Proporcionalidade entre bancos e cooperativas de crédito é citada por Ilan Goldfajn em entrevista

Publicado em: 16 Abril - 2018

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Em entrevista ao jornalista Fernando Dantas, de O Estado de S. Paulo / Broadcast, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, destacada o papel das cooperativas e do relacionamento com a instituição reguladora. Confira alguns trechos em que Goldfajn fala sobre os rumos da economia e juros, entre outros assuntos.

Boa leitura!

Proporcionalidade entre bancos e cooperativas de crédito é citada por Ilan Goldfajn em entrevista (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Proporcionalidade entre bancos e cooperativas de crédito é citada por Ilan Goldfajn em entrevista (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O BC não está tão preocupado com o ritmo da economia…

Minha mensagem principal é que o Banco Central precisa balancear os riscos. Temos, de um lado, uma inflação baixa que está ocorrendo hoje, tanto nos núcleos quanto nas projeções para 2018. Mas é preciso balancear esse espaço que temos para estimular mais a economia com o nosso desejo de que o que foi conquistado até agora em termos de queda da inflação e dos juros permaneça no futuro. As projeções de 2019 e 2020 estão mais ou menos na meta. Mas temos que levar em consideração que há algumas incertezas importantes adiante.

O sr. poderia detalhar mais esse balanço de riscos?

Do lado da inflação baixa no curto prazo, a incerteza principal é se ela vai perdurar mais e vai voltar ao normal mais lentamente do que a gente imaginava. Isso significaria que haveria espaço para uma flexibilização adicional. Na última reunião do Copom, inclusive, comunicamos uma flexibilização além do que estava precificado pelos analistas. Então esse é o risco que você enfatizou até agora: a inflação baixa, os núcleos baixos, projeção baixa para 2018. Foi exatamente isso que nos fez estimular um pouco mais a economia na nossa última decisão.

E o outro lado?

É para ele justamente que quero chamar a atenção: o risco de fazer o que a gente sempre fez no Brasil, isto é, superestimar o curto prazo e no final das contas a inflação voltar. E perdemos esse cenário extremamente benigno para a sociedade brasileira de inflação e juro baixos. Em relação ao futuro, temos várias incertezas. Por exemplo, quanto à defasagem da política monetária. A importante queda da taxa de juros, que já estimulou a economia, pode estimular mais no futuro. Isso pode ocorrer conforme nossos modelos apontam, mas pode também ser diferente do que a gente imagina. Então temos que olhar e analisar, e talvez uma pausa – que também comunicamos – seja adequada depois desse estímulo adicional.

A Selic caiu, mas o spread bancário caiu menos. Há um problema de cartel? O BC tem uma agenda para lidar com esse problema, mas não seria necessário tomar medidas mais contundentes?

Temos que encarar os problemas do Brasil – e o spread bancário é um deles – de forma estrutural, pela raiz. Lidar só com os sintomas leva a decisões voluntariosas e equivocadas. Isto já foi feito no Brasil no passado em várias áreas, o que reflete esse anseio de soluções em dias ou semanas para problemas de décadas. Nessa área de spread, houve uma tentativa desse tipo há alguns anos. Nós hoje estamos atacando o problema, mas não vamos tomar atitudes voluntariosas que já deram errado no passado. Nada forçado, que possa dar resposta no curtíssimo prazo, mas que volta pior depois.

Mas então por que o spread custa tanto a cair?

No último Relatório de Inflação há um boxe sobre o que ocorreu com os juros, de todos os tipos. O que se observa é que, nos últimos cinco episódios de flexibilização monetária,  desde 2003, e incluindo este agora, a queda dos spreads ocorreu de forma mais ou menos parecida, em média. Isto significa que o spread está caindo. Há uma defasagem entre a queda da Selic e do spread, da mesma forma que, quando a Selic sobe, o spread demora mais a subir.

E qual é a forma correta de lidar com o problema?

Temos um projeto para o setor bancário, a agenda BC+, que começamos no primeiro dia. Em primeiro, estamos atacando a questão das garantias. Sabemos que, quando há garantia, o juro cai muito. Aprovamos a garantia eletrônica, por exemplo. Em segundo vêm os custos operacionais. Nisso, o sistema financeiro do Brasil se destaca negativamente no resto do mundo. Há as ações trabalhistas, causas na Justiça. A reforma trabalhista pode ajudar nesse item. Também estamos trabalhando a questão da informação. O que a nós parece muito intuitivo, as vantagens do cadastro positivo para o consumidor, que permite um crédito mais barato, cria receios, de que a informação vai ser perdida, ou usada de forma negativa. Mas estamos conciliando e já estamos quase na segunda votação: a primeira foi no Senado e ontem passou a leitura do relatório na Câmara.

Mas os juros do cartão de crédito e do cheque especial permanecem extremamente elevados, não?

São os produtos especiais, uma questão que também estamos abordando. O juro do cartão rotativo é alto porque o setor tem muito subsídio cruzado. Nós mudamos as regras do rotativo e acabamos com a bola de neve. Depois de 30 dias, tem que oferecer uma alternativa. E a taxa de juros no rotativo regular caiu pela metade. Ok, a gente quer que caia mais, para um quarto, mas ninguém pode dizer que está caindo devagar. Em segundo lugar, o Congresso aprovou a lei que permite a diferenciação de preço do pagamento à vista. E no cheque especial vai ter uma regulação na Febraban.

Mas há também a questão da concorrência.

Também estamos trabalhando nisso. Há um ano e meio nós dividimos o sistema bancário em cinco, de S1 a S5. O S1 são os cinco maiores bancos, o S5 todas as cooperativas. Nós exigimos muito mais em termos de regulação do S1, e muito menos das cooperativas. No meio do caminho, adotamos a proporcionalidade, aliviando os menores e trazendo toda a Basileia (regras internacionais de regulação bancária) para os maiores.

E as fintechs, novas empresas de tecnologia que atuam no setor financeiro e de crédito?

É a nossa segunda frente. Houve audiência pública e vai sair ainda este mês uma regulação sobre as fintechs de crédito. Adotamos semana passada duas medidas muito importantes. Primeiro, se permitiu que todas as instituições de pagamento não bancárias tenham acesso sem nenhuma dificuldade ao débito automático, à transferência. É quase que um “open banking” brasileiro. A segunda medida foi limitar quanto uma bandeira (de cartão de débito) paga para as credenciadoras, aumentando a competição no mercado de débito. Estamos pensando em fazer o próximo passo no cartão de crédito, uma medida muito forte. E finalmente, aprovamos há duas semanas a facilitação da portabilidade da conta salário. Agora, para mudar de banco você vai para o banco receptor, que pode mandar um comando para o seu banco para mudar. A gente trouxe da ideia da portabilidade do celular. Funciona porque o receptor, que tem todo o interesse que você mude, faz a mudança. Se você tiver que ir primeiro na sua agência, vão fazer tudo para você mudar de ideia.

O sr. declarou recentemente que vê chances de a autonomia [do Banco Central] ser aprovada este ano. Será mesmo?

Você sabe que eu não costumo falar antes de ter alguma perspectiva. Estamos trabalhando bastante neste tema, é uma prioridade, e, se for possível, é mais uma mudança estrutural que reduziria o custo de crédito, o prêmio de risco, e permitiria manter a inflação baixa por muito mais tempo.

Trechos de entrevista de Fernando Dantas com Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central , veiculada em http://economia.estadao.com.br/blogs/fernando-dantas/ilan-de-olho-no-medio-e-longo-prazo/



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