Capitalismo mais humano e cooperado

Publicado em: 15 março - 2020

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World Economic Fórum. Foto: Divulação

Muito mais do que uma tendência, o Capitalismo Consciente tem entrado em pauta nos países mais desenvolvidos e prega conceitos já seculares do cooperativismo

Quando, em meados do século XX, a transformação digital começou a fazer parte de todos os setores da sociedade, a denominada 4º Revolução Industrial fez com que o mundo inteiro reforçasse sistemas econômicos, adotasse novas dinâmicas sociais e caminhasse para um sentido em comum: o da tecnologia.

Atualmente, os frutos desse fenômeno não são mais novidade, mas suas consequências prometem alterar, e já vem alterando, a forma como vivemos, nos relacionamos e, principalmente, trabalhamos. A prioridade agora é entendê-las em uma dimensão maior e pensa-las coletivamente.

Acompanhando essas transições desde 1971, o Fórum Econômico Mundial, que acontece em Davos, na Suíça, vem definindo os rumos da economia global. A 50º edição, que aconteceu entre os dias 21 e 24 de janeiro e reuniu 3 mil líderes globais, trouxe como principal tema de debate os desafios e mudanças advindas de uma 4º Revolução Industrial.

Formado por 51 painéis de discussão sobre ecologia, desenvolvimento sustentável e mudanças climáticas, 50 de geopolítica e 27 na área de economia, o evento destacou “urgência” e “reformulação” como as palavras predominantes, expondo a preocupação com valores mais amplos que, entre inovações, concepções futurísticas e avanços, precisam de uma reestruturação. Entre eles, o modelo econômico mundial. Chegou o momento de pensar um novo capitalismo. 

Cofundador da representação da Instituição Capitalismo Consciente no Brasil, Thomas Eckschmidt.

“Ouvimos de Davos uma chamada pública para um novo capitalismo: Stakeholder Capitalism. Isso nada mais é que um processo que está emergindo desde o início deste século. A ideia de Stakeholders foi apresentada de uma forma estruturada pelo Prof. Ed Freeman, que defende a ideia de que as empresas precisam gerar valor para todos os Stakeholders para se manterem relevantes. Até o Tripé da Sustentabilidade, que surgiu no século passado, já abordava essa ideia de uma forma mais simplista (apenas 3 Stakeholders, acionista-econômico, social-comunidade, e meio ambiente)”, comenta o cofundador da representação da Instituição Capitalismo Consciente no Brasil, Thomas Eckschmidt.

Gerado em todos os anos como uma declaração oficial e conclusiva, o “Manifesto de Davos 2020”, assinado pelo criador do Fórum, o alemão Klaus Schwab, procurou reestabelecer o propósito das empresas perante essa nova Revolução Industrial cada vez mais parte da realidade. Klaus, hoje com 81 anos, alertou o mundo para questões como desconcentração da renda, pagamento justo de impostos, corrupção, proteção do meio ambiente, uso ético das informações privadas na era digital, entre outras urgências. “O propósito de uma empresa é se empenhar com todos os Stakeholders para criar um valor sustentável e compartilhável”, diz o manifesto assinado por ele.

Por que adotar um Capitalismo Consciente?

Evoluções acontecem diariamente em âmbito global, mas, mesmo assim, situações de crises parecem se alastrar nos quatro cantos do mundo. Questões ambientais, sociais e econômicas não podem mais ser pensadas separadamente, sendo que o bom funcionamento delas conjuntamente que garante a manutenção da sociedade como um todo. Sem exclusões ou exceções.

Se os painéis de Davos trouxeram discussões necessárias, as suas constatações foram ainda mais reais. A preocupação da vez, advinda de problemas acumulados no decorrer dos anos, foi o futuro do sistema capitalista diretamente atrelado com o futuro da população. “O modo como fazemos negócios, vivemos e nos acostumamos na era industrial terá que ser mudado. Teremos que deixar isso para trás nos próximos 30 anos e teremos que mudar completamente para novas cadeias de valor“, disse a Primeira-Ministra da Alemanha, Angela Merkel, em seu discurso.

O propósito do Capitalismo Consciente é o chamado “Elevate Humanity through Business”, que em tradução literal significa “elevar a humanidade através dos negócios”. Ou seja, esse movimento propõe que o modelo socioeconômico capitalista, já estabelecido por muito anos, esteja consciente da importância daqueles que fazem o integram, a partir de uma mudança: tornar os valores e princípios como eixo central de uma empresa ou organização, resultando em um negócio válido, lucrativo e essencial.

Em 2019, durante a Capitalismo Consciente Latin-American Conference, realizada pelo Instituto Capitalismo Consciente Brasil, foi divulgado um estudo mostrando que “Empresas Humanizadas” chegam a ter rentabilidade duas ou mais vezes superior à média das 500 maiores empresas do país, alcançando também um nível de satisfação maior em relação aos clientes e colaboradores. Além disso, foi revelada uma lista com as 22 empresas mais humanizadas do Brasil (2018/2019), apresentando nomes como Natura, Tetra Pak, Cacau Show e a Instituição Cooperativa Bancoob.

Segundo Thomas Eckschmidt, o cooperativismo surgiu praticamente quando o capitalismo começou a ser alavancado pela revolução industrial. Da mesma forma surgiu o socialismo para contrapor aquela ganância desenfreada do início da revolução industrial. “O que aprendemos disso foi que o capitalismo foi excelente para produzir riqueza e falhou na distribuição da riqueza, o socialismo foi excelente na distribuição da riqueza e falhou na produção da riqueza. Já o cooperativismo que surgiu mais ou menos 200 anos atrás, conseguindo produzir bem e distribuir bem também”, conclui.

Por mais que seja um conceito em ampla discussão, o Capitalismo Consciente é o movimento que já está deixando de ser marginal para se tornar algo permanente. A mudança está acontecendo, inevitavelmente, em empresas e organizações que sempre adotaram um caráter tradicional e querem se manter ativas no mercado e elevando a visibilidade daquelas que sempre apostaram e crescerem através desses diferentes valores. E, dessa forma, um novo rumo para o futuro vem sendo definido, o da transformação coletiva e humana.

5 Fundamentos do capitalismo consciente – Por Thomas Eckschmidt

Uma organização que decide abraçar os fundamentos do Capitalismo Consciente precisa voltar a sua origem, entender de onde tudo começou, conhecer a intenção dos fundadores e a partir disso tornar seus processos, políticas, práticas, produtos, serviços e tudo mais alinhado com essa filosofia de cinco fundamentos:

  • Propósito

Toda organização precisa ter um propósito claro e praticá-lo nas relações com os diversos stakeholders, o propósito precisa estar presente em todas decisões, no desenvolvimento das inovações, e em todos processos internos e relacionamentos externos;

  • Exemplo de liderança

Toda organização precisa ter um líder que trabalha para servir, para expandir o propósito e não expandir o saldo de sua conta corrente, o olhar sistêmico do líder garante que o propósito está sendo aplicado de forma alavancar uma geração de valor para todos envolvidos;

  • Cultura organizacional

Toda organização necessita de uma cultura responsável para que os valores e os rituais perpetue a intenção do líder que criou a organização e o seu propósito, fazendo com que todos stakeholders se comportem em prol desta causa maior;

  • Objetivo comum

Toda organização precisa reconhecer a interdependência no sistema, pois sem clientes, fornecedores, funcionários, comunidades, meio ambiente, acionistas e outros, nenhuma empresa existiria. O fato de reconhecermos essa interdependência e criarmos canais de comunicação entre os diversos stakeholders, nos permite inovar de maneira mais eficiente, crescer de forma mais estruturada e gerar valor em múltiplas dimensões e múltiplas conexões: chamamos isso de ganha6 (ganha-ganha-ganha-ganha-ganha-ganha). Onde as transações deixas de ter utilitárias e passam a ser sistêmicas, potencializando as conexões e interdependência do ecossistema;

  • Gerar diferentes formas de valor

Toda organização precisa gerar diferentes formas de valor. O valor financeiro é o combustível que move todo o ecossistema de negócios, mas os valores sociais, emocionais, culturais, ambientais, espirituais, tecnológicos e assim por diante, precisam ser gerados constantemente. Esses valores não financeiros, são como energia potencial que se acumula para ajudar a passar por momentos difíceis e se converterem em valor financeiro sempre que possível (mais vendas, mais lucro, melhor eficiência, maior efetividade, mais inovação e assim por diante).


Por Fernanda Ricardi – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 92



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