A vez dos defensivos

Publicado em: 12 setembro - 2019

Leia todas


Com grandes oportunidades no mercado europeu e seguindo tendência de uma agricultura mais sustentável, produtores brasileiros se destacam no cenário global na utilização de defensivos naturais

Em sua última conferência internacional, realizada em julho passado em Ribeirão Preto, SP, a empresa brasileira de nutrição e proteção vegetal, Santa Clara Agrociência, reuniu quase 400 participantes entre agrônomos, consultores técnicos e grandes agricultores de todo o Brasil e, também, oriundos de países como Colômbia, Chile, Argentina e Peru, para discutir tendências e o futuro do agronegócio na América do Sul. Além da velha discussão de como aumentar a produtividade no campo (é preciso produzir cada vez mais alimento em função do crescimento populacional em todo o planeta), um dos temas que causou maior interesse e suscitou mais discussões esteve relacionado com os defensivos agrícolas e, em particular, os inovadores biodefensivos, cuja utilização no Brasil vem crescendo exponencialmente. 

De acordo com especialistas, os protetores naturais (outra denominação de biodefensivo) possuem alta eficiência técnica com amplo espectro de ação e mitigação de riscos de geração de resistências além, claro, de um comportamento mais amigável com o meio ambiente. É, contudo, prematuro dizer que vai substituir o defensivo químico, mas especialistas afirmam que, junto com a tecnologia da informação, os biodefensivos irão revolucionar a agricultura nas próximas décadas. 

No Brasil, o remédio natural contra pragas já caiu na graça dos produtores que buscam agradar consumidores impactados com a propaganda negativa (muitas vezes injusta) contra os defensivos tradicionais. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio), a produção de produtos biológicos para controle de pragas e doenças agrícolas cresceu mais de 70% no último ano no Brasil, movimentando R$ 464,5 milhões ante R$ 262,4 milhões em 2017. Para João Pedro Cury, CEO da Santa Clara Agrociência, “o mercado brasileiro de controle biológico vai crescer mais de 20% ao ano nos próximos anos”. O executivo afirma que o Grupo Santa Clara criou a empresa CCAgro para atuar exclusivamente com produtos bioquímicos e as expectativas são de forte expansão dos negócios tanto no Brasil como também nos mercados de exportação. 

A Bayer defende que para o desenvolvimento sustentável da agricultura é fundamental a adoção integrada de tecnologias, que isoladas e utilizadas de forma não adequada podem comprometer este desenvolvimento. “Temos boas perspectivas para os próximos anos, já que a procura por esses produtos no mercado interno é crescente. Os biodefensivos são importantes para todos os agentes das cadeias produtivas, em culturas agrícolas e até mesmo na pecuária, devido aos inúmeros benefícios que oferecem”, comenta, Jean Zonato, diretor de Portfólio de Fungicidas da Bayer para a América Latina.

A entrada da Bayer no mercado de biológicos começou a ganhar corpo com a aquisição das empresas de biológicos AgraQuest e Prophyta, que ocorreu  em  2012 e 2013 respectivamente. A empresa ingressou  em  2013 no mercado de  biológicos no Brasil, com o início da comercialização do fungicida/bactericida Serenade®, que foi agregado ao portfólio, permitindo soluções ainda mais  integradas aos agricultores. Segundo Zonato, “há uma  convivência saudável  e  sinérgica  entre biológicos e químicos,  pois os dois mercados se complementam, trazendo benefícios e contribuição fundamental para produção de alimentos no mundo”.

Para Gustavo Herrmann, diretor comercial da Koppert do Brasil, “o crescimento das vendas de defensivos biológicos no Brasil é considerado o mais expressivo da história do setor e supera o percentual apresentado pelo mercado internacional”. Em termos globais, o setor apresentou crescimento de 17% entre 2017 e 2018, de acordo com dados da Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio). O Brasil cresceu quatro vezes mais do que a média mundial. “Acredito que, nos próximos 10 anos, vamos assistir não apenas ao crescimento do uso de agentes de controle biológico, mas também ao incremento desse mercado, por meio da agricultura digital. A tendência de se ter manejos mais sustentáveis só deve aumentar e o controle biológico e outros produtos de origem biológica como fertilizantes e inoculantes devem crescer na mesma proporção”, comenta o executivo. 

Em novembro de 2012, a BASF concluiu a aquisição da Becker Underwood por um valor de US$ 1,02 bilhão (€785 milhões). Com essa aquisição, passou a ser a provedora líder mundial em tecnologias para o tratamento biológico de sementes, corantes e polímeros. “A atuação da BASF no segmento de produtos biológicos reforça o compromisso da empresa em ser uma provedora de soluções inovadoras e sustentáveis que contribuem com a longevidade da agricultura”, diz Antonio Azenha, gerente sênior de marketing da empresa.

O investimento em produtos biológicos faz parte do investimento global em pesquisa e desenvolvimento da Divisão de Soluções para Agricultura da BASF que é de aproximadamente € 900 milhões ano. A empresa também está trabalhando na submissão de registros de bioinseticidas e biofungicidas, que entrarão em seu portfólio como mais uma ferramenta para potencializar o controle de pragas e doenças em diferentes cultivos. 

Prejuízos de bilhões de reais

As pragas causam cerca de 40% de danos à produção vegetal. Os agentes causais de doenças (fungos, bactérias, vírus, nematóides, fitoplasmas etc.) são responsáveis por, aproximadamente, 15% destes danos. Em regiões de clima tropical, como o Brasil, é maior o número e a severidade das pragas – plantas daninhas, insetos, fungos etc. Há necessidade de se utilizar medidas de manejo integrado (MIP), entre as quais se destaca o uso de defensivos agrícolas – herbicidas, inseticidas, fungicidas etc., para a sustentabilidade da produção de alimentos, agroenergia, fibras, ornamentais, especiarias e medicinais.

No Brasil, perdas por doenças e pragas podem ser de até R$ 55 bilhões. Já em relação às perdas por matocompetição (interferência de plantas daninhas no desenvolvimento das culturas principais) houve prejuízos de R$ 9 bilhões, de acordo com dados de 2018.

Enquanto o mercado convencional de defensivos agroquímicos tem apresentado sinais de estagnação, com resultado recente de queda global de 6% na produção (US$ 64 bilhões), o saldo mundial do controle biológico em 2018 foi 17% maior que o alcançado no período anterior, de US$ 3,8 bilhões.

Para 2020, a expectativa é que o setor de biológicos fature no mundo US$ 5 bilhões e que em 2025 chegue a US$ 11 bilhões, segundo a consultoria Dunham Trimmer – International Bio Intelligence. O levantamento da consultoria internacional mostra que o Brasil é o quarto país com melhor performance na produção de produtos biológicos, respondendo por 7% da comercialização mundial. O setor é liderado por Estados Unidos (37%), Espanha (14%) e Itália (10%).

A ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Tereza Cristina, avalia que o mercado de biológicos ainda vai crescer muito no Brasil, pois estes produtos passaram a ser demandados por todos os produtores agrícolas e, não somente, pelos da agricultura orgânica. “Os produtores brasileiros de uma forma geral, os produtores de cana, principalmente, produtores de grãos, já vêm procurando muitos produtos biológicos para utilizar no manejo fitossanitário das suas lavouras. Então, a tendência é crescer ainda mais e é importante que a gente aperfeiçoe o processo no Ministério da Agricultura para colocar esses produtos não tóxicos à disposição”, comentou Tereza Cristina.


Por Mauro Cassane – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 89



Publicidade