As cooperativas mais ricas do Paraná

Publicado em: 09 janeiro - 2020

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Airton e o filho Henrique Spilka, em Mamborê (Foto: Sergio Ranalli)

Elas respondem por 70% do faturamento do setor e buscam sinergia para aumentar a eficiência e manter o crescimento

Bauke Dijkstra, de 61 anos, é sujeito de boa conversa. Agricultor e pecuarista em Carambeí, município de 23 mil habitantes na região dos Campos Gerais, no Paraná, ele anda pela fazenda e conta a história da família e do lugar onde vive. Ali há forte influência dos holandeses, que se estabeleceram na primeira metade do século XX. O fluxo imigratório intensificou após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O avô de Bauke, do qual ele herdou nome e sobrenome, chegou ao Brasil em 1947, trazendo no navio 41 novilhas e um touro, gado puro de origem (PO), da raça holandesa, que ajudaria a formar um plantel de alta qualidade e impulsionar a bacia leiteira da região.

Mas, além da expertise para trabalhar com leite, os colonos tinham espírito cooperativista. Em 1925, com apenas sete cooperados, fundaram a Sociedade Cooperativa Holandeza de Lacticínios, juntando as quatro fabriquetas de derivados de leite de Carambeí. Em vez da concorrência, a união.

Foi uma das primeiras cooperativas do Brasil, que três anos depois originou a marca Batavo, vendida em 2015 para o grupo Lactalis. Como a organização também se chamava Batavo, o nome mudou para Frísia Cooperativa Agroindustrial, uma homenagem à província do norte da Holanda, que tem até idioma próprio, da qual vieram muitos dos imigrantes.

an Ubel Van Der Vinne, de 71 anos, vice-presidente para a área de pecuária da Frísia, diz que a cooperativa cresce a uma média de 10% ao ano. Sem áreas de terras para expandir no Paraná, já mira o Tocantins, onde recentemente instalou uma unidade de recepção e secagem de milho e soja. Já conquistou 40 associados por lá. Porém, o objetivo principal é oferecer segurança para que o pessoal que já é cooperado no sul tenha novas perspectivas no norte do Brasil.

A valorização do cooperativismo no Paraná se tornou tão forte que as três cooperativas que atuam nos Campos Gerais (Castrolanda, de Castro; Capal, de Arapoti; e a própria Frísia) uniram-se em um sistema que chamam de “intercooperação”. Ninguém comprou ninguém. Uniram-se para serem mais fortes, originando a marca Unium, em 2017.

A Unium concorre no mercado de lácteos, suínos e trigo. Mantém unidades industriais de processamento de leite em Ponta Grossa e Castro, no Paraná, e Itapetininga, no interior de São Paulo. Juntas, processaram mais de 3 milhões de litros em 2018, depois repassando para gigantes do ramo de bebidas e alimentos. O excedente é destinado a marcas próprias.

Para se ter uma ideia do que representa a Unium, basta ver os números de faturamento bruto em 2018 das cooperativas que a compõem: Castrolanda (R$ 2,9 bilhões), Frísia (R$ 2,6 bilhões) e Capal (R$ 1,4 bilhão).

De acordo com a Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), operam, dentro do ramo agropecuário, 69 cooperativas, que faturaram em 2018 R$ 70 bilhões. O valor é  22% superior ao faturamento de 2017. Para este ano, a previsão é crescer 5,7%, chegando a R$ 74 bilhões. Elas reúnem 151.367 associados e respondem por quase 60% do Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio paranaense. Geram mais de 70 mil empregos diretos. Quinze delas faturam mais de R$ 1 bilhão ao ano (confira no gráfico).

Casamento

Bauke Dijkstra é um dos 837 associados da Frísia. A fazenda dele tem o mesmo nome da cooperativa. “Brinco que somos a matriz e a cooperativa a filial”, diz. O avô, que já citamos, era frísio. Assim como o funcionário Jacob Zijlstra, de 60 anos, há 31 morando no Brasil. É um dos encarregados do gado leiteiro.

Convidado a opinar sobre o motivo de o sistema cooperativista ser tão forte na região, Bauke responde com firmeza: “Vem da nossa tradição de um ajudar o outro. De se unir para crescer. E de ter a consciência de ser fiel à cooperativa, como se é num casamento”.

Ele explica que ser cooperado permite comprar insumos para pagar num prazo compatível com a produção, permite acesso à linha de financiamento para a silagem e garante assistência técnica. Além de preço melhor para o leite, recompensando pelo profissionalismo.

O preço base pago ao produtor pelo litro é R$ 1,18. Mas a cooperativa oferece bônus, levando em conta as boas práticas de manejo e melhor qualidade, como bons índices de gordura e de proteína, temperatura ideal na hora da coleta e flexibilidade de entregar a qualquer hora. Atendendo a tudo isso e a outras exigências, Bauke recebe R$ 1,70 por litro.

Atualmente ele tem 560 vacas, todas holandesas. Cada uma produz, em média, 35 litros por dia, gerando na fazenda entre 19 mil e 20 mil litros a cada 24 horas. São três ordenhas, mecanizadas: às 4 horas, às 12 horas e às 20 horas. É trabalho para dois turnos de funcionários, cuidando para que as vacas tenham acesso à boa comida, água fresca e ambiente confortável no confinamento.

A fazenda de Bauke Dijkstra tem 260 hectares. Área que é utilizada para plantar milho no verão e azevém e cevada no inverno, utilizando para a boa alimentação das vacas. Para complemento, a cooperativa fornece um concentrado, que é misturado a grão úmido de milho e soro de leite. O produtor mantém ainda 500 novilhas e mais 70 vacas no período seco.

Além de leite, Bauke engorda 2.920 porcos, que ele recebe da cooperativa já pesando aproximadamente 22 quilos, e grãos, em área arrendada, fazendo rotação entre soja, milho, trigo e aveia. O solo da região, em geral, é arenoso, raso e ácido. “Tenho de seguir a cartilha do tio”, ele diz, referindo-se a Franke Dijkstra, um dos pioneiros do sistema de plantio direto.

Terra vermelha

Halisson Lopes, de 42 anos, cooperado da Coamo no distrito de Ivailândia, no município de Engenheiro Beltrão (Foto: Sergio Ranalli)

Saindo de Carambeí e seguindo na direção oeste está Campo Mourão, município de 94 mil habitantes, sede da cooperativa Coamo. A terra é vermelha, diferente da dos Campos Gerais, e a colonização também. Boa parte da população atual foi formada por migrantes gaúchos, oriundos de diversas etnias. Porém, em comum, as duas regiões do Paraná têm a força do cooperativismo.

Airton Spilka, de 57 anos, é neto de russos. Em 1962, o pai dele, Olímpio, chegou ao município de Mamborê, a 39 quilômetros de Campo Mourão, para cultivar uma área de 17 hectares. Atualmente, o núcleo familiar dos Spilka soma cinco famílias, que agora trabalham em 900 hectares de terras próprias.

“Crescemos no ritmo da cooperativa”, explica Airton. “Meu pai se tornou cooperado da Coamo em 1973. Em 1977, plantamos soja pela primeira vez”, complementa o agricultor, ele próprio cooperado desde 1986.

A Coamo é a maior cooperativa do ramo do agronegócio da América Latina. Tem mais de 28 mil cooperados. No balanço de 2018, demonstrou faturamento de R$ 14,2 bilhões. O lucro líquido superou os R$ 800 milhões. Foram distribuídos para os cooperados, proporcionalmente ao que cada um movimentou na cooperativa, mais de R$ 358 milhões.

De volta ao campo, Airton apresenta o filho Henrique Spilka. O rapaz tem 30 anos. Sabe pilotar tratores desde os 10 e se formou engenheiro agrônomo. “Nossa família já é uma cooperativa. Todos ajudamos uns aos outros e compartilhamos as máquinas em toda a área de 900 hectares. Ao mesmo tempo, cada um é responsável pela produtividade da parte que lhe pertence”, diz Henrique. Ele e o pai são sócios em 314 hectares.

Sobre as vantagens da cooperativa, relatam que a assistência técnica constante, os bons preços dos insumos e o banco próprio (uma cooperativa de crédito só para associados da Coamo) fazem a diferença.

“Em dezembro, a cooperativa já solta um adiantamento do que será a futura distribuição de lucros. Com isso dá para pagar todo o diesel da colheita, revisar o maquinário e ter um Natal mais gordo”, comenta Henrique. Em fevereiro, quando entra o restante da parte do lucro, as chamadas sobras, é possível fazer uma reforma na casa, comprar móveis e eletrodomésticos e se capitalizar para a segunda safra.

Também podem usar gratuitamente os silos da cooperativa por até um ano, deixando a produção já com uma intenção de venda em preço preestabelecido.

A influência da cooperativa faz com que as terras da região de Campo Mourão sejam as mais valorizadas do Paraná. Em geral, ninguém vende 1 hectare por menos de 1.200 sacas de soja. Em Mamborê, os valores são ainda maiores, conforme garante o agrônomo da Coamo Gabriel Lavagnini. Ele diz que os raros que topam vender pedem 1.700 sacas de soja por 1 hectare.

Todos os dias, Vilson Fantin, de 70 anos, acorda às 4h30. Toma chimarrão, tropeça nos cachorros e se dirige à propriedade que toca com o filho Giovani, de 48, em Mamborê.

Em 100 hectares, eles plantam soja no verão, trigo e milho na segunda safra e criam porcos. São 350 matrizes, que geram aproximadamente 200 leitões por semana. Os Fantin, contando com a ajuda da maternista Josiane Duarte, de 35 anos, e do gerente Celso Ricardo dos Santos, de 39, trabalham no sistema de “creche”.

Criam os leitões até atingirem entre 20 e 23 quilos, o que demora em torno de 60 dias. Daí vem o caminhão enviado pela C. Vale, cooperativa com sede em Palotina, no oeste do Paraná, da qual são associados, que leva os animais para terminarem a engorda em outro criador até o momento do abate. É a integração.

O abate,a industrialização e a venda da carne ficam a cargo da Frimesa, uma cooperativa central formada pela Lar, Copacol, Copagril, Primato e pela própria C. Vale. Isso garante bons preços aos produtores, mesmo quando há oscilações do mercado.

“Eu me tornei cooperado faz dez anos. Foi a minha melhor decisão. Agora trabalho com segurança e garantia. Antes, vendia diretamente para independentes. Era tudo no fio do bigode, sem qualquer contrato. Vinham buscar os porcos e a única coisa que tinha era a placa do caminhão, que eu anotava. Para receber, era uma canseira”, lembra Vilson.

Em 2018, os associados da C. Vale entregaram 393.627 porcos à Frimesa – número 5% superior a 2017. O volume de carne industrializada ultrapassou 48,7 milhões de quilos.
“A cooperativa também arca com todos os custos de frete e com a assistência técnica do veterinário. Entendemos que a união dos cooperados é que faz a força. Tanto que também entregamos para ela nossa produção de soja e trigo. O milho utilizamos para a alimentação dos suínos”, complementa Giovani.

Em pujança, a C. Vale também apresenta números gigantescos. Faturou em 2018 R$ 8,5 bilhões. Número quase 20% superior aos R$ 6,9 bilhões de 2017. O lucro líquido foi de R$ 100 milhões. Deste montante, R$ 42 milhões retornaram para os cooperados em forma de sobras. Os associados são 20.892 e os funcionários, 9.468.

De acordo com o diretor-presidente Alfredo Lang, a ampliação da área de atuação e a industrialização alavancaram a cooperativa.

“Até os anos 1990, atuávamos basicamente no Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso. Expandimos nossa área de ação para Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Paraguai. Conseguimos ampliar o volume de recebimento de grãos de 650 mil toneladas, em 1994, para 4 milhões de toneladas, no ano passado. A outra alavanca foi a agroindustrialização. Até 1996, as indústrias representavam apenas 0,5% de nosso faturamento. Em 23 anos, investimos em avicultura, indústrias de amido de mandioca e frigorífico de peixes. Isso ampliou a participação das indústrias para aproximadamente 25% da nossa receita”, diz Alfredo.

Honestidade

Aos 78 anos, o engenheiro agrônomo José Aroldo Gallassini é presidente da Coamo desde 1975, sendo reconduzido pelos associados ao cargo máximo da cooperativa a cada quatro anos, praticamente sem oposição.

Quando questionado sobre o motivo de estar há tanto na presidência, ele responde sem pensar. “O agricultor costuma ser desconfiado. Quando percebe que há honestidade, dá credibilidade.”

Em 1975, quando assumiu, havia em torno de 1.500 cooperados na Coamo. Ele próprio é o 333. Mas José Aroldo admite que está pensando em sucessão. Diz que a ideia é criar um conselho, que passaria a nomear diretores profissionais para áreas estratégicas. Os cooperados passariam a eleger o conselho, que cobraria resultados dos diretores. Mas ele não nega que, aprovada a ideia, na próxima eleição, em 2020, será candidato a presidente do conselho.

Também é direto sobre a crescente industrialização. No último ano, as vendas de produtos industrializados somaram quase R$ 2 bilhões. “Grande cooperativa sem indústria é cerealista.”
A Coamo produz, com marca própria, farinha de trigo, café, óleo de soja, margarina e mistura para bolos. Tem cooperados no Paraná, Santa Catarina e em Mato Grosso do Sul, abrangendo uma extensão territorial de 4,5 milhões de hectares.

Na opinião do professor Carlos Eduardo Caldarelli , do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a administração cada vez mais profissional das cooperativas agropecuárias é um fator importante que leva aos números tão positivos das organizações. 

“Agem como empresas, mas com as prerrogativas de cooperativas, tendo muitos associados e, por isso, abarcando grandes volumes, industrializando a produção e conseguindo concorrer com empresas capitalistas. Ao mesmo tempo, muitas também abriram capital, conseguindo maior volume financeiro para investimentos. Tudo sem perder o grande valor que é dar um voto para cada cooperado”, destaca o professor.

A busca por capacitação dos gestores levou a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), em parceria com a Ocepar e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop), a criar o Programa de Gestão em Cooperativas, um mestrado profissional. De acordo com o coordenador do curso, o professor Alex Ferraresi, 95% dos alunos que se inscrevem a cada ano trabalham em cooperativas.

“As cooperativas do Paraná sempre tiveram a educação como princípio, por isso se desenvolveram, mas não se acomodam. Estão buscando técnicas modernas de gestão, governança, compliance. Já é notório que o cooperativismo é um modelo de negócio e, ao mesmo tempo, vetor de desenvolvimento econômico”, afirma Alex.


Fonte: Globo Rural



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