Agricultura em boas mãos

Publicado em: 02 maio - 2019

Leia todas


 

Assumindo o comando do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento desde janeiro de 2019, Tereza Cristina é reconhecida por sua postura firme e assertiva e está focada em fortalecer o cooperativismo durante seu mandato

Engenheira agrônoma e empresária agrícola, a ministra Tereza Cristina possui dois importantes atributos para quem conduz os rumos da agricultura no País: é do ramo e é política. Já foi secretária do desenvolvimento agrário do Mato Grosso do Sul, se elegeu deputada federal em 2014 e já constava na lista ministerial do presidente Jair Bolsonaro antes mesmo de sua posse. Nesta exclusiva entrevista a MundoCoop, a ministra fala de sua recente viagem junto com a comitiva do presidente aos EUA e deixa claro que vai trabalhar para fortalecer ainda mais a agricultura nacional e, sobretudo, as cooperativas agrícolas.

MUNDOCOOP – Como a senhora avalia a recente missão do Ministério da Agricultura nos Estados Unidos?

Foi uma viagem exitosa para o agronegócio. Foram muitos encontros com investidores, mas o resultado mais concreto se deu a partir da reunião com o secretário de Agricultura, Sonny Perdue, que cumpriu o prometido durante nosso encontro, agendando em três dias a inspeção de carnes em estabelecimentos brasileiros, que ficou marcada para 10 de junho. Só isso valeu a viagem.

MUNDOCOOP – A senhora já afirmou que a agricultura familiar e empresarial são o mesmo negócio. Mas há diferenças acentuadas entre ambas, particularmente no que diz respeito ao acesso a grandes financiamentos e alta tecnologia. Como o Ministério da Agricultura pretende verdadeiramente fazer com que essas diferenças desapareçam?

O acesso à tecnologia depende em boa parte também do acesso ao crédito, e é isso que está sendo discutido entre técnicos do Mapa e do Ministério da Economia. Não faltarão recursos, principalmente para o pequeno e o médio produtor. Para o pequeno, a gente vai focar na assistência técnica, independentemente do que ele quiser produzir, de sisal a gado de corte, passando por soja, milho, cebola, tomate. O que for necessário produzir, nós precisaremos estar prontos para dar assistência técnica e apoio à comercialização, pois não adianta produzir e não ter a quem vender. O Mapa dará todo o apoio possível, dentro das restrições orçamentárias que ainda temos, para que a pesquisa e as tecnologias avancem. Não há outro caminho para a agricultura que não seja esse. A necessidade de preservar e aumentar a produtividade nos impõe esse desafio. Uma das medidas que devem contribuir para isso é levar a conectividade ao campo, e trabalhamos para ter uma decisão quanto a isso até o fim deste ano.

MUNDOCOOP – Por favor, explique melhor como se dará a liberação de produção rural em áreas indígenas?

Defendo que é possível mudar a legislação para que os agricultores indígenas produzam em larga escala em suas terras, gerando renda, ao mesmo tempo em que se preserva a cultura e as tradições. A lei pode ser mudada, é para isso que nós temos o Congresso Nacional. As coisas evoluem, as coisas mudam e a vontade dos próprios indígenas é soberana. Isso está em normativa da OIT. Eles devem decidir o que querem fazer, qual a vontade dos povos indígenas.

MUNDOCOOP – Na sua opinião, quais aspectos podem e serão efetivamente melhorados no agronegócio brasileiro neste governo?

Está bem avançado o trabalho para implementar o sistema de autocontrole na produção de alimentos. Este é um desafio que encarei logo na chegada ao ministério e é um ponto crucial da minha gestão. O Mapa fará seu trabalho de monitoramento e inspeção, mas as empresas são as responsáveis pelos produtos que colocam no mercado. Isso já é praxe em países, que são tidos como muito exigentes e nossos parceiros no comércio internacional, entre eles os da União Europeia. Além disso, vamos resolvendo problemas imediatos de infraestrutura junto a ministérios afins, para aumentar o crédito, ampliar o alcance do seguro rural no próximo Plano Safra e unificar as atividades, como a nova configuração das Câmaras Setoriais que funcionam no ministério. A ideia é de que se tornem, de fato, ambiente de aproximação e de diálogo com o setor de forma mais enxuta e organizada, diminuindo o número e aproximando por temas afins.

MUNDOCOOP – E como o Ministério da Agricultura pode trabalhar no sentido de melhorar a infraestrutura do país?

De forma afinada com os outros órgãos de governo. Mas já ficou claro para a sociedade que o governo tem tido sucesso nos leilões de concessão que tem feito, por enquanto, de aeroportos e ferrovias. Isso demonstra não só a decisão firme do governo Bolsonaro de avançar na área de infraestrutura, assim como confiança de investidores na economia do país. Eles têm demonstrado apetite nos leilões,  fazendo com que as estimativas de preço se confirmem ou sejam até superadas. E isso é muito positivo, trazendo otimismo ao setor produtivo e, logicamente, o agronegócio se beneficia com essas operações. A infraestrutura é um desafio e investimentos são necessários para permitir o escoamento adequado e econômico dos produtos destinados ao mercado interno e externo.

MUNDOCOOP – A pecuária nacional enfrentou problemas sérios que abalaram as exportações. O que é preciso fazer para o Brasil não ter mais problemas desta natureza no futuro?

Acredito que as mudanças que estamos promovendo na inspeção são um bom caminho, na medida em que aumentamos a responsabilidade das empresas e deixamos as regras mais claras, modernas e transparentes. Tudo com cuidado, trazendo o setor privado para acompanhar todo o processo. E, sim, vamos visitar nossos grandes compradores e também prospectar novos mercados para assegurar espaço aos nossos produtos, ampliar esses espaços e conquistar novos clientes. Já há uma agenda de missões oficiais que inclui, China, países arábes, Japão e outros potenciais parceiros.

MUNDOCOOP – Como harmonizar os interesses do agronegócio com interesses ambientais, ambas questões de grande importância para o País? É possível aumentar a produção sem aumentar as fronteiras agrícolas? Como?

Sim, pois temos áreas degradas que estão sendo recuperadas, inclusive para cultivo sustentável, e outras tantas que ainda podem vir a ser. Há programas voltados para essas áreas, como o Paisagens Rurais, destinado à região do cerrado. A tecnologia, e temos todos a Embrapa como grande aliada, tem sido responsável pelo crescimento que tivemos nas últimas décadas. Contamos muito com os recursos tecnológicos para que cheguem cada vez mais para os pequenos produtores. A capacitação, o conhecimento, são fundamentais para que alcancemos uma fatia maior no mercado mundial de alimentos, preservando o meio ambiente. O produtor rural brasileiro cumpre uma legislação rigorosa de preservação e sabe do retorno que os mananciais e todos os recursos naturais dão para seu negócio.

MUNDOCOOP – O que os pequenos e médios produtores rurais podem esperar deste novo governo?

Um tratamento muito especial. São os que mais precisam de capacitação, de crédito compatível e do seguro rural, que neste ano deverá chegar a um número muito maior de beneficiários.

MUNDOCOOP – Como a senhora enxerga o cooperativismo no Brasil? E o que pode ser feito, em sua pasta, para facilitar a vida das cooperativas e cooperados agrícolas?

O cooperativismo é responsável por muitas histórias de sucesso no setor. A organização dos produtores em torno de uma cooperativa os torna mais fortes, competitivos. Estou em visitas ao Nordeste e onde se encontram experiências positivas é, justamente, onde há uma cooperativa por trás. Estou focada em fortalecer o cooperativismo, estudando, inclusive, formas para que cooperativas já maiores e mais estruturadas apoiem as menores espalhadas pelo país.

MUNDOCOOP – Como uma especialista no agronegócio, que conselhos a senhora pode dar aos agricultores brasileiros?

É um setor que é e continuará sendo muito promissor. É importante, inclusive, para manter a estabilidade de um país. Veja o que a escassez de alimentos provoca em uma sociedade. A produção agrícola tende a ser cada vez mais valorizada no mundo, e o que precisamos, sim, é agregar maior valor ao que produzimos. Nossa missão como país com grande potencial para crescer nessa atividade é de contribuir ainda mais para suprir a necessidade de alimentos no mundo.


Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 87



Publicidade