Antes de comer, reflita

Publicado em: 05 agosto - 2019

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Consumir alimentos de maneira mais consciente, prudente e ambientalmente responsável pode contribuir para combater a fome em todo o mundo

Os números são assombrosos. Analisá-los já dá uma dimensão do problema. O planeta está superpovoado, com sete bilhões de seres humanos e tendência de chegar a 10 bilhões até 2050. Para alimentar todo esse contingente é preciso não apenas mais áreas cultivadas (que, obviamente implica em destruição de mais florestas) mas também maior produtividade agrícola que, via de regra, se recorre a defensivos (veneno contra pragas que muitas vezes afetam pessoas também) e manipulação genética de plantas e animais (os riscos desse tipo de ação jamais serão esclarecidos à sociedade). 

Há dois grandes desafios para a humanidade neste início de Século 21: produzir mais alimentos sem destruir o pouco que restou das florestas e cuidar para que tenhamos o mineral mais preciso do universo, água pura. Detalhe, estes dois desafios estão intimamente ligados. Analisemos outros números para que tenhamos real dimensão do problema a ser enfrentado: atualmente, na América Latina, quase 75% da população vive em grandes cidades, sem relação direta nem controle sobre a produção de alimentos. No Brasil, 81,23% da população é urbana, segundo o IBGE. A média mundial é 65% da população concentrada nas cidades. Ou seja, a maior parte dos consumidores modernos encontra os alimentos nos supermercados ou armazéns e, geralmente, não se preocupa em saber de onde vêm ou como foram produzidos.

 A agricultura transformou-se numa indústria que deve alimentar uma população que não para de crescer. Para isso, passou a utilizar métodos artificiais, como os fertilizantes e pesticidas químicos, a manipulação genética, a irrigação e hormônios para acelerar o crescimento de animais. Se de um lado tais práticas fizeram aumentar a produção, e também os lucros, de outro vêm causando sérios danos ao meio ambiente e aos seres humanos.

Há mais um agravante nesta história: a produção de alimentos é uma das atividades que mais utiliza recursos naturais como água, energia, minerais e solo. Segundo a Global Footprint Network, organização que estuda e pesquisa os recursos naturais do planeta, a demanda alimentar representa 28% dos danos ambientais ao planeta e, mesmo com a triste estatística de milhões de seres humanos passando fome, 9% de toda produção global de alimentos vão para o lixo por conta de desperdício.  

O Brasil é considerado um dos dez países que mais desperdiçam alimentos em todo o mundo, com cerca de 30% da produção praticamente jogados fora na fase pós-colheita. Veja na tabela (1) o mapa do desperdício de alimentos no Brasil e entenda que, no manuseio e transporte, é onde ocorre metade desta triste estatística. 

De acordo com os dados da PNUMA, menos de 0,4% da matéria orgânica gerada é reciclada. No Brasil, apenas 3% do lixo é reciclado, sendo que, em 2014, o País gerou 78,6 milhões de toneladas de lixo. Relatório da ONU indica que, se reduzirmos 1/3 do desperdício de alimento no mundo, é possível resolver o problema da fome no planeta. 

Aqui vai mais um dado para reflexão. Se pegarmos um badalado restaurante de São Paulo com 50 lugares, teremos, no final de cada mês, só de restos de alimentos, mais de uma tonelada de comida de qualidade jogada no lixo. Em dados gerais, mais da metade de todo lixo produzido no Brasil é resto de alimentos (veja tabela 2). 

Perda de alimentos x desperdício

Quando tratamos de alimentos, há uma diferença entre os termos “perda” e “desperdício”. Nos países em desenvolvimento há um alto nível de “perda de alimentos”, que é o desperdício não intencional, muitas vezes causado pela falta de equipamentos, transportes e infraestrutura adequados.

Já nos países ricos, há baixos níveis de perdas não intencionais, mas altos níveis de “desperdício de alimentos”, que se referem ao alimento jogado fora pelos consumidores porque compraram demais, ou pelos varejistas que rejeitam alimentos porque não se encaixam nas suas exigências quanto ao padrão estético.

O Brasil é considerado um dos dez países que mais desperdiçam alimentos em todo o mundo, com cerca de 30% da produção praticamente jogados fora na fase pós-colheita. O problema por aqui é o desperdício no manuseio e na logística dos alimentos. De acordo com dados da Embrapa, 50% das perdas de alimentos no País acontecem durante o processo logístico.  

“O Brasil está muito atrasado em práticas para reduzir as perdas”, afirma Walter Belik, professor titular de economia agrícola da Unicamp e um dos autores do estudo mais recente da ONU. Entre as mudanças sugeridas pelos especialistas para reduzir o desperdício nesse estágio da cadeia estão cargas refrigeradas para o transporte de frutas e verduras (ou pelo menos o transporte à noite, quando há menos luz e calor) e o fim das caixas de madeira para os perecíveis. “Não é possível higienizá-las de forma adequada. Um fruto com fungo transportado ali pode contaminar muitos outros que serão levados no mesmo local posteriormente”, diz Belik.

No caso de cereais e grãos, são necessários investimentos maiores e mudanças estruturais. A principal causa das perdas está no transporte da safra por caminhões. Segundo Antonio da Luz, economista-chefe do sistema Farsul (Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul), a única forma de reduzir o desperdício de grãos e cereais é aumentar de maneira significativa a participação do modal hidroviário na matriz de transportes. “Um caminhão não foi feito para percorrer dois mil quilômetros com soja.”

Ele compara o transporte da soja no Brasil e nos EUA, que produz volume semelhante. Enquanto 60% da oleaginosa é transportada por hidrovia nos EUA, no Brasil esse percentual é de apenas 11%.

Além dos grãos que caem das carretas durante os longos trajetos, o economista calcula as perdas financeiras.

Enquanto um produtor de Iowa (EUA) gasta US$ 100 por tonelada para percorrer 2.149 quilômetros até o porto de Nova Orleans e colocar a sua soja em Xangai, o agricultor de Sorriso (MT) tem uma despesa de US$ 157 por tonelada, considerando um trajeto menor até o porto de Santos, de 1.900 quilômetros.

Em mercadorias, a diferença de infraestrutura e de custos entre o Brasil e os Estados Unidos causa ao produtor mato-grossense uma perda de sete sacas de 60 quilos de soja por hectare – o equivalente a 14% da produtividade média no Estado, de 50 sacas/hectare.

Busca de soluções

Desde 1992, quando aconteceu no Rio de Janeiro a Eco 92, reunião de líderes de todo o mundo com o propósito de buscar soluções que visam, basicamente, nossa sustentabilidade, uma das principais frentes de trabalho tem a ver com a redução do desperdício de alimentos. Jogar alimentos fora é inaceitável sob todos os pontos de vistas: humano, social e ambiental. 

A produção e o consumo sustentáveis de alimento são áreas que demandam melhor gestão, e o desenvolvimento e a aplicação do conhecimento científico para ampliar a oferta de alimentos com menor impacto ambiental. Em um mundo que enfrenta mudanças climáticas e escassez de recursos naturais, e ainda convive com a insegurança alimentar, a redução das perdas e do desperdício de alimento deve ser uma prioridade, em todos os níveis – local, nacional e global. 

Grande parte do ganho necessário para fazer frente a esse desafio de aumentar a produção global de alimentos pode vir da redução do desperdício. As perdas e desperdício de alimentos são um entrave para “acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição, e promover a agricultura sustentável”, segundo os dezessete objetivos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Em 2015, na Cúpula das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, ocorrida durante a 70ª sessão da Assembleia Geral da ONU, foi adotada uma proposta de objetivos e metas (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – ODS) como parte central da Agenda 2030. O objetivo 12 estabelece a meta para o desperdício de alimentos: “Até 2030, reduzir pela metade o desperdício de alimentos per capita mundial, nos níveis de varejo e do consumidor e reduzir as perdas de alimentos ao longo das cadeias de produção e abastecimento, incluindo as perdas pós-colheita”. 

Consumo consciente

Como a solução para o problema da alimentação está longe de ser viável, um bom passo nesta direção é, sem dúvida, o consumo consciente. Especialistas indicam que um bom começo seria a redução do consumo de carne. Que tal reduzir o cardápio com carne para duas vezes por semana? Não se trata de virar vegetariano ou vegano, é preciso apenas entender que, para você comer um filé, do pasto ao abate muita energia foi consumida, milhares de litros de água foram gastos, sem contar o impacto ambiental deste processo. 

Mas não precisa ficar com dor na consciência, basta apenas diminuir a frequência de carne em seu cardápio. Pense nisso, se toda população global tivesse o mesmo padrão de consumo dos norte-americanos (Canadá e Estados Unidos somados) e europeus, seria necessário multiplicar por cinco a produção mundial de alimentos. 

Outro dado assombroso: no Brasil, se houvesse um aproveitamento correto de alimentos que são jogados fora, seria possível combater a fome de milhares de brasileiros que vivem abaixo da linha da miséria. Só na cidade do Rio de Janeiro, calcula-se que 15 toneladas de alimentos sejam jogadas fora diariamente, comida suficiente para alimentar cerca de 12,5 mil pessoas. 70 mil toneladas de alimentos vão para o lixo diariamente aqui no Brasil, um País onde, em média, cinco milhões de pessoas passam fome. Pega a calculadora e divida 70 milhões de quilos de alimento por cinco milhões de pessoas. Isso dá 14 quilos de alimento, por dia, para cada uma dessas pessoas com problema de fome. 

Esses dados deixam claro o quanto é preciso, e urgente, se praticar o consumo consciente. Há muito a ser feito pelo governo, por empresas, por entidades, cooperativas e, certamente, por cada cidadão. Na próxima edição de MundoCoop, veja alguns exemplos inspiradores de consumo consciente e ações que valorizam os alimentos. 


Por Mauro Cassane – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 88



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