Valorização das pessoas é destaque na gestão da Coopercica

Publicado em: 29 junho - 2018

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Após uma trajetória de 28 anos, Orlando Marciano deixou a presidência da Coopercica, cooperativa de consumo com base em Jundiaí (SP), para assumir o cargo de presidente do Conselho Administrativo da instituição. Incentivado por amigos dessa jornada, decidiu compartilhar as experiências vividas nessas quase três décadas em um livro, intitulado de “O que vi, aprendi e recomendo para vida”, e que tem o prefácio assinado pelo administrador de empresas e escritor Max Gehringer. Segundo Orlando, seu objetivo com a obra de 184 páginas, que levou um ano para ser produzida, é ajudar outras pessoas com seus acertos e, também, seus erros. “Eu gostaria de ter lido algo assim quando iniciei minha carreira de gestor”, comenta o autor. Nessa entrevista exclusiva à Revista MundoCoop, Orlando conta um pouco de como foi escrever o livro e de sua carreira à frente da Coopercica. Acompanhe.

Como surgiu a iniciativa de escrever este livro?

Durante os muitos anos à frente da Coopercica, sempre colocava minhas experiências em reuniões, descrevia em artigos, usava como sugestões e o pessoal sugeria que eu fizesse um livro com essas informações. Achei que não deveria, mas acabei aceitando a ideia, pois gostaria de ter lido algo parecido até para conhecer um pouco mais sobre as dificuldades e os caminhos que a gente deve escolher. Faz uns dois anos que comecei a sonhar com essa história e trabalhamos um ano na produção. Como não sou escritor, contratei um consultor literário para me apoiar.

Essa foi uma experiência mais desafiadora ou prazerosa?

É uma soma das duas sensações. Este livro é muito específico, pois não é autobiografia nem um livro de contos, são minhas experiências profissionais, desde a fazenda onde comecei e os primeiros contatos que tive com lideranças. São histórias que vêm desde minha adolescência e passam pelo meu posicionamento de enfrentamento político e cobrança por melhorias para o Brasil, contestar o errado e valorizar o correto. Acho que para mudar uma nação a gente começa por nosso quadrado, nossa aldeia, e sem dúvida já estaremos mudando o mundo. E esse legado que quero deixar com este livro.

Sua também vem do campo, assim como da empresa que gerou a Coopercica?

Minha família é da região de Barretos, no interior de São Paulo, e eu nasci em uma cidade chamada Colômbia. Meu pai, Américo Marciano, começou a vida profissional como lavrador, era formador de fazenda e trabalhou em diversos lugares do País. Somos uma família de lavradores, mas só cuidávamos das terras dos outros e meu pai quis mudar essa história. Para ter ideia, ele se alfabetizou sozinho, recortando letras de maços de cigarro para aprender a formar palavras. Depois ele conseguiu a ajuda de alguém de uma propriedade vizinha que o ensinou a fazer as quatro operações matemáticas e assim foi evoluindo.

Qual é a fórmula para se manter quase 30 anos à frente da Coopercica?

Trabalhei em fazenda, no chão de fábrica e no comércio, e sempre tive o olhar atento aos problemas, com o intuito de descobrir o que houvesse de errado, mas de forma preventiva. Quando a gente vê alguém com um semblante diferente, deve tentar descobrir o que está acontecendo, dar atenção, apoio, ajudar a superar se houver algum problema. Vemos muita gente que gerencia sem sair da sala, então não percebe os detalhes. É importante olharmos tudo com profundidade, enxergar as particularidades do meio em que está. Costumo observar muito o comportamento dos bichos. Um burro, por exemplo, se passa por um lugar onde há um buraco ou algum outro perigo, não repete o caminho para não correr mais aquele risco.

Como foi a construção da independência da Coopercica, após a Cica ter sido adquirida por outras empresas?

É importante falar sobre isso, pois de uns anos para cá não tem surgido mais cooperativas de consumo, só fechando. A cooperativa é feita pelas pessoas e para as pessoas, e a de consumo precisa de apoio. Em outros segmentos, dá para começar aos poucos e ir crescendo, no consumo já começa grande, com muita infraestrutura, a gente não pode só vender alface, pois os cooperados também precisam de uma variedade maior de alimentos. Em outros países há apoio para a formação desse tipo de cooperativa, com taxas diferenciadas, prazos melhores. Temos apoio do Sescoop, da OCB, mas é preciso de uma reformulação na legislação para fortalecer as cooperativas de consumo, pois prezam muito pela qualidade. E para os outros segmentos também. No nosso caso, tivemos o apoio da Cica no início, e foi tomando corpo.

Qual foi o momento mais desafiador de sua trajetória profissional e como foi a superação? 

Nos anos 1980, houve um piquete em frente a Cica, organizado por centrais sindicais, que pregava a greve supostamente pleiteando uma remuneração melhor, mas a ação tinha cunho político, pois a empresa já pagava os salários mais altos da região. Corríamos o risco de ter a paralisação de 3 mil funcionários, caso fosse decretada a greve. Eu era jovem, uns trinta e poucos anos, e liderava um grupo de umas 150 pessoas, mas no setor todo de distribuição e estoque, em que eu estava na época, havia umas 600 pessoas. Como eu tinha facilidade de relacionamento, meu chefe me pediu ajuda. Conversei com o pessoal, falei dos valores, expliquei que era uma greve política e convoquei o pessoal para irmos até o sindicato resolver a situação. A conversa, claro, não foi amistosa, mas com a argumentação impedimos que a greve acontecesse.

Quais são os diferenciais da gestão da Coopercica na atualidade? 

Temos uma gestão muito humana fundida com a gestão técnica. Criamos um departamento para fazer análises profundas para operações como a abertura de uma nova loja ou a modernização de um setor. Com base nos conceitos do professor Vicente Falconi, trouxemos a humanização das relações, convencendo sobre as mudanças com argumentação forte, chegando até a remuneração por resultado. Oferecemos oportunidade para as pessoas, plano de carreira, grande parte dos gerentes começou como menor aprendiz. Esse olhar técnico e humano, essa junção é que faz a diferença. E dar estímulo, motivação. Seja qual for o setor em que trabalhe, precisa entender de pessoas.

Qual é sua avaliação sobre a importância do cooperativismo para a economia brasileira?

No consumo, sempre foi uma empresa que incentivou a criação e isso precisa ser resgatado, pois falta estímulo. Em outros segmentos, como no agronegócio, é fundamental, pois cresce apoiado pela união das pessoas em busca de um objetivo comum. Deveria haver informações sobre o cooperativismo na educação das crianças, dos jovens, para mostrar os benefícios. Como a questão do preço, por exemplo, onde há cooperativa não há cartel, manipulação de preços. Onde há uma cooperativa de consumo os próprios funcionários são consumidores, eles levam para casa, para sua família aquilo que estão vendendo.

Que futuro o senhor vê para o cooperativismo no Brasil?

O futuro só pode ser melhor, pois cada vez mais as pessoas entendem o cooperativismo. Temos mostrado o que já se perdeu em nosso setor e há muita gente debruçada sobre essas informações, estudando as melhorias que acontecem ao redor da cooperativa, e precisamos de um governo que entenda isso e incentive o cooperativismo, pois certamente haverá uma integração maior com toda a sociedade, o entorno. Há muito ensinamento, contribuição para a formação de pessoas, conhecimento sobre como evitar desperdício, por exemplo.

 

SERVIÇO

O que vi, aprendi e recomendo para a vida

Autor: Orlando Marciano

Literare Books International – 1ª edição – 184 páginas – 2018

Preço: R$ 34,90

 



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