Biotecnologia e o futuro verde

Publicado em: 09 setembro - 2020

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A evolução tecnológica está mais presente do que nunca no meio rural e promete continuar aprimorando o setor

No decorrer das décadas, a humanidade sempre buscou aprimorar sistemas e processos buscando atingir melhores resultados em vários setores da sociedade. Um desses desenvolvimentos é a biotecnologia, que vem modificando positivamente áreas como a da saúde, indústrias, meio ambiente e, principalmente, revolucionado a agricultura.

Atualmente, estima-se que em 2050 o planeta terá mais de 10 bilhões de habitantes, mas a área destinada à agricultura permanecerá a mesma. Portando, para que seja possível alimentar toda a população mundial sem um esgotamento de recursos naturais, os avanços no setor serão cada vez mais indispensáveis. Mas afinal, o que é essa peça fundamental chamada biotecnologia?

Com a evolução das tecnologias, o uso de mecanismos biológicos tornou-se gradativamente comum. Biotecnologia é um ramo da ciência que aplica os conceitos e métodos da moderna genética e da biologia molecular na criação de novos produtos com o intuito de gerar soluções que tragam benefícios ambientais e econômicos ao mercado possibilitando uma produção mais sustentável. Aliada à agricultura, a biotecnologia torna o cultivo de plantas mais eficiente, permitindo a utilização de tecnologias que reduzem as perdas, aumentam a produtividade e contornam desafios impostos a produção de alimentos (como pragas, doenças, condições climáticas).

Alexandre Nepomuceno, Pesquisador da Embrapa Soja

Como uma prática realizada há quase 20 anos, as culturas transgênicas constituem hoje os principais produtos biotecnológicos disponíveis. “Infelizmente, se criou uma grande dúvida infundada sobre o transgênico maduro. Nós estamos cultivando plantas transgênicas há anos e até então não se desenvolveu ou não se identificou nenhum impacto negativo a saúde humana, animal ou ao meio ambiente. Na verdade, nunca se estudou tanto um alimento, como as plantas de soja, milho, algodão, cana e outras plantas transgênicas, como na época da transgenia e, até hoje, nunca foi identificado algum problema causado por esse tipo de tecnologia”, contextualiza o presidente do portfólio “Biotecnologia Avançada Aplicada ao Agronegócio” e pesquisador da Embrapa Soja, Alexandre Nepomuceno.

Além de reforçar a renda dos produtores e favorecer o crescimento econômico, as variedades geneticamente modificadas (GM) ou transgênicas proporcionam melhoria das práticas de cultivo e incremento na quantidade e na qualidade dos produtos agrícolas. À vista disso, diversas organizações internacionais de renome, como a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Agência de Biotecnologia da Austrália e a Agência de Controle de Alimentos do Canada, por exemplo, apoiam essa técnica.

Geraldo Berger, Diretor de Ciências Regulatória da Bayer

Os produtos originados da biotecnologia agrícola devem passar por processos de avaliações de segurança e o Brasil tem evoluído positivamente nessa regulamentação, sempre tendo como base avaliação de risco embasada em ciência. A primeira Lei de Biossegurança (Lei. 11.105/05) foi promulgada em 1995 e permitiu o avanço científico da biotecnologia no país para além das Universidades e Institutos de Pesquisa, criando um marco regulatório que abriu a oportunidade para o avanço em instituições públicas e privadas. Para o Diretor de Ciências Regulatórias da Bayer para a América Latina, Geraldo Berger, atualmente, são centenas de produtos ligados a diferentes áreas, entre as quais as plantas geradas pela biotecnologia que são fundamentais para o desenvolvimento sustentável da Agricultura Tropical. Um aspecto relevante é a transparência, abertura e frequência das reuniões e decisões da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que são públicas e também os pareceres técnicos (extratos) que são publicados no Diário Oficial da União para publicidade destas decisões. “A CTNBio continua evoluindo e revendo suas normativas para modernização de seu sistema de avaliação de produtos da biotecnologia. Isto tem permitido a participação cada vez maior de novos atores em diversos seguimentos, desde plantas até vacinas desenvolvidas pela biotecnologia”, explica.

Se o Brasil desponta, hoje, como um grande produtor de alimentos, parte deste protagonismo é graças aos avanços vivenciados na agricultura, os quais estão diretamente ligados a biotecnologia e a transgenia. “O aumento da produtividade animal e vegetal e a capacidade de superar desafios que em muitas situações inviabilizariam a produção foram decisivos para o fortalecimento da agricultura e, consequentemente, tiveram papel decisivo no crescimento e no desenvolvimento econômico da pais. Hoje, a agricultura figura como protagonista e todos os avanços vivenciados chancelam que se a agricultura vai bem, os produtores vão bem, as cooperativas vão bem e o país certamente irá bem também. Para que isso sigo acontecendo, a biotecnologia deve ser entendida como grande aliada”, reforça o Gerente de Pesquisa e Tecnologia da Cooperativa Central Gaúcha Ltda. (CCGL) e Coordenador da Rede Técnica Cooperativa – RTC, Geomar Mateus Corassa.

Entre práticas e possiblidades, a biotecnologia já está visando o futuro e maiores alcances. Um exemplo disso é o RNA Interferente. Para Alexandre, vários grupos de pesquisa de vários países têm estudado a tecnologia do RNA Interferente para tentar usar como um controle de insetos e doenças de ervas daninhas. “Essa tecnologia tem muitos pontos para resolver, mas muita gente trabalhando e os resultados iniciais são muito promissores. Existe um potencial tremendo para ser uma das alternativas para substituir os herbicidas, inseticidas e fungicidas. É uma tecnologia muito nova, mas certamente ela veio para ficar” acrescenta.

Futuro verde

Geomar Mateus Corassa, Coordenador da Rede Técnica Cooperativa – RTC

A biotecnologia agrícola foi considerada como um processo revolucionário no meio produtivo do espaço rural. A agricultura brasileira, especificamente, passou por uma evolução muito grande nos últimos anos, consolidando o país como um grande player mundial na produção de alimentos. Para Geomar, nos próximos anos, o que veremos será um processo de digitalização chegando forte ao campo e impactando diretamente o processo produtivo. “Se as ferramentas digitais forem usadas da forma correta, ganharemos tanto em produtividade, quanto em rentabilidade, pois a otimização no uso de recursos levará a redução no montante de insumos utilizados por quilo de alimento produzido. Este também é um dos grandes benefícios da biotecnologia: proporcionar a produção de alimentos saudáveis e de menor custo. Para quem está ligado ao campo, fica claro que o crescimento da biotecnologia depende em grande parte do entendimento de seus benefícios pela sociedade e pelo consumidor. Mantidas as particularidades, tanto produtores quanto cooperativas – que são apenas uma extensão do produtor – já entenderam que o apoio a estas ferramentas é indispensável para que a demanda futura por alimentos seja suprida”, comenta. 

Se a tecnologia vem adentrando o meio rural, as pessoas que ocupam esse espaço precisam igualmente se atentar as mudanças e, principalmente, espera-las. Segundo Corassa, as cooperativas entendem que os novos aprimoramentos, frutos da biotecnologia e que auxiliarão a agricultura nos próximos anos, devem chegar em duas grandes frentes: processos e produtos. “Os produtos devem estar mais ligados ao produtor rural, como novas cultivares por exemplo, capazes de suportar condições climática adversas, pragas, doenças, dentre outros, enquanto que, os processos devem envolver desde o produtor, a indústria, o transporte até a chegada do alimento na mesa do consumidor. Como um grande produtor mundial de alimentos, é natural que o Brasil figure como um grande usuário de biotecnologia para a agricultura”, conclui.

Entre desafios e novas perspectivas, a certeza unanime é que o investimento em inovação e em pesquisa e desenvolvimento é uma das melhores saídas para fazer frente aos desafios que a agricultura mundial enfrenta hoje. “Pensando no Brasil – um país de agricultura tropical e com uma dimensão territorial continental – cada região produtora tem necessidades específicas. Por este motivo, é ainda mais importante o desenvolvimento de soluções que consigam apoiar os produtores nos desafios trazidos pelo clima, pragas, doenças e plantas daninhas. Posso afirmar que sem a pesquisa desenvolvida pelas iniciativas públicas e privadas, não teríamos a agricultura que temos hoje no Brasil, altamente competitiva e sustentável “, finaliza Geraldo.

Intercooperação e inovação

A Rede Técnica Cooperativa – RTC é a união de esforços de 30 cooperativas agropecuárias do RS para a geração, validação e difusão de tecnologias, boas práticas agrícolas e uso econômico e sustentável de insumos e recursos naturais. De forma conjunta, por meio da RTC, as cooperativas conduzem pesquisas em diferentes áreas do conhecimento. As informações são geradas e validadas por um corpo de pesquisadores alocados junto a unidade de pesquisa e tecnologia da CCGL – Cooperativa Central Gaúcha Ltda e também em campos experimentais das cooperativas, e são utilizadas para subsidiar seus corpos técnicos – técnicos agrícolas, engenheiros agrônomos, med. veterinários, zootecnistas. O objetivo é colocar em prática o princípio da Intercooperação e oferecer aos mais de 170mil agricultores cooperados, vinculados as cooperativas que apoiam a iniciativa da RTC, soluções em pesquisa e assistência técnica, capazes de melhorar o seu desempenho e de gerar rentabilidade e sustentabilidade. Juntas, as cooperativas que participam da RTC, representam mais de 50% da área cultivadas com grãos no Rio Grande do Sul.


Por Fernanda Ricardi – Matéria Publicada na Revista MundoCoop, edição 95



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