Barter: uma nova forma de fazer negócios

Publicado em: 20 maio - 2020

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Com a dúvida crescente do futuro econômico, a operação de troca vem ganhando força como uma nova oportunidade para o giro comercial no agronegócio

A situação defasada da economia brasileira e a falta de previsibilidade do que esperar do futuro, principalmente em meio a crise pandêmica do Covid-19, são fatores que afetam todos os ramos do Brasil. E quando falamos de agronegócio, não é diferente.

Mesmo sendo um dos setores menos afetados pela crise, o agro não deixa de enfrentar problemas em relação a produção, abastecimento e exportação. E, com o intuito de amenizar os riscos, uma operação vem ganhando força e se estabelecendo cada vez mais no mercado: a modalidade Barter.

Sendo uma expressão muito comum na dinâmica moderna do agronegócio, o  termo “barter” significa “troca” ou “permuta” e é uma ferramenta muito utilizada por empresas de insumos, cooperativas, tradings e produtores rurais. Um dos motivos é o seu ajuste ao ciclo comercial, agronômico e financeiro do setor, porém, os benefícios para o financiamento da safra vão muito além. Uma das principais vantagens é a redução do risco de operações para o produto, que fica menos suscetível às ameaças como flutuações dos preços de insumo. Porém, o que é e como funciona exatamente o Barter?

De acordo com a Diretora de Barter e Commodities da Corteva Agriscience para o Brasil e Paraguai, Juliana Jardim, “a ferramenta de Barter é utilizada para aceitar o pagamento de insumos (como defensivos agrícolas ou sementes) com os grãos ou pluma que serão produzidos. É uma ferramenta que negocia na moeda do produtor, permitindo acesso a tecnologias sem ter que, necessariamente, tirar dinheiro do bolso”. Ou seja, basicamente, é a troca de produtos por insumos, onde o pagamento é realizado através da entrega de grãos e não de dinheiro.

Juliana Jardim, Diretora de Barter e Commodities da Corteva Agriscience

No Brasil, essa ferramenta existe desde meados de 1990, porém tem crescido de maneira substancial desde de 2013, visto que as características dessa modalidade são vantajosas e facilitadoras para ambos os lados.

Na prática, funciona mais ou menos assim:

  1. A cooperativa, trading ou revenda disponibiliza uma linha de crédito de determinado montante ao produtor rural, com base em seu relacionamento e capacidade de pagamento.
  2. Para garantir essa operação, o produtor rural emite uma CPR (Cédula de Produto Rural) que é uma espécie de contrato, no qual está firmado o compromisso de entregar parte da próxima colheita, geralmente o valor da linha de crédito convertido em quantidade de produto.
  3. Durante a safra, o produtor vai solicitando e retirando os produtos, assinando notas de romaneio e entrega. Ao final, o Credor faz o fechamento, entre aquilo que foi pego e a quantidade de produto entregue nos armazéns indicados pelo Credor.
  4. Feito o pagamento e o acerto de contas, o Credor emite a autorização de baixa da CPR ao produtor rural.

Fonte: Portal Direito Rural

Portanto, esse ciclo acaba sendo chamado de troca triangulada. Nela, a cooperativa/trading faz o papel de comprador final, que costuma comercializar o produto para a exportação. Também é nessa parte que se define o preço a partir do repasse feito para o mercado internacional.

Nesse ponto, identificamos que a organização dessa cadeia é realmente importante e que quanto mais próximos os envolvidos trabalham, maior é o benefício geral obtido. As empresas fornecedoras de insumos, normalmente, não têm interesse em ganhar no valor do grão, muito pelo contrário, na maioria das vezes, os repassam direto para as tradings, cooperativas e para a indústria consumidora. Com isso, temos uma configuração que no agro se chama “ganha-ganha”, pois todos os participantes têm seu objetivo sendo cumprido. “Toda vez que a gente pensa em futuro, nós temos uma interrogação à frente, não podemos prever. E quando fazemos a modalidade barter, não estamos tentando adivinhar o futuro, estamos tentando sair da zona de incerteza”, argumenta o Presidente da Coocafé, Fernando Cerqueira.

“É de extrema importância que o produtor conheça o seu custo de produção. Vamos lembrar sempre que é necessário que o Barter seja feito dentro de um conhecimento” – Fernando Cerqueira, Presidente da Coocafé.

Hoje, essa modalidade representa, aproximadamente, 20% ou mais do faturamento das grandes empresas do agronegócio. Porém, é importante lembrar que todo processo de negociação tem que ser equilibrado e cauteloso. “Nós nunca devemos fixar ou fazer Barter de 100% da nossa safra, por fatores climáticos, políticos, econômicos e até de produção que pode gerar uma grande oscilação de mercado, portanto é melhor atingir no máximo 30%”, aconselha Cerqueira.

Apesar de existir uma paridade para essa troca, não há regra específica. A negociação, porém, é abordada somente com foco em produtos. Assim, X sacas de commodities valem uma quantidade Y de defensivos químicos, por exemplo. “A grande importância do Barter é garantir ao agricultor a compra de insumos ou maquinários para a sua safra sem que ele precise tirar dinheiro do bolso. Além disso, esse tipo de operação protege o seu custo produtivo de variações do preço da commodity, facilitando, assim, o gerenciamento do seu negócio”, ressalta Juliana.

Até mesmo os fornecedores de maquinários utilizam esse tipo de operação, assim conseguem se adaptar à forma como os produtores querem negociar. Exemplificando com fertilizantes, por exemplo, em 2015 a compra pelo Barter correspondia a 8% das negociações no quarto trimestre. No segundo trimestre de 2016, chegou a 14%. Para os defensivos agrícolas, a diferença do mesmo período foi de 7% para 11%. E para sementes foi de 5% para 12% (dados do estudo Sondagem de Mercado do Produtor Agrícola, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – Fiesp).

Portanto, é possível perceber que o Barter não só é uma forte alternativa para o financiamento da safra, mas também uma maneira do agricultor gerenciar melhor a sua lavoura, proteger seus custos e alavancar seus resultados, mantendo, também, seu capital de giro protegido e podendo fazer investimentos para obter uma melhor produtividade, qualidade e administração de sua lavoura.

Quais as vantagens da operação do Barter?

Negociação travada – O produtor sai com a negociação travada, e isso impede a variação de preço das commodities e dos produtos.

Melhoria das condições de pagamento – O pagamento por meio do Barter é mais atrativo, justamente porque se fala na moeda do produtor, ou seja, o que ele colherá — medida importante especialmente em situações de crise.

Redução de problemas com o armazenamento – Eliminando preocupações com o armazenamento dos grãos que utilizou, visto que ele já tem comprador para o produto e local para entregá-lo.

Diminuição dos riscos – A existência da CPR, que legaliza e formaliza a transação, garante que nenhuma das partes envolvidas no Barter será prejudicada.

Aumento da liquidez – O Barter envolve desde a compra dos insumos até a entrega dos grãos. Por isso, o produtor deixa de se preocupar com o refinanciamento para capital de giro, já que o dinheiro está disponível para ele.


Por Jady Peroni – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 93



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