A vez das novas lideranças

Publicado em: 19 maio - 2020

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Mudanças mundiais estão intensificando a necessidade de uma liderança mais humana e colaborativa

No início desse ano, o novo Corona Vírus, que já dava seus sinais de presença no mundo desde o final de 2019, chegou definitivamente ao Brasil. A pandemia do Covid-19 tem transformado muitas dinâmicas sociais na atualidade e, principalmente, impulsionado o ressurgimento de reflexões que sempre foram necessárias, mas nunca foram tão urgentes.

O universo corporativo é continuamente um ambiente de enfretamento de diversas crises, de amplitudes maiores ou menores, apresentando alguns fatores cruciais para sua superação, entre eles a presença da liderança. Afinal, são em momentos de incertezas que os líderes emergem e estabelecem sua devida importância. Mas até mesmo para posições como essas, consolidadas e definidas, a mudança chegou.

O atual cenário incerto demanda o desenvolvimento de habilidades e a visão de novas possiblidades, porém as necessidades do mercado já têm alterado os rumos das organizações há tempos. Para o Presidente Executivo da Coop (Cooperativa de Consumo), Marcio Valle, a liderança tem sempre que estar atualizada. “Se anteriormente vivíamos em um modelo de comando e controle, atualmente isso não faz mais sentido e perde a cada dia mais espaço”, comenta.

Se as competências profissionais são extremamente importantes, agora esse destaque tem se dividido com a postura adotada pela liderança. “Os líderes estão mais próximos, estão criando laços mais fortes com as suas equipes. Essa tendência é essencial a toda liderança, uma vez que reforça a credibilidade e a confiança entre líder e liderado. Estando mais próximos, os líderes conhecem melhor os seus liderados e aprendem a potencializar as suas fortalezas e, consequentemente, fazem com que os resultados sejam ainda mais produtivos e que o desenvolvimento do seu time seja mais evidente”, acrescenta o Marcio.

Com a proximidade sendo um dos fatores que levam ao sucesso de uma boa liderança, a comunicação se tornou o diferencial dessa relação e, consequentemente, da organização. O ato de gerar confiança, credibilidade e êxito tem, cada vez mais, advindo do saber se comunicar. Fator imprescindível para sobreviver em meio a concorrência e a uma realidade imprecisa.   

Modelos baseados na cooperação

Assim como a sociedade, os desafios atuais são democráticos. Seja em empresas recém-criadas e altamente tecnológicas ou setores tradicionais, o papel do líder está em mapear as mudanças e agir estrategicamente, em prol, cada vez mais, do coletivo. Segundo a Great Place to Work, autoridade global no mundo do trabalho, “um bom líder não basta ter domínio técnico ou anos de experiência na função. O que faz a diferença é também o quanto aquele líder sabe engajar as pessoas de seu time, ajudá-las a se desenvolver e a criar um espaço de colaboração”.

Pensando nesse contexto, a crescente presença de uma liderança horizontal, ou seja, aquela que substitui uma hierarquia, pode ser considerada uma tendência, mas, além de já estar presente em empresas como Netflix e Google hoje, ocupa há tempos os espaços de organizações consistentes e duradouras, como por exemplo, as cooperativas. “Ao rompermos as barreiras da hierarquização, liberamos um ambiente fértil e engajado para permitir inovação, por qualquer profissional da organização”, comenta o presidente da Coop.

Maíra Santiago, roteirista e educadora corporativa da Cooperativas Coletiva

Uma das principais vantagens da estrutura horizontal é permitir que os liderados sejam verdadeiramente inseridos na cultura da organização, fazendo com que o líder, além de buscar por bons resultados, construa um trabalho com propósito. Para a roteirista e educadora corporativa da Cooperativa Coletiva, Maíra Santiago, sanear as estruturas e enaltecer a potência dos indivíduos para depois questionar os modelos vigentes, tem impactos mais perenes do que, simplesmente, romper tais barreiras sem a observância da cultura. “Viver, verdadeiramente, o princípio da gestão democrática, permitindo a participação dos colaboradores de modo que se sintam partícipes das decisões e resultados, tem efeito mais duradouro em uma cooperativa que deseje instalar uma cultura de inovação”, reforça.

Outro elemento que se torna presente quando se decide apostar na horizontalização é a inovação através da liderança. Segundo a GPTW, a confiança, a liderança acessível, o olhar para a diversidade, o aprendizado constante e a empatia são pontos que todo líder deve procurar desenvolver para que o inovador deixe de ser uma teoria para se tornar a prática que o deixará a frente dos demais no mercado. “Hoje, a revolução tecnológica e a chamada indústria 4.0, nos colocam em estado de alerta. A presença da inteligência artificial, os algoritmos, a realidade aumentada, a internet das coisas, põem em questão o papel do humano diante deste novo cenário. Cabe a liderança o desafio de resgatar aquilo que nos diferencia das máquinas e colocar a serviço do negócio. Aproveitar o potencial das pessoas e, juntos, pensar e realizar contribuições efetivas e rentáveis”, afirma Maíra.

“Os grandes desafios desta nova ordem são, para as empresas cooperativas, enormes oportunidades, pois somos, de origem e apoiados por nossos valores e princípios, cooperativos”, Marcio Valle, presidente da Coop.

Sentindo no dia a dia atual os efeitos de uma crise que impacta todos os setores da sociedade, reestabelecer o equilíbrio é a prioridade, valorizando a colaboração como a palavra de ordem. Sempre através da visão, convicção e posição acertiva de um verdadeiro líder. “Vivemos um momento bastante delicado e imprevisível. De tanto falar em mundo VUCA, ele se tornou intensamente volátil, incerto, complexo e ambíguo, elevado à enésima potência. Após a pandemia do Corona, nossa economia demandará ações inovadoras e capazes de reincluir muita gente no mercado de trabalho. Tenho a esperança de que isso ocorra com um outro nível de consciência, mais desenvolvido e coletivista. E o cooperativismo é uma solução promissora e efetiva para a superação do que está por vir”, finaliza Maíra.


Por Fernanda Ricardi – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 93



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