A era do compartilhamento humanizado

Publicado em: 26 junho - 2020

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A drástica ampliação do acesso à internet que o Brasil vivenciou em 2008 não só aumentou em quase 100% a utilização da rede como fez com que, a partir disso, a realidade de todos fosse transformada em uma nova dinâmica social e econômica.  

A era do compartilhamento criou um ambiente digital que influencia fortemente a sociedade e, assim, traz consigo característica que tem feito a diferença, se intensificado no decorrer dos anos e criado novas formas de se relacionar, consumir, trabalhar e, principalmente, construir um negócio.  

Analisando esses pontos sobre a ótica do capitalismo, é possível constatar mudanças que chegaram com tanta força que já se enraizaram. Quem, hoje em dia, não utilizou um carro por aplicativo? Anunciou ou viu um anúncio de um item usado nas redes sociais? Se deparou com uma onda de bicicletas ou patinetes alugadas pelas ruas? Impulsionados pela demanda por alternativas, mais conscientização e reais mudanças, novos modelos econômicos vieram para ficar e remodelar estruturas.  

Talvez você já tenha escutado falar em economia compartilhada ou colaborativa, economia circular e capitalismo de plataforma, mas você sabe o que esses conceitos significam? Além de serem novos termos disseminados pelas pessoas, essas propostas representam uma nova lógica de consumo e de mercado com um aspecto em comum, usar a interação e a tecnologia como o principal caminho para a sustentabilidade.  

As novas caras de uma nova economia  

Quando o Lehman Brothers, um dos maiores bancos de investimentos dos Estados Unidos, declarou falência, seguido por outros bancos, um período de instabilidade se iniciou no continente norte-americano, refletindo, consequentemente, no restante do mundo. Foi a famosa crise de 2008.  

Em tempos de crise é importante pensar além da questão econômica. Uma crise também é, necessariamente, socioambiental e demanda por novos estilos de vida e valores, esses, atualmente, inseridos e resumidos ao poder social em rede. E, nesse período, alavancando essa ideia através do mundo tecnológico e suas ferramentas, surgiu a economia compartilhada e a economia colaborativa.

Esses conceitos, que se tornaram referências para as empresas atuais, traduzem um modelo econômico baseado na aproximação de pessoas com interesses recíprocos em um ambiente digital e social, onde as partes se beneficiam e criam um sistema de compartilhamento de produtos e serviços. “Estamos falando, então, de uma perspectiva de capital que é criada quando um grupo de organismos desenvolve a capacidade de trabalhar em conjunto para ganhos mutuamente produtivos”, declarou o professor de Mestrado em Governança e Sustentabilidade do ISAE Escola de Negócios, Rodrigo Casagrande.

Definidos praticamente da mesma forma, a única diferença entre os dois é a destinação do lucro. Enquanto a economia colaborativa possui o intuito de complementar a renda dos envolvidos, a economia compartilhada é uma nova forma de estruturação empresarial, porém o lucro maior ainda se concentra na mão de uma empresa ou organização. “O Capitalismo de Plataforma se apresenta sob a égide de uma “economia compartilhada”, enfatizando em seu discurso os valores da autonomia e autodeterminação para os trabalhadores e o do compartilhamento e consumo consciente entre os consumidores. O que está oculto na argumentação do Capitalismo de Plataforma é o fato de que tais plataformas são dominadas por grandes empresas monopolistas. Neste modelo, os trabalhadores – diferentemente da propagada autonomia –  são sujeitos às decisões de tais conglomerados, em ambiente antidemocrático“, acentuou o Diretor Geral da Faculdade de Tecnologia do Cooperativismo (ESCOOP), Mario de Conto. Apesar de cada vez mais presentes no cotidiano, é importante ressaltar que essas economias ainda são conceitos em construção e como qualquer novidade, demanda minuciosas análises e melhoramentos.

De acordo com projeções da consultoria PwC, a Economia Compartilhada movimentará mundialmente US$ 335 bilhões em 2025. Especialistas também indicam que esse modelo pode contribuir com mais de 30% do Produto Interno Bruto (PIB) do setor de serviços no Brasil. 

Mais do que uma mudança estrutural, essa economia baseada na colaboração recria valores e se torna um amplo cenário de oportunidades para aqueles que nasceram dessa onda tecnológica, como as startups, e para aqueles que já ocupam no mercado há tempos e conseguem ter a visão inovadora que os farão se adaptar. Novas economias vieram para acrescentar e entre prós e contras, o que prevalece são as vantagens de uma mudança que impactam o presente, mas principalmente, transformam o futuro.  

Se a tecnologia gerou um afastamento das pessoas, essa nova visão de economia adentra a sociedade para, de certa forma, recriar laços, esses em escala global. Valores, reputação (por se tratar de uma rede de colaboração entre pessoas, a confiança assume um papel de destaque) e experiências voltam a ter mais importância que a simples aquisição de produtos.  

A economia do compartilhamento está mudando não só a forma de entender a oferta e demanda e a relação com os bens materiais, mas também o relacionamento interpessoal. Revoluções acontecem no decorrer dos anos e são capazes de mudar tudo, mas, principalmente, acontecem para causar reflexões necessárias e duradouras. Repensar concepções e estruturas faz com que não haja mais insistência em modelos obsoletos e isso é o verdadeiro progresso.

Cooperativismo de plataforma

A necessidade de adaptação atinge todas partes da sociedade e, se as mudanças acontecem no mercado, as adequações são ainda mais essenciais. E foi assim que um novo sistema cooperativista começou a ganhar forma, o cooperativismo de plataforma.

O cooperativismo de plataforma nasceu para contrapor algumas divergências dentro desse fenômeno chamado capitalismo de plataforma e fazer com que a autonomia e valores propostos sejam verdadeiramente cumpridos. Segundo Mario de Conto, ”os efeitos nocivos do Capitalismo de Plataforma já vêm sendo sentidos, notadamente no que concerne à precarização das relações de trabalho. Como reação a esse modelo, surge o chamado Cooperativismo de Plataforma, como proposta apropriada para combinar a propriedade e o controle da plataforma pelos trabalhadores”.

Criamos uma economia que precisa crescer para se sustentar e precisa de um superconsumo para crescer e, por isso, é preciso inserir a sustentabilidade na maneira que empresas se relacionam entre si e se relacionam com as pessoas. Questões como concentração de poder, relação de força e distribuição de lucro são o que diferenciam um desenvolvimento imediatista, porém raso, de um desenvolvimento duradouro e sustentável. “O reconhecimento de que a confiança e a reciprocidade fortalecem a cooperação e as expectativas mútuas de que um favor concedido hoje venha a ser retribuído no futuro é uma visão que vai ao encontro do conceito de capital social. O capital social destaca a importância central das redes de fortes relações pessoais que se desenvolvem ao longo de um período de tempo. Tais relações fornecem uma base para a confiança, a cooperação e a ação coletiva. Aí você coloca na equação, além do capital financeiro, fatores intangíveis como boa vontade, companheirismo, solidariedade e as relações entre os que compõem uma unidade social. Estamos falando, então, de uma perspectiva de capital que é criado quando um grupo de organismos desenvolve a capacidade de trabalhar em conjunto para ganhos mutuamente produtivos”, acrescenta Rodrigo Casagrande.

“No mundo, o fenômeno das Cooperativas de Plataforma está se expandindo. Para citar alguns modelos, podemos citar Cooperativas de Trabalhadores como a Stocksy (Canadá), Up&Go (Estados Unidos) e CoopCycle (Bélgica). Tratam-se de iniciativas em que os trabalhadores são proprietários das plataformas. Em alguns casos, as decisões são tomadas através de mecanismos digitais e à distância, de forma muito diferente da experimentada nas cooperativas tradicionais” – Mario de Conto.

Em um cenário onde novas formas de trabalho e criação de novos negócios já adentram grande parte das comunidades, a presença da tecnologia, inovações e o efeito de “uberização” vem trazendo muitos desafios para cada vez mais países. “As Cooperativas são, historicamente, uma alternativa autogestionária. Os associados de Cooperativas de Trabalho – é bom que se diga isso –  são trabalhadores formalizados, contribuintes da seguridade social e tem direito à seguridade social e à previdência. Ademais, segundo a Lei 12.690/2019, há direitos garantidos aos associados de Cooperativas de Trabalho. Nesse sentido, eu vejo o Cooperativismo de Plataforma como o verdadeiro modelo de economia compartilhada, em que os trabalhadores têm seus direitos assegurados, proteção social e podem de maneira democrática gerir seu empreendimento”, ressalta Mario.

A balança dos prós e contras estará sempre à tona, mas o foco deve estar sempre na importância das escolhas. Por mais que pareça, nem tudo que remete a inovação é verdadeiramente revolucionário se na prática não causar efeitos positivos. Talvez daqui 2 ou 3 anos, novas dinâmicas econômicas e sociais surjam, mas a questão que fica é: estamos preparados para elas? A resposta exata só aparecerá na experiência, mas único caminho para que o bom resultado seja efetivo é a sustentabilidade. Afinal, é em toda a sua essência e princípio, além de apenas um conceito falado, que está a verdadeira transformação.

E a economia circular?  

“A economia circular oferece um contraponto à economia linear, em que exploramos a matéria-prima, produzimos bens e depois os descartamos em forma de lixo. Na economia circular buscam-se meios para mitigar a geração de lixo por meio de atitudes sustentáveis que propiciam a eliminação ou reaproveitamento de materiais que seriam simplesmente descartados. Gosto de uma abordagem do Carlos Ohde, autor do livro Economia Circular, que faz uso da metáfora ¨imitação da genialidade da natureza¨, na medida em que em uma floresta não existe o conceito de lixo: a árvore que apodrece serve de adubo para uma nova planta que serve de comida para um animal, que também será alimento de outro.” – Rodrigo Casagrande 


Redação MundoCoop – Matéria publicada no Anuário Brasileiro do Cooperativismo 2020

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