A importância do controle da ansiedade para manter a qualidade de vida e o bom rendimento profissional

Publicado em: 22 março - 2019

Leia todas


Um pouco de ansiedade é natural e até pode fazer bem, mas em excesso é enfermidade e precisa ser tratada porque prejudica a qualidade de vida e o rendimento profissional.

Inquietação, dificuldade de concentração, sensação de estar no “limite”, tensão muscular, falta de ar. A princípio, esses parecem ser apenas sinais de que um determinado dia não foi bom. Uma certa quantidade de estresse e ansiedade é normal no trabalho, algo que todos nós experimentamos ocasionalmente e, em alguns casos, são adaptáveis e pode até mesmo ser positivo diante de decisões importantes ou algum evento desconhecido.

Esse tipo de ansiedade leve e breve, ou mesmo esperado, de certa forma, pode ser uma coisa boa, pois acende um sinal de alerta para tomarmos precauções e nos prepararmos para uma resposta adaptativa adequada. Os estudiosos chamam isso de experiência humana adaptativa, que nos ajuda a enfrentar ameaças ou perigos iminentes.

Como destaca também a Dr. Fernanda Nedel, médica pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), especialista em Psiquiatria e em Medicina de Família e Comunidade, “medo (reação a um perigo específico) e ansiedade (apreensão difusa sem um objeto claramente definido) são sentimentos comuns à espécie humana, que tem a importante função de nos proteger em situações de perigo, que nos faz planejar para possíveis eventos não desejados no futuro”.

Neste sentido, a ansiedade, se bem dosada, pode ser benéfica em diferentes situações no dia a dia do trabalho, como melhorar o desempenho, aumentar a capacidade de concentração, foco, coordenação de multitarefas, e cumprimento de prazos. “No entanto, a ansiedade persistente, excessiva e irracional que interfere no funcionamento diário é muitas vezes uma indicação de um transtorno de ansiedade. Momento em que deve ser procurado atendimento profissional com psiquiatra para avaliação diagnóstica”, afirma Fernanda Nedel.

Estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que a prevalência mundial do transtorno de ansiedade (TA) é de 3,6% da população global. No continente americano esse transtorno mental alcança maiores proporções, com destaque para o Brasil, onde o TA está presente em 9,3% da população, possuindo índice três vezes maior do que a média mundial registrada no documento, baseado em dados de 2015.

Globalmente, os transtornos de ansiedade são a sexta maior causa de incapacidade, definida pelos anos de atividade perdidos por causa das limitações físicas e mentais impostas por essa patologia, com maiores taxas de incapacidades em mulheres do que em homens.

Mais do que preocupação normal ou medo

Os transtornos de ansiedade compreendem uma série de diferentes doenças mentais que são todas caracterizadas pelo medo e apreensão excessivos, bem como por comportamentos problemáticos relacionados à ansiedade, como evitar certos lugares por temor ou a incapacidade de funcionar na vida diária.

Embora os transtornos de ansiedade descrevam um grande grupo de outras doenças como transtorno de ansiedade generalizada , transtorno obsessivo-compulsivo, síndrome do pânico, etc., como cita Fernanda Nedel, existem alguns sintomas que caracterizam a doença como um todo.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mental da 5ª  Divisão Americana de Psiquiatria (DSM-5), os sintomas típicos incluem queixas físicas como sudorese, tremores, dores de estômago e dificuldade para falar; pânico intenso ou medo; e pensamentos indesejados constantes relacionados à ansiedade.

Ansiedade, medo e preocupação como descritos anteriormente são experiências humanas normais. Mas em certos casos, quando essas emoções passam a ser disfuncionais e, por consequência, começam a trazer prejuízo e/ou sofrimento, tornam-se incapacitantes, extremos e/ou persistentes e podem estar associadas à baixa produtividade no trabalho e à incapacidade para o trabalho de curto e longo prazo.

Estigma relacionado à ansiedade

Entre os transtornos mentais, os de ansiedade são os mais frequentes, segundo a OMS. A Grande São Paulo, por exemplo, tem a maior incidência de distúrbios mentais do mundo – 29,6% da população, sendo que das 5.037 pessoas pesquisadas, 19,9% sofrem de transtorno de ansiedade, conforme indica relatório da pesquisa São Paulo Megacity Mental Health Survey.

A maioria dos empregos envolve algum grau de estresse e ansiedade, como indicam os dados da pesquisa realizada pela ISMA – BR, representante local da International Stress Management Assotion, organização sem fins lucrativos dedicada ao assunto, onde nove em cada dez brasileiros no mercado de trabalho apresentam sintomas de ansiedade, do grau mais leve ao incapacitante.

Ambiente de trabalho hostil, excesso de metas e responsabilidades, falta de valorização, trabalhar com algo que não se gosta, estão entre os gatilhos principais da patologia, segundo Fernanda Nedel, “quando identificamos essas situações precisamos pensar e criar estratégias para modificá-las. A vida é muito curta para vivermos em situações de estresse que podem ser mudadas”.

Embora a prevalência brasileira média apresenta-se mais alta que a mundial, muitos funcionários relutam em falar sobre a ansiedade no trabalho. Ainda existe um estigma associado a ansiedade e as pessoas pensam que serão vistas como fracas se admitirem sentir ansiedade. Mas essa condição não é uma fraqueza e pode afetar pessoas de todos os níveis dentro de uma organização, incluindo funcionários da linha de frente, gerentes e líderes sêniores.

Para as pessoas que sofrem de ansiedade, a percepção de que “a maioria das pessoas” terá uma atitude negativa em relação à sua condição reduz a chance de buscar apoio, tanto formalmente – médicos psiquiatras, e psicólogos, quanto informalmente – familiares e amigos.

Embora essa enfermidade possa ser extremamente desagradável, ela não precisa ser permanentemente incapacitante. Várias estratégias de enfretamento são úteis para lidar com situações geradoras de ansiedade, tais como desenvolver habilidades sócio emocionais, praticar regularmente exercício físico, de preferência ao ar livre, estar em contato com a natureza e desenvolver a espiritualidade. Identificar situações que podem não fazer bem como, por exemplo, relações abusivas, um emprego que não gosta, também podem ajudar a gerenciar a ansiedade, diz a médica.

Ainda segundo a ISMA – BR, apenas 18% das empresas têm algum tipo de iniciativa para garantir a saúde mental de seus colaboradores. Portanto, é importante que o empregador tome medidas para combater as causas da ansiedade relacionadas ao trabalho em sua organização e incentive os funcionários a procurar ajuda na primeira oportunidade, caso eles comecem a se sentir ansiosos. É preciso falar sobre a ansiedade no ambiente de trabalho, que é uma questão de saúde pública e preocupação mundial.


Por Marcela Langer Noschang é psicóloga clínica especialista em saúde mental.

Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 86.



Publicidade