A carne nossa de cada dia

Publicado em: 10 novembro - 2020

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Luiz Carlos Braga – Presidente da Cooperativa Maria Macia

De olho no futuro da pecuária de corte brasileira, cooperativas apostam na produção de carnes diferenciadas

É visível a evolução da eficiência na pecuária de corte nas últimas décadas. Um exemplo é a precocidade. Se antes o gado estaria pronto para abate em torno de cinco anos, hoje leva em média dois. Contribuem para isso tecnologias e mais conhecimento, dentro e fora da porteira. No mundo, a tendência é de crescimento no consumo de proteína, e a expectativa é positiva à pecuária de corte, que no ano passado movimentou R$ 618,5 bilhões (3,5% a mais que em 2018), e corresponde a 8,5% do total do PIB brasileiro.

Essa evolução acontece principalmente em: nutrição, genética, sanidade e manejo, na avaliação de André Bordignon, pecuarista e coordenador do setor de Pecuária de Corte e Ovinocultura do Sebrae RS, que atua no programa “Juntos para Competir”, uma parceria entre a Federação da Agricultura (Farsul), Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar RS) e Serviço Nacional de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae RS) do Rio Grande do Sul.

Bordignon assinala que a pecuária, principalmente nas pequenas e médias propriedades, precisa ser eficiente para não perder ainda mais espaço a outras culturas. Para alcançar melhor rendimento em carne, além de animais com alta genética, precisa-se investir tecnologias, bons insumos e adotar técnicas adequadas. Ele conta que atestou isso na prática. Foi somente após conseguir corrigir o solo e desenvolver boa pastagem que pode potencializar o rendimento do rebanho. “Estamos avançando também em sistemas integrados de produção, que colaboram para sermos mais eficientes na mesma área, sustentáveis, uma cultura contribuindo para a outra e mitigando os impactos ambientais. Todos esses fatores trazem qualidade à carne, permitem ao pecuarista acessar o mercado premium, um nicho com agregação maior de valor”.

Falar em eficiência pressupõe falar em profissionalização. As tecnologias auxiliam nisso, desde a gestão da empresa rural à conexão do produtor com os demais elos da cadeia. “Elas ajudam, por exemplo, na rastreabilidade, uma maneira de mostrar ao consumidor, além da qualidade da carne, a forma de produção sustentável e com manejo correto”, acrescenta.

Alcides Torres, engenheiro agrônomo e diretor da Scot Consultoria, complementa que “dentre os pacotes tecnológicos, o pecuarista deve escolher aquele que mais corresponde à sua realidade. Há tecnologias relativamente baratas que já trazem resultado positivo”. O especialista lamenta, no entanto, ainda haver desigualdades tecnológicas na produção por falta de infraestrutura, como a cobertura de sinal de internet. “A tecnologia anda a par do desenvolvimento. Sem tecnologia, sem futuro”. Por falar em futuro…

O que esperar para futuro da pecuária de corte

Para avaliar possíveis cenários e tendências da pecuária de corte que possam nortear estratégias para ganhar ainda mais eficiência, o Centro de Inteligência da Carne Bovina (Cicarne) da Embrapa Gado de Corte, em parceria com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) realizou o estudo “Futuro da Cadeia Produtiva da Carne Bovina: uma visão para 2040”, lançado no início do mês de outubro, que aborda oito grandes áreas da cadeia produtiva: saúde e genética; nutrição; manejo e gestão; estrutura; frigoríficos; comercialização; consumo; regulamentação. A partir das análises, os pesquisadores apontam dez megatendências, que devem balizar o planejamento estratégico dos integrantes da cadeia (gráfico). “Apostamos em um bom cenário à pecuária de corte nos próximos 20 anos. Cada vez mais competitiva, moderna, intensificada, gerando produtos de alto valor agregado”, avalia Guilherme Malafaia, coordenador do Cicarne e um dos responsáveis pelo estudo.

Guilherme Malafaia

Dentre os temas que devem ganhar ainda mais relevância, destaca-se, por exemplo, a rastreabilidade; o bem-estar animal; e indicações geográficas, como a denominação de origem. A Associação dos Produtores do Pampa Gaúcho (Apropampa) já criou um selo que atesta a origem e a qualidade da carne produzida na região, por meio do cumprimento de normas e protocolos. “Essa ainda é a única iniciativa em carne bovina no Brasil hoje. Há muito a ser explorado nesse sentido”, diz Malafaia.

Outro ponto é a intensificação na criação, com adoção de tecnologias que permitam maior produtividade por área, como o sistema ILPF. Contribuem ainda a biotecnologia, que trabalha, por exemplo, o melhoramento genético dos animais, e os bioinsumos, voltados principalmente ao desenvolvimento de alternativas a medicamentos tradicionais e que minimizem resíduos na carne. A digitalização deve permear toda a cadeia, alterando desde processos a relacionamento e comunicação.

Há tendência de concentração no processo de produção, com predomínio de grandes players. É possível também que até metade dos pecuaristas tenham de deixar a atividade caso não consigam acompanhar as transformações. Também a mão de obra capacitada para trabalhar com as tecnologias no campo tende a ser mais escassa.

O Brasil deve intensificar a exportação, tanto de carne, inclusive de valor agregado, quanto de genética e animais vivos. Além de aumento da demanda, espera-se um consumidor mais exigente quanto a aspectos intrínsecos da carne (como maciez, marmoreio, sabor, coloração) e extrínsecos (como sustentabilidade, bem-estar animal etc.).

Os cenários vislumbrados podem mudar em duas décadas, mas, o importante é o setor entender os alertas levantados pelo estudo, para qualificar os debates em torno dos desafios e planejar ações. Um movimento que exige investimentos público e privado em pesquisa, desenvolvimento e inovação. “E sermos cada vez mais transparentes”, acrescenta Malafaia. “O melhor marketing é vender confiança”.

Cooperativismo trabalha a diferenciação em carne bovina

“Voltamo-nos a um consumidor mais seletivo, que busca qualidade, origem, rastreabilidade dos produtos que consome. Por isso, a cooperativa já faz tudo isso desde a sua fundação”, assegura Fábio Medeiros, superintendente da Cooperativa Agroindustrial Aliança de Carnes Nobres Vale do Jordão (Cooperaliança), de Guarapuava (PR), que aposta em carnes especiais, de maior valor agregado. “Somos a única cooperativa no Paraná certificada pela Associação Brasileira de Angus; 85% da nossa produção é com esse perfil, um produto gourmet e diferenciado”, destaca Medeiros.

A Cooperaliança é formada por pequenos e médios pecuaristas. É por meio da cooperativa que eles têm acesso à assistência técnica, insumos a preços competitivos e até comercialização mais vantajosa. “Desenvolvemos com cooperados tecnologias de produção e otimização de desempenho dos animais para produzir mais carne por hectare de olho na rentabilidade e bem-estar dele, para que seja um empresário rural de sucesso”, afirma Medeiros. Até dezembro, a cooperativa deve inaugurar unidade industrial própria, um investimento de mais de R$ 70 milhões. A previsão é ampliar o abate de 30 mil para até 100 mil cabeças ao ano, ultrapassar as fronteiras do Paraná e atender também outros estados e exportação.

O mercado interno consome cerca de três quartos da produção de carne bovina do país, e é nesse setor que a Cooperativa Maria Macia, de Campo Mourão (PR),atua. “Prezamos a qualidade da carne. Nossos cooperados compreendem esse perfil; um grupo seleto que nos permite dar os passos que temos dado”, sublinha o presidente Luiz Carlos Braga. Com média de abate de 2,5 mil animais por mês, a cooperativa projeta crescimento. A expectativa é de um aumento de 41% no faturamento anual. “Maria Macia é carne com maciez, suculência e sabor. Isso agrega valor”, defende. 

Com acompanhamento técnico especializado, insumos de qualidade, investimentos em capacitação de pessoas, os cooperados produzem pelo menos 25 vezes mais que a média nacional de arrobas por hectare ano, garante Braga.

Além dos desafios atuais e futuros, há ainda o da comunicação do setor. Seja para despertar valorização da carne nacional pelos clientes e sociedade em geral ou mesmo desfazer certas pré-concepções sobre a produção, essa é uma tarefa que precisa entrar na lista de prioridades de todos os elos da cadeia, concordam os profissionais. “Há muito espaço de valor a ser percebido pela sociedade. Nós, cooperativas, precisamos fortalecer junto ao consumidor a imagem dos nossos produtos, explicar o que existe por trás, que essencialmente são as nossas famílias, nossas histórias”, reconhece Fábio Medeiros.


Por Nara Chiquetti – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 96



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