A Nova Direção Feminina

Publicado em: 12 junho - 2020

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O espaço feminino no meio corporativo ganha cada vez mais reconhecimento e importância

A luta contra o machismo e os padrões pré-estabelecidos pela sociedade não foi cravada recentemente na vida das mulheres. A batalha pela igualdade e por direitos vem se disseminando cada vez mais durante as décadas e se fazendo ouvir de maneira estrondosa e significativa.

Entre discussões e debates, é notável que a pauta sobre empoderamento e liderança feminina dentro do âmbito corporativo, bem como em geral, vem crescendo cada vez mais. Porém, mesmo que esse aumento seja efetivo, as mulheres ainda se encontram em papéis de extrema dificuldade quando se trata de cargos e representatividade dentro das empresas. O desequilíbrio social, no qual a sociedade as impõe, ainda é uma questão muito vivida nos dias atuais e, apesar de certos avanços, a luta para extinguir esses pré-conceitos está longe de acabar.

De acordo com a representante interina da ONU Mulheres Brasil, Ana Carolina Querino, é evidente que as mulheres são menos ouvidas e tem menores possibilidades de participação em tomadas de decisões. “Para as mulheres, exercer liderança é político porque impacta não somente na própria vida, mas nas de outras pessoas. O simples fato de estarem em posições de liderança já gera um impacto simbólico por alterar o imaginário social de que estes são espaços a serem ocupados por homens, e mulheres estariam em outros lugares sociais.”, ressalta.  

Segundo a Grant Thornton, empresa de consultoria empresarial, o Brasil está a frente da média global de mulheres em cargos de CEOs e diretoras executivas. No ano de 2017 foi registrado um aumento de 5%, alcançando a margem de 16% e superando a média global de 12%. Porém, ao mesmo tempo em que nos deparamos com esses dados, encontramos estatísticas que demonstram o contrário. De acordo com o observatório da Diversidade e da Igualdade de Oportunidades no Trabalho, existe uma disparidade gigantesca na remuneração para mulheres e homens, sendo que a faixa das mulheres é, em média, R$ 3,6 mil e para homens R$ 4,3 mil.

A falta de reconhecimento e poder no trabalho, consequentemente, acarretam na extrema insegurança das mulheres que enfrentam esses preconceitos enraizados na sociedade e que, automaticamente, limitam suas ambições. Portanto, é necessário que exista um incentivo e ações por parte das empresas e organizações para que, essas mesmas mulheres, tornem esses desafios em força para provar a sua capacidade e conquistar os mesmos direitos que os homens. “É fundamental discutir as discriminações interseccionais e o efeito do racismo para as mulheres, de forma que as mulheres negras, indígenas e jovens não sejam deixadas para trás e a igualdade entre homens e mulheres seja realidade vivenciada por todas as mulheres e meninas, como preconiza o ODS 5.”, afirma Ana.

A influência do cooperativismo

O sistema cooperativista se define por organizações democráticas, de propriedade conjunta e guiadas por valores de ajuda mútua, responsabilidade compartilhada, democracia, igualdade, equidade e solidariedade. Portanto, acaba sendo uma alternativa atrativa para as mulheres dentro do mercado. “Considerando que cooperativas são organizações democráticas que dependem da contribuição econômica igualitária de seus membros, elas se constituem como espaços favoráveis ao empoderamento econômico das mulheres e ao aumento de sua participação e representação. Entretanto, é necessário um enfoque de gênero e raça que garanta às mulheres em sua diversidade condições equitativas para participação e liderança em cooperativas”, ressalta Ana.

“As cooperativas têm a tarefa de melhorar a capacidade de empoderar as mulheres, colaborando com a sociedade civil e apoiando a voz das nossas ativistas nos processos de sensibilização social e de formulação de políticas públicas”. – María Eugenia Pérez Zea, presidente do Comitê Mundial de Equidade de Gênero da ACI

Por conta dos ideais disseminados pelo universo cooperativista, é muito comum que mulheres se sintam mais confortáveis e reconhecidas, entretanto, é preciso muito mais para se alcançar a equidade de gênero. Toda e qualquer empresa ou organização, são um reflexo de seus membros e da sociedade em que atuam e, portanto, mesmo apoiando certas causas, acabam refletindo os preconceitos sociais e culturais predominantes.

Tendo esse conhecimento como base, surgiu um novo desafio para o cooperativismo, tanto quanto para todas as organizações, que se resume em realizar mudanças na cultura organizacional, nos métodos de trabalho e nas oportunidades de educação e formação para que o empoderamento feminino se torne uma realidade praticada e não apenas falada. “Garantir a participação das mulheres cooperativadas nas instâncias de tomada de decisão das cooperativas e sua representação entre as lideranças é um desafio que precisa ser encarado não apenas por meio da promoção de práticas inclusivas dentro das cooperativas, que promovam a participação ativa das mulheres e combatam a discriminação de gênero e raça, mas também por meio do compartilhamento de tarefas domésticas e de cuidados nas famílias e do fortalecimento dos equipamentos públicos.”, encerra Ana.

Como um exemplo de representação feminina, a Vice-Presidente da Sicredi Pioneira RS, a primeira cooperativa de crédito da América Latina, Heloisa Helena Lopes, 42 anos, concedeu, com exclusividade, uma entrevista e declaração sobre o assunto tratado:

1.Como é estar à frente de uma instituição centenária, que é pioneira em cooperativismo na região?

Estar à frente da instituição financeira privada mais antiga do Brasil e representar mais de 140 mil associados, nos 21 municípios da área de atuação da Sicredi Pioneira, é um nobre e honroso desafio, juntamente com todo o Conselho de Administração, de construir ações estratégicas que promovam o equilíbrio entre o econômico e social, buscando cada vez mais a participação e o desenvolvimento dos associados, através da aproximação entre trabalho e capital, sempre investindo em educação, para que possamos seguir trilhando aquilo que nos motiva: Construir comunidades melhores.

2. Qual a importância de se viver e manter o cooperativismo na prática, todos os dias?

Mais que um modelo de negócios, o cooperativismo é uma filosofia de vida que busca transformar o mundo em um lugar mais justo, feliz, equilibrado e com melhores oportunidades para todos.

A origem da palavra cooperativismo vem do verbo COOPERAR, em Latim COOPERARI, que significa “trabalhar junto”, “trabalhar com”. Os homens, desde o início da história da humanidade, cooperaram para sobreviver.

Cooperação é toda ação conjunta para atingir um objetivo comum. Cooperando, juntamos forças para alcançar propósitos maiores. Imagina o que podemos conseguir…

O que vai gerar o desenvolvimento da humanidade é a cooperação e o cooperativismo é um  caminho que mostra que é possível unir desenvolvimento econômico e desenvolvimento social, produtividade e sustentabilidade, o individual e o coletivo.

3.Você Heloisa, em especial, é a primeira mulher a assumir um cargo de alta gestão no conselho nos 116 anos de história do Sicredi. O que significa essa realização para você e para os negócios?

Para mim, significa a oportunidade de representar as associadas da cooperativa e todas as mulheres que lutam para superar as injustiças que enfrentam e que sofrem vários tipos de discriminação.

Alcançar a igualdade de gênero e empoderar mulheres e meninas são tarefas pendentes do nosso tempo e constituem o maior desafio em termos de direitos humanos no mundo.

As mulheres representam mais da metade da população nacional. São criativas, dedicadas, superam desafios e contribuem de diversas formas.  Um balanceamento harmonioso entre os gêneros em corporações é benéfico, pois agrega potencialidades e geram melhores resultados do ponto de vista econômico e social.

4. Formação acadêmica e profissional.

Desde muito jovem, sempre tive um envolvimento muito próximo com a comunidade, atuando como presidente da Associação Comercial e Industrial de Feliz por duas gestões, presidente da Fundação Educacional do Vale do Caí, que construiu e intermediou a implementação do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (Escola Técnica) na cidade de Feliz, como assessora jurídica da Câmara de Vereadores e Procuradora do Município de Feliz, Conselheira de Administração desde 2011 e, agora, como vice-presidente da Sicredi Pioneira RS. Formada em Direito, com especialização em Cooperativismo pela Unisinos,  em Governança Corporativa, pelo IBGC e em Cooperativismo alemão pela ADG, na Alemanha, atualmente cursa Mestrado em Gestão e negócios de cooperativas.

Mãe dos gêmeos Eduardo e Felipe, de 6 anos e esposa.

5. Como foi chegar até este momento da carreira?

Foi um caminho de muita dedicação, definindo objetivos, com persistência, foco e conhecimento. Todas as pessoas deveriam buscar o conhecimento. Ele está disponível para a grande maioria das pessoas. A gente adquire conhecimento através da leitura, internet, cursos, palestras, universidade. E hoje, o aceso ao conhecimento teórico está muito mais fácil, muito mais acessível para todos.

Mas o que é o grande diferencial das pessoas que se destacam é a abertura para as mudanças, fazer algo diferente, estar aberto ao desafio quando ele bater a nossa porta. Quem mais cresce, quem vai mais longe, é aquele que tem coragem.

Quanto maior o número de experiências, maior o aprendizado. Tentem, arrisquem e tenham coragem quando a oportunidade chegar. Mas não abram mão do conhecimento teórico, pois é ele que vai garantir um trabalho de qualidade. Conecte-se com os seus valores, com o que é importante para você. Seja inquieta, e não tenha a meta como um limite.

6. Quais serão os projetos no novo cargo?

Temos dois pilares enquanto cooperativa, um é o pilar econômico e outro é o pilar social (são os dois pinheiros do cooperativismo). Significa dizer que além do desenvolvimento financeiro, uma cooperativa ajuda a promover o desenvolvimento social nas comunidades em que atua. São vários os projetos que já estão em andamento, como o restauro da Caixa Rural, que foi a primeira sede própria da cooperativa, na Linha Imperial, em Nova Petrópolis, o Comitê Mulher da Sicredi Pioneira, os programas sociais: A União faz a Vida, Cooperativas Escolares, Conselho Jovem, Fundo Social, Educação financeira, Consultoria para empresas e Sucessão Rural.

O maior desafio é promover a educação cooperativista, fazendo com que as pessoas entendam um pouco mais qual é o propósito da cooperativa, que é: Juntos construímos comunidades melhores!

O papel da mulher hoje:

Atualmente, as mulheres ocupam um papel de destaque na sociedade, no mercado de trabalho, no lar, na política, no esporte. Mas ainda existe a necessidade de oportunizar melhorias na questão da igualdade de gênero, a fim de atingirmos uma sociedade mais justa e igualitária. 

O Comitê Mulher é uma ação da Sicredi Pioneira RS com vista ao engajamento e maior participação das associadas na Cooperativa, que, por sua vez, tem como propósito ser uma instituição relevante para a comunidade, com foco na inclusão e desenvolvimento local.

A criação dos Comitês Mulher objetiva a promoção de ações que visem o conhecimento e desenvolvimento das associadas, para que possam desempenhar um papel de liderança na cooperativa e em suas comunidades.


Redação MundoCoop – Matéria publicada no Anuário Brasileiro do Cooperativismo 2020



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