Algodão brasileiro ganha o mundo

Publicado em: 07 agosto - 2019

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Com mais produtividade, qualidade superior e muita tecnologia, a fibra nacional vem conquistando cada vez mais mercados no exterior

O Brasil ainda está bem longe de ser o maior produtor mundial de algodão, mas já se tornou, neste ano, o segundo maior exportador da pluma, superando a Índia e ficando atrás apenas do todo-poderoso Estados Unidos. Os grandes produtores, entre eles cooperativas, trabalham agora para aumentar a participação do algodão nacional nos mercados da Ásia, onde se concentram as maiores tecelagens do mundo.

Em meados de abril, o presidente da Cooperfibra (Cooperativa de Cotonicultores de Campo Verde, MT), José Carlos Dolphine, esteve na China a convite da Cofco (maior empresa da China que processa alimentos). O objetivo da viagem foi conhecer as estruturas da empresa, bem como o fortalecimento entre compradores e fornecedores. Dolphine fez parte da primeira turma de produtores de algodão a visitar a empresa.

Dolphine e os demais produtores se reuniram com o presidente da Cofco, Jhonny Chi, para demonstrar o potencial dos produtores do Mato Grosso. “Fizemos uma apresentação dos volumes de produção do grupo, nós estávamos entre produtores individuais e representantes de cooperativas, e apresentamos a eles a solidez dos produtores do Mato Grosso e o potencial de crescimento”, explicou Dolphine.

De acordo com o executivo da Cofco, o Brasil precisa gerar mais confiança por parte política, e que eles sentem ainda a necessidade de as lideranças políticas sentarem com o governo chinês para que possa construir um laço de parcerias e relacionamentos político e comercial. Segundo Dolphine, os representantes da empresa se demonstraram bastante preocupados com as reservas de alimentos bem como a diminuição da poluição.

A China é a maior produtora e, também, a maior consumidora global de algodão. Lá se concentra grande parte da produção mundial de roupas. Se os chineses resolverem comprar mais algodão do Brasil, cuja qualidade já é comparável com os melhores do planeta, a cotonicultura brasileira dará um salto extraordinário. 

Analistas da Conab afirmam que a demanda internacional por pluma está em alta, o que atrai mais produtores e investimentos. Apesar disso, o grande aumento da produção brasileira nesta safra e a estagnação do mercado interno vão elevar os estoques de passagem, que devem atingir 1,081 milhão de toneladas ante as 691 mil toneladas da safra passada. 

Mais demanda de fora

Entre os recordes brasileiros registrados, estão: área plantada, com aumento de 35,4% em relação à safra passada. Em produção, a alta é de 32,8%. E nos volumes exportados, até abril foram embarcados 998 mil toneladas. Segundo o portal UOL, em área plantada, a estimativa da safra que se encerra em junho é de 1,590 milhão de hectares, com produção de 2,66 milhões de toneladas de plumas.

A Índia deve exportar 980 mil toneladas até junho, segundo estimativa da USDA (Departamento de Agricultura dos EUA). Os Estados Unidos, o maior exportador, preveem embarcar 3,5 milhões de toneladas. Segundo Henrique Snitcovski, presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea), tradicionalmente, 70% dos embarques se concentravam no segundo semestre, período de entressafra da produção norte-americana.

Milton Garbugio, presidente da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), diz que a cultura de algodão vem crescendo em cima de áreas de milho, especialmente no Mato Grosso, que produz quase 70% da pluma nacional. Na safra 2017/18, a produção no estado foi de 1,290 milhão de toneladas. Nesta safra, deve chegar a 1,765 milhão.

Outra boa notícia é que a atividade tem remunerado bem o produtor na comparação com outros produtos. E pelo menos dois terços da safra são vendidos antes da colheita. Um fator dificultador está na infestação do bicudo, praga do algodão. Mas o maior desafio de produtores e exportadores agora é resolver problemas de logística para aumentar competitividade no mercado internacional e elevar suas exportações para os países que já compram o algodão brasileiro: China, Vietnã, Turquia, Coreia do Sul e Bangladesh.

O menor tempo de viagem das safras brasileiras até os portos da Ásia é de 35 dias. O algodão americano chega lá em 20 dias, e australianos e indianos, em menos de 15 dias. Numa tentativa para encurtar esse tempo, o setor reativou um comitê de logística para abrir novos portos para a exportação, já que mais  de 90% do algodão é exportado via Santos (SP). Estão em testes os portos de Paranaguá (PR), Salvador (BA), Pecém (CE) e Manaus (AM).

EUA X China

O impasse comercial entre EUA e China, maiores exportadores e importadores mundiais, respectivamente, apesar de impactar negativamente nos preços internacionais, pode ser um fator de sustentação dos preços da pluma brasileira. Pois, diante da taxação sobre os produtos norte-americanos, a demanda pela pluma do Brasil deverá aumentar. No momento em que o país deve contar com uma safra recorde e com um estoque de passagem alto, este fator pode contribuir para dar mais oportunidades de vendas aos produtores.

Algodão no Mundo

O algodão está entre as mais importantes culturas de fibras do mundo. Todos os anos, uma média de 35 milhões de hectares de algodão é plantada em todo o planeta. A demanda mundial tem aumentado gradativamente desde a década de 1950, a um crescimento anual médio de 2%. O comércio mundial do algodão movimenta anualmente cerca de US$ 12 bilhões e envolve mais de 350 milhões de pessoas em sua produção, desde as fazendas até a logística, descaroçamento, processamento e embalagem. Atualmente, o algodão é produzido por mais de 60 países, nos cinco continentes.

Produção e consumo em elevação

Segundo estimativa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), em seu relatório de maio, que já traz as previsões para a temporada 2019/20, a produção mundial de pluma estimada para a safra 2018/19 é de 25,79 milhões de toneladas. Já a projeção para a safra 2019/20 é de uma produção de 27,32 milhões de toneladas, resultado que significaria uma aumento de 5,9% no volume produzido.

Quanto ao consumo global de algodão, estima-se para o fechamento da safra 2018/19 um consumo de 26,72 milhões de toneladas. Para 2019/20 a projeção é de um consumo de 27,42 milhões de toneladas, aumento de 2,6%.

Apesar do crescimento de quase 6% na quantidade produzida, o aumento no consumo faria com que mais uma vez houvesse um déficit na relação oferta e demanda. Em se confirmando esse cenário, seria o quarto déficit global nas últimas cinco safras. O mercado sairia de um estoque final de 19,66 milhões de toneladas em 2015/16, para 16,48 milhões de toneladas em 2019/20, queda de 16,1% no período.

Produção nacional

Segundo o 9º levantamento de safra da Conab, a produção brasileira de algodão estimada para a safra 2018/19 é de 2,676 milhões de toneladas de pluma, isso significaria um aumento de 33,4% em relação ao que foi produzido na safra anterior, que foi de 2.005,8 mil toneladas. A queda na produtividade, em relação à safra anterior, é estimada em 2,0%.

O mais significativo, o aumento de área é de 36,2%, atingindo 1,6 milhões hectares. Diante do bom desempenho das cotações da pluma, os produtores nacionais investiram no cultivo de algodão nesta safra, ocorrendo incrementos recordes na área plantada. Além do aumento de área em regiões onde tradicionalmente se cultivava algodão, ocorreu forte incorporação de áreas ao processo produtivo.

Quase todos os estados produtores de algodão no país (exceção de Ceará e Rio Grande do Norte) apresentaram incremento em área plantada nesta safra, comparada à temporada anterior. Nesse crescimento se destacam o Mato Grosso e a Bahia que, juntos, dispõem de mais de 88% da área estimada para a cotonicultura em 2018/19.


Por Mauro Cassane – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 88



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