Alguns passos além de reciclagem

Publicado em: 23 março - 2019

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Aplicando conceitos de logística reversa, a economia circular, mais do que ecológica, se mostra altamente rentável.

A boa notícia é que ser ecológico não será mais uma questão de ser politicamente correto e sim, efetivamente, visar maior rentabilidade. Buscar lucros, sem medo de ser feliz. A logística reversa, um dos caminhos da economia circular, mostra aquilo que os antigos já sabiam: transformar um produto velho e desgastado em algo novo e útil. O conceito é simples, a aplicação, contudo, altamente complexa. Porém, uma vez bem feito, é possível ganhar dinheiro com esse negócio.

Estudos indicam que cada pessoa produz, em média, cerca de 1,3 quilo de resíduos sólidos por dia. É uma medida assustadora para o meio ambiente e um desperdício absurdo sob o ponto de vista econômico. Significa que, a cada 24 horas, mais de 20 mil toneladas de sucatas são descartadas só em uma megalópole como São Paulo. De acordo com levantamento do IBGE, a cifra de lixo inorgânico chega a 183 mil toneladas por dia no Brasil. A extraordinária soma de dinheiro jogado fora e o prejuízo ambiental são incalculáveis.

Se o sistema produtivo mundial seguir funcionando desta forma linear por mais duas décadas, da maneira como sempre foi feito (matéria-prima que é transformada em produtos que são usados e, ao se estragarem, descartados), antes mesmo de se esgotar os recursos naturais para sua manufatura, certamente vamos colapsar a capacidade humana de se descartar lixos de maneira minimamente segura.

Em muitas partes do planeta, especialmente nos países do Primeiro Mundo (Europa, Estados Unidos e Canadá mais acentuadamente), há mais de uma década vem se fortalecendo o conceito de economia circular que prevê, basicamente, transformar resíduos novamente em recursos e devolvê-los ao sistema de produção. É a boa e velha reciclagem elevada a uma escala, digamos assim, mais industrial. Ou o ser humano, diante do risco de se dar muito mal em um futuro bem próximo, buscando aprender com as lições da mãe natureza que recicla 100% de tudo que produz há bilhões de anos.

A economia circular é o único caminho para escaparmos de um iminente caos ambiental com consequências catastróficas para toda cadeia produtiva e logística. Daqui para frente não se trata mais de deflagrar ações marqueteiras apenas para agradar ambientalistas, virou questão de sobrevivência mesmo.

Reciclagem nacional

No Brasil já há a Lei Federal 12.305/2010, correspondente à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) que prioriza a reciclagem (transformação dos resíduos envolvendo a alteração de suas propriedades físicas, físico-químicas ou biológicas, com vistas à transformação destes em insumos ou novos produtos), a logística reversa (instrumento de responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos), a destinação final adequada dos resíduos, a eliminação dos lixões e outras formas de acondicionamento a céu aberto. A lei chegou a prever o final de 2014 como prazo para tudo isso funcionar perfeitamente bem. Mas a crise brasileira atrasou todo processo e a tradicional falta de fiscalização de leis no Brasil é o agravante que pode acrescentar mais essa lei à triste estatística nacional de regras que existem mas que ninguém (ou alguns poucos) as cumprem.

A boa notícia é que, independente do que rege a lei, muitas empresas e setores da sociedade já se organizam espontaneamente no sentido de alinhar o Brasil com a tendência mundial de maior engajamento com a moderna economia circular e, particularmente, com a logística reversa.

Alguns exemplos são emblemáticos. A CBPak, que produz embalagens biodegradáveis a partir da fécula da mandioca, já oferece ao mercado embalagens que substitui o plástico. A proposta de valor para o cliente inclui o descarte das embalagens pós-uso, o que é possibilitado por parceiras mantidas com empresas locais de compostagem, que coletam as embalagens usadas e as convertem em adubo que pode ser usado para regenerar terras agrícolas.

A Rede Asta, por exemplo, é uma iniciativa que desenvolve artesãos para que eles criem produtos feitos à base de resíduos urbanos. As artesãs transformam este material em brindes personalizados que são vendidos de volta às empresas e outros clientes. A plataforma da Rede Asta ajuda a aumentar a renda da rede de artesãs, além de proporcionar maior conectividade e ampliar sua capacidade de compartilhamento de recursos.

A Natura atua fortemente com comunidades indígenas da Amazônia, se beneficia das matérias-primas cultivadas na região e retribui trabalhando com a regeneração da floresta. Ao oferecer aos locais uma nova opção de trabalho, a empresa de cosméticos mostra que é mais rentável colher frutos do que devastar florestas com extração de madeiras nativas.

A maior produtora mundial de aço, a ArcelorMittal está reflorestando grandes áreas com eucalipto no Brasil para abastecer sua produção de carvão vegetal, substituto do carvão mineral, que é poluente. No setor de eletroeletrônicos, a eStoks é um ótimo exemplo de como estes desafios podem se tornar oportunidades de negócio. Estima-se que 5% dos produtos no mercado sejam devolvidos pelos consumidores por conta de pequenos defeitos. A maior parte das plantas manufatureiras do País se encontram nas regiões Sul e Sudeste, que também representam o principal mercado consumidor; este núcleo fica distante de outro importante centro de consumo no Nordeste. Ao compreender este cenário, a eStoks estabeleceu centros de reparos e logística reversa nesta região, para otimizar a logística e transformar resíduos pré-consumo em produtos vendáveis.

Diversas montadoras de veículos disponibilizam no mercado componentes remanufaturados que, além de ecológicos, normalmente são cerca de 40% mais em conta que seus similares zero quilômetro. A remanufatura automotiva é, basicamente, reconstruir uma nova peça a partir de uma já desgastada. E esse conceito já funciona no Brasil há mais de 20 anos, começou com pequenas peças, como sistemas de embreagens, mas hoje o número de componentes é muito mais abrangente chegando a itens mais complexos como motores e transmissões.

 

Um trilhão de dólares

A remanufatura é apenas um dos muitos caminhos da economia circular. De acordo com Flávio Hourneaux Júnior, professor do Departamento de Administração da USP, “ não é só de reciclagem que é feita a economia circular, é preciso incluir também a troca de materiais ou fontes de energia não renovável por renováveis, a distribuição ou compartilhamento de produtos e serviços (como os casos de aplicativos de motoristas), a redução e otimização de resíduos na produção e no consumo (impulsionada pela Política Nacional de Resíduos Sólidos), a virtualização de produtos e serviços (por exemplo, livros e música digitais), e a aplicação de novas tecnologias embarcadas em produtos (servitização e indústria 4.0)”.

Para o professor da USP, a economia circular se baseia na minimização (ou possivelmente eliminação) de perdas nos processos de produção e consumo. “Do ponto de vista econômico, é sabido que jogar material fora é jogar dinheiro fora”, afirma Hourneaux. Estudos acadêmicos apontados pelo professor dão conta que, com a ativação da economia circular, cerca de um trilhão de dólares seriam economizados por ano em todo o mundo.

É fundamental mensurar vantagens financeiras proporcionadas pela economia circular particularmente para um país como o Brasil que mal consegue se dar bem praticando a tradicional e perdulária economia linear. A professora e pesquisadora Marly Monteira de Carvalho, do Departamento de Engenharia de Produção da Poli-USP, que vem desenvolvendo estudo sobre sustentabilidade, economia circular e gestão de projetos, acredita que um dos maiores percalços para se implantar a economia circular no Brasil seja econômico. “Nosso país nunca conseguiu se firmar em termos de crescimento econômico. Até mesmo os sinais positivos que observamos no passado, não se sustentaram por muito tempo, tendo sido logo tratados como ‘voos de galinha’. Pior, hoje ainda estamos vivendo os reflexos de um cenário economicamente recessivo, o que se torna particularmente desafiador à implementação da economia circular no País”.

Além disso, de acordo com a estudiosa, a cultura de sustentabilidade não parece ter permeado a nossa sociedade de forma consistente. “As iniciativas, em geral, são isoladas e não parecem ser reflexo de conscientização, mas arriscaria dizer que até carregam certa superficialidade, como que uma resposta politicamente correta. Desta forma, o primeiro grande desafio seria uma conscientização de valores sustentáveis mais primários”.


Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 86.



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