Solidariedade financeira

Publicado em: 12 setembro - 2019

Leia todas


O presidente da Confebras, Confederação Brasileira das Cooperativas de Crédito, Kedson Macedo, completou uma década atuando com cooperativas de crédito. Depois de 30 anos atuando em diversas áreas do Banco do Brasil e em conselhos de organizações públicas e privadas como Sebrae Nacional, Brasil Saúde e Ministério da Indústria e Comércio Exterior, Kedson ingressou em 2009 na Cooperforte, uma singular independente com cerca de 150 mil cooperados, cuja sede é em Brasília. Em seu segundo mandato à frente da Confebras, Macedo é especialista em Gestão Empresarial pela Fundação Dom Cabral, uma das mais conceituadas escolas de negócios no País, em Gestão Avançada de Negócios pela Universidade Federal do Mato Grosso e em Marketing e Estratégia pela Fundação Getúlio Vargas. Nesta entrevista exclusiva à MundoCoop, o executivo lança um olhar analítico sobre perspectivas das cooperativas de crédito e, também, sobre os caminhos possíveis para a economia brasileira neste final de década. 

MUNDOCOOP – Qual o futuro das cooperativas de crédito no Brasil?

KEDSON – Em primeiro lugar, gostaria de dizer que estamos muito otimistas em relação ao futuro do cooperativismo financeiro com base em inúmeras evidências. Hoje o Sistema Nacional de Crédito Cooperativo (SNCC) já reúne 11 milhões de cooperados em 933 cooperativas, segundo dados do último mês de junho. Para o futuro de curto prazo, estamos sintonizados com as metas da Agenda BC#, do Banco Central, que desafiou as cooperativas a saltarem sua participação de 8% para 20% das operações de crédito do SFN até 2022. Uma meta audaciosa que valoriza o segmento.  

MUNDOCOOP – Na sua opinião, como pessoas não ligadas ao cooperativismo podem conhecer e se relacionar com as cooperativas de crédito? Qual o caminho para isso?

KEDSON – Temos missões urgentes a cumprir. A integração da rede de atendimento física entre os sistemas, com mais de 6 mil pontos, poderia ser o primeiro grande gol das iniciativas de intercooperação. Uma grande campanha nacional focando os benefícios do Cooperativismo de Crédito para as pessoas, comunidades e sociedade em geral, utilizando as mídias de maior penetração, seria um marco importante e necessário para disseminar os princípios e valores do momento pelos vários rincões do País. A co-criação de empresas, nas áreas de cobrança de dívidas/recuperação de ativos, Call Center, gestão de inteligência de crédito, seguros e previdência, com participação societária comum dos sistemas cooperativos também são ações que precisam concretizar-se logo com a participação técnica e financeira de todos os entes que integram o ecossistema do cooperativismo financeiro no Brasil.

MUNDOCOOP – Como destacar as vantagens das cooperativas de crédito no Sistema Financeiro Nacional?

KEDSON – Os diferenciais são muitos, seja nas questões de relacionamento negocial, seja na transparência e democracia que distingue as sociedades cooperativas dos bancos tradicionais. Entretanto, sempre aponto o fato fundamental de as cooperativas de crédito serem sociedades de pessoas que visam a solidariedade financeira, enquanto o banco é uma sociedade capitalista que almeja o lucro em si. Além de disporem de taxas de juros menores nos empréstimos, as cooperativas distribuem para os cooperados parcela significativa do resultado obtido, que denominamos sobras. 

MUNDOCOOP – Por favor, explique como funcionam as iniciativas CooperaEduca, o Intercâmbio Confebras e o Fórum Integrativo? 

KEDSON – Estes projetos da Confebras procuram estimular a participação de dois públicos: as crianças e pré-adolescentes e as lideranças do sistema cooperativista. O CooperaEduca busca disseminar a cultura da cooperação e da poupança entre o público de 6 a 12 anos de idade com materiais didáticos, palestras e ações realizadas em todo o Brasil, especialmente na Semana Nacional de Educação Financeira, celebrada na segunda quinzena do mês de maio com a organização do Comitê Nacional de Educação Financeira. Na última edição, as ações do projeto contemplaram mais de 40 mil crianças e adolescentes em todo o País. Para o público identificado como líderes atuais e potenciais, a Confebras oferece o Programa de Intercâmbio no exterior, cujo objetivo é prover conhecimento “in loco” de renomadas entidades do cooperativismo internacional em países como Estados Unidos (Vale do Silício), Canadá, Alemanha, Inglaterra, Espanha, França, entre outros. Das viagens de estudo frutificam bons relacionamentos, negócios, boas práticas e amigos. Por último, estruturamos eventos de integração e negócios, voltados aos dirigentes e lideranças, onde são discutidas as últimas tendências tecnológicas, os cenários da economia e as inovações emergentes no mercado. O 2º Fórum Integrativo será realizado nos dias 10 e 11 de outubro próximos, em Brasília, e incluirá em sua temática palestras sobre o desafio das novas regulamentações, a sucessão de administradores, a implantação da Lei Geral de Proteção de Dados – LGPD e o incentivo à participação das mulheres e dos jovens na governança das instituições cooperativas. Também realizamos a cada dois anos o Concred – Congresso Brasileiro do Cooperativismo de Crédito, que terá sua próxima edição, no período de 7 a 9 de outubro de 2020, em Recife, estimulando os nordestinos a conhecerem e crescerem com mais força na prosperidade que o cooperativismo financeiro proporciona às pessoas e suas comunidades. 

As perspectivas para o Cooperativismo
de Crédito, nos próximos cinco anos,
são as melhores possíveis.

MUNDOCOOP – Como ficaram as cooperativas de crédito entre 2014 e 2017, os quatro anos mais difíceis da atual crise econômica? 

KEDSON – Neste período, a participação das cooperativas de crédito singulares aumentou em todos os principais agregados do Sistema Financeiro Nacional (SFN). Para isso, contribuiu o Banco Central, que esteve à frente da consolidação junto ao movimento do marco regulatório representado pela Lei Complementar 130/2009, que completa 10 anos em 2019; a tenacidade das lideranças representativas dos entes cooperativos, especialmente aquelas vinculadas aos sistemas cooperativos, cooperativas independentes, OCB, Confebras e FGCoop; além da concepção de estratégias bem definidas que, na contramão da timidez dos bancos públicos e privados, estimularam a expansão das agências de atendimento em todo o País, a disponibilização de portfólio completo de produtos e serviços, além de tecnologia de vanguarda que aproximou o cooperado da cooperativa, mantendo o vínculo da solidariedade e mutualismo, com rapidez, segurança e transparência.  

MUNDOCOOP – Na sua opinião, o que está faltando para o Brasil começar a crescer de maneira sustentável?

KEDSON – São muitas as frentes. Certamente, o crescimento sustentável passa pela aprovação da Reforma Tributária para simplificar e otimizar o pagamento de impostos por parte de toda a sociedade brasileira, além de uma política clara, por parte do Governo Federal, para a retomada de obras de infraestrutura, que deverão gerar empregos e modernizar o País.  E nunca devemos esquecer da lição das nações asiáticas que se desenvolveram baseadas especialmente na educação de suas crianças e no oferecimento de melhor qualidade de vida e saúde. Acredito na capacidade de superação dos brasileiros. Acredito na competência de nossa sociedade civil que, com maturidade e democracia, trilhará o caminho do desenvolvimento e crescimento à luz do Estado mínimo. E o Cooperativismo de Crédito será, tenho certeza, uma das forças motrizes do surgimento do País próspero e justo que almejamos.    

MUNDOCOOP – O senhor acredita que ainda é possível diminuir os juros neste ano?

KEDSON – A tendência do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) é de agir neste sentido. Recentemente, o Copom reduziu a Selic em 0,5% ponto percentual, que levou a 6% ao ano, o menor nível desde o início da série histórica do Banco Central, em 1986. Os agentes econômicos sinalizam que a taxa de juros básica da economia poderá atingir 5% em dezembro próximo. A redução da Selic estimula a economia porque juros menores de mercado barateiam o crédito, incentivam a produção, trazem confiança aos agentes produtivos e o motivam as pessoas ao consumo. Esperamos que essa espiral virtuosa chegue à ativação dos empregos e ao aumento de renda, fundamentais para a retomada do crescimento econômico. 

MUNDOCOOP – As cooperativas de crédito sofrem mais ou menos com inadimplências comparando com os bancos privados? 

KEDSON – Não há dados globais aferidos com precisão pelo sistema, mas temos a informação de que as taxas médias de inadimplência nas cooperativas são da ordem de 2%, enquanto que nos bancos comerciais são superiores a 5%. Isso pode estar associado à capacidade de negociação constante com os cooperados, à possibilidade de atendimento personalizado para atender às demandas dos cooperados e a uma política de taxas mais vantajosas para quem integra o sistema, além, é claro, do fato do associado ser também dono da cooperativa. E isso aumenta seu comprometimento com a instituição.      

MUNDOCOOP – Qual a perspectiva para os próximos cinco anos? 

KEDSON – As perspectivas para o Cooperativismo de Crédito, nos próximos cinco anos, são as melhores possíveis. Certamente vamos cumprir o desafio previsto na Agenda BC# e atingir 20% do total da carteira de empréstimos do SFN. Também produziremos números agregados significativos em ativos, depósitos e resultados distribuídos. Conquistaremos até o final de período mais de 20 milhões de associados e estaremos presentes em 100% dos municípios brasileiros, na forma física ou digital. Seremos um exemplo de Cooperativismo Financeiro para o mundo, levando prosperidade e riqueza às pessoas e comunidades, especialmente àquelas atualmente alijadas do mercado financeiro e sem esperanças de dias melhores. Convidamos a todos para participar e construir cooperativamente essas grandes conquistas!


Por Mauro Cassane – Entrevista publicada na Revista MundoCoop, edicão 89.



Publicidade