Temos que pensar em cooperativas 4.0

Publicado em: 21 julho - 2019

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Formada em engenharia e pós-graduada em marketing, Martha Gabriel é empresária, escritora, consultora, professora universitária e palestrante nas áreas marketing digital, inovação e educação. Autora de seis livros, inclusive o bestseller “Marketing na Era Digital” e finalista do Prêmio Jabuti 2014 com “Educ@r: a (r)evolução digital na educação”. Apontada pela Online Universities entre os Top 100 professores mais experts em tecnologia no mundo (posição 35ª); listada entre os 50 profissionais mais inovadores do mundo digital brasileiro pela Revista ProXXIma e ranqueada entre os Top 50 Marketing Blogers mais influentes do mundo pelo KRED, a escritora também é apresentadora do Mundo Online da Rádio Jovem Pan e da websérie Caminhos da Inovação, da Desenvolve SP. Mesmo com sua agenda apertada, Martha nos recebeu em seu escritório para esta entrevista exclusiva à MundoCoop

Como empresas pequenas e familiares muitas vezes com orçamentos modestos podem buscar mais rentabilidade no negócio?

Hoje a gente tem tanta opção de ferramentas gratuitas, de possibilidades gratuitas, tudo conectado no Brasil e exterior. Com isso, os pequenos realmente têm muito mais oportunidades do que há algumas décadas. Hoje as tecnologias chegam ao mesmo tempo para pequenos e para grandes. O que diferencia o pequeno e o grande empresário é unicamente os recursos financeiros. O grande tem muito mais recursos para estudar, para ir atrás disso, de pessoas especializadas nas várias áreas, e o pequeno, não. Por isso o pequeno empresário poderia estudar um pouco mais. É preciso, sem dúvida, empreender mais esforços. A primeira coisa antes de dar um passo é entender o que está acontecendo no ambiente, quando você está perdido numa floresta as coisas que você faz naturalmente é perguntar aonde eu estou, aonde eu vou, quando eu chego lá. O pequeno tem que começar a pensar onde eu estou,  para onde eu posso ir e quando eu chego lá. Isso vai direcionar o caminho para aproveitar essa infinidade de recursos que a gente tem hoje no digital para melhorar o negócio.

Recursos tecnológicos e até mesmo ferramentas digitais que ajudam a melhorar a performance dos negócios podem estar mais acessíveis às pequenas empresas?

Temos visto com a disseminação digital que existem muitas ferramentas disponíveis em Clouds. Então, hoje, até mesmo a inteligência artificial ela tá disponível com recursos de acesso a cada utilização em várias Clouds. A gente tem hoje quatro principais fornecedores de Cloud com inteligência artificial, que fornecem para todos os tipos de ações, que é IBM, Microsoft, Amazon e Google. Então, o pequeno, se ele tiver essa educação, se ele se preparar para entender o quanto que ele pode se beneficiar dessas ferramentas, ele pode sim utilizar essas Clouds. Para você ter ideia, tem Cloud que você consegue utilizar até um volume X gratuitamente, você pode fazer experiências, você pode testar como funciona, para a parte de Agro, tem um milhão de possibilidades para você melhorar. É possível analisar seu negócio, verificar doença em plantações, em folhas, padrões de doença que existem, dá para fazer uso de ferramentas de marketing. São muitas possibilidades. Por isso é preciso se educar para conseguir enxergar onde essas possibilidades estão para poder articular. 

O que fazer para ter mais chances de êxito nos negócios em um ambiente social e político complexo como o Brasil?

Realmente estamos vivendo tempos complexos, não só na parte política e social no Brasil, mas no mundo inteiro tem aumentado o nível de complexidade por causa das tecnologias. Há estudos que mostram que a cada Revolução Industrial, a cada revolução tecnológica, na verdade, desde o início da humanidade não só nas Revoluções Industriais, a gente aumenta a complexidade no mundo. E quanto mais complexo ficam as coisas, temos dificuldades de compreender seus impactos em nossas vidas. Um exemplo disso, foi a greve dos caminhoneiros do ano passado, cujo desdobramento impactou a todos. E se a gente for lembrar, ninguém sabia como começou, ninguém sabia que o impacto era tão grande, depois ninguém sabia como parar aquilo, muito menos quem era o líder. Então, em ambientes complexos, você precisa voltar para o básico, tentar entender. Além disso, a única maneira de você sobreviver é colaborando, e isso está no DNA do cooperativismo, que é uma coisa muito interessante, porque o cooperativismo traz alguns valores que são bastante importantes para transformação digital.

Juntar forças ou caminhar sozinho, o que pode ser mais vantajoso nos negócios?

Tem momentos que a gente tem que caminhar sozinho e tem momentos que a gente tem que andar juntos. Você já deve ter visto situações em que a gente está fazendo um “brandstorn”, criando ideias, e neste cenário, se você não pensar sozinho antes para depois trazer sua contribuição para o grupo sua participação não será nem positiva nem produtiva. Cooperação é, sem dúvida, o caminho para o sucesso. Mas para cooperar, é preciso se estruturar. 

Boas ideias surgem de ideias consideradas ridículas? 

Nenhuma ideia é ridícula, e a gente devia pensar nisso, toda ideia é um exercício mental. Uma ideia evolui para algo que pode ser sensacional. Não se pode abortar ideias, nem descartá-las após seu nascimento. Porque as ideias dos outros também ajudarão você a ter novas ideias, aí de novo, convergente, divergente, até você chegar na solução do problema. 

O Brasil tem chance de assumir algum protagonismo em tecnologia de ponta?

O Brasil tem chance de assumir o protagonismo em qualquer setor que ele queira desde que invista seriamente em educação. Veja o exemplo da Embraer. Oziris Silva, seu idealizador, realmente foi uma pessoa que mudou uma área no Brasil, acreditando no avião brasileiro a Embraer é hoje sucesso no mundo inteiro (Agora virou Boing Brasil). O que o Ozires Silva fez foi estudar o que faltava nos aviões comerciais do mundo. Ele viu que os voos regionais não tinham avião que fizesse voos a curtas distâncias e foi aí que ele posicionou a Embraer. Começamos a produzir aqui aviões para voos regionais. A China começou a fazer isso no final dos anos 1990. Investiu fortemente em educação e agora está inovando e liderando em diversas áreas. Ora, se o Brasil pôde ter avião, também pode inovar em todas as demais áreas tecnológicas, basta investir em educação, infraestrutura e criarmos um ambiente político mais positivo. Quanto mais cedo começarmos, mais cedo estaremos prontos para dar grandes saltos tecnológicos. 

Em quais aspectos a transformação digital pode contribuir para melhorar o ambiente econômico de negócios do Brasil?

Quando a gente pensa na transformação digital dos negócios, sejam eles pequenos, médios ou grandes, das cidades, dos estados, qualquer coisa, o impacto no Brasil é enorme. Simplesmente, com isso, nos tornamos mais competitivos, mais assertivos e, obviamente, mais eficientes. Desta maneira, teremos menos impacto ambiental, produtos mais acessíveis e uma economia mais vibrante. 

Vale a pena investir em tecnologia, é um investimento com retorno garantido, em qual prazo?

Quando a gente fala em investimento em tecnologia, a gente não tem que esperar retorno rápido. É preciso antes considerar quanto a gente perde se não investir em tecnologia. Qual seria o custo ao se ignorar a tecnologia. A Kodak, ao subestimar a tendência de fotografias digitais, pagou um preço muito alto. Portanto, ao avaliar se vale ou não a pena investir em tecnologia e inovação, não tente calcular o retorno deste investimento, apenas considere os prejuízos em não fazê-lo.  

Na próxima década como vão atuar as cooperativas mais bem-sucedidas?

Na próxima década, eu acredito muito nisso, que as cooperativas mais bem-sucedidas serão as que alcançaram um DNA digital. Já temos a indústria 4.0, que é justamente esse processo de usar todas as tecnologias digitais a favor dos processos industriais e, certamente, vamos ter as Cooperativas 4.0 fazendo o mesmo. Por isso que as cooperativas devem começar a se preparar a partir de agora para essa revolução digital que é irrevogável.


Entrevista publicada na Revista MundoCoop Edição 88



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