se quiserem se desenvolver a longo prazo, devem estar conscientes de que um ambiente mais propício aos seus próprios interesses é constituído pela criação de um sistema importante e sólido de cooperativas que cooperem entre si. Esta “densidade” cooperativa permite não só melhorar a eficiência das empresas, como é fundamental para influenciar os quadros jurídicos e regulamentares adequados. As cooperativas devem promover condutas que contribuam para o próprio cooperativismo, não somente em nível local, em suas comunidades, mas também através de projetos de escala nacional, regional e internacional. Em um mundo globalizado, as cooperativas devem ser capazes de jogar seus pontos fortes das raízes locais com as necessárias estratégias de cooperação em nível global.

O cooperativismo pode ser considerado o caminho para um futuro sustentável?

As cooperativas são, sem dúvida, o caminho para um futuro sustentável. São as únicas empresa que integram de forma equilibrada a eficiência a justa distribuição dos resultados de sua atividade e o controle democrático da própria organização. Estão profundamente enraizados em seus territórios e comunidades, garantindo uma verdadeira preocupação com o meio ambiente que os acolhe, sem deixar de ter um olhar ativo sobre os processos em escala global, pois desenvolvem e promovem um marco explícito de Valores e Princípios que cultivam dentro e fora da organização. São estas características que foram reconhecidas por várias agências das Nações Unidas, e pelas quais a Aliança Cooperativa Internacional tomou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável como sua principal referência para a ação cooperativa na próxima década.


Por Fernanda Ricardi e Mauro Cassane – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 91



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