Com milho se faz milhões

Publicado em: 22 março - 2020

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Em meio as oscilações, o mercado de milho tem se tornado cada vez mais um setor lucrativo, amplo e inovador

Famoso por seu clima, terras e biodiversidade, o Brasil é uma referência em recursos naturais e um dos setores que mais confirma esse cenário é a ascensão do agronegócio. Esse tipo de produção representa, sozinho, 21,1% do PIB brasileiro, é responsável por metade das exportações do país e fatura bilhões de reais ao ano, movimentando a economia e mudando realidades regionais. Entres as riquezas do meio rural brasileiro, uma tem ocupado cada vez mais um lugar de destaque: o milho.

Cultivado nas Américas há mais de 7 mil anos, o milho faz jus ao seu nome de origem indígena caribenha que significa “sustento da vida” e hoje está presente em diversos lugares do mundo como um dos principais alimentos tanto para pessoas quanto para animais. No Brasil, uma variedade do grão já fazia parte do cotidiano de povos indígenas antes mesmo da chegada de colonizadores europeus que, por sua vez, também usufruíram do alimento e aumentaram sua popularidade.

Atualmente, o milho é a segunda maior cultura de importância no setor agrícola no Brasil e sua produção em território nacional é a terceira maior do mundo. Portanto, mesmo com algumas variações, 2020 mantém uma perspectiva positiva para esse mercado tão valioso. “O milho terá nos próximos anos muito espaço para crescimento e o mercado vai demandar cada dia mais o produto. Por isso, não acredito em oscilação de mercado que provoque alteração nas margens atuais, pois a produção de 100 milhões de toneladas passará para 180 milhões de toneladas em 2030”, analisa o presidente da Coopavel, Dilvo Grolli.

Debatida desde 2016, a Rota do Milho é um dos fatores de aposta para um cenário propício de crescimento dentro desse mercado. O projeto é uma articulação transfronteiriça entre Brasil, Argentina e Paraguai que consiste em buscar no Paraguai o milho para abastecer a cadeia produtiva da avicultura e da suinocultura industrial catarinense, substituindo um percurso de 2.000 quilômetros, por um de apenas 350 quilômetros. A importância dessa Rota se deve pelo fato de, atualmente, Santa Catarina produzir 3,5 milhões de toneladas de milho/ano e utilizar aproximadamente 7 milhões, sendo o maior importador do grão do País. Sendo assim, a Rota do Milho é, não só uma alternativa de integração econômica, mas um impulso para o desenvolvimento regional e do turismo, ambos objetivos do Mercosul.

Mesmo com vantagens, o setor de milho pode ser afetado por fatores naturais e econômicos no decorrer de 2020, porém, a tendência é que o ano se inicie com preços firmes pelo menos no primeiro semestre. Para o representante do departamento comercial da CooperAlfa, Denilson Zilli, o milho, sobretudo o de “segunda safra”, além de ser uma atividade de rotação de cultura (o que ameniza pragas e doenças), tem se mostrado altamente lucrativo. “Para as cooperativas agropecuárias, quanto maior o plantio, maior será o movimento econômico e, para as sociedades-empresas do setor de carnes, sua oferta é extremamente relevante, por conta da alimentação dos planteis”, acrescenta.

“Área disponível, clima favorável e produtor usando tecnologia de ponta é decorrente, em grande escala, do amparo evolutivo das cooperativas”

Denilson Zilli – Departamento Comercial da CooperAlfa

Mercado Internacional

Segundo dados da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab), nas duas últimas décadas, a área de milho cresceu 37%, a produtividade, 127%, e a produção, 213%. “O Brasil possui dimensões continentais e terras agricultáveis ainda disponíveis para aumento de produção. Isso por si só garante uma posição de destaque do Brasil no agronegócio mundial”, comenta o Pesquisador de Transferência e Negócios da Embrapa Milho e Sorgo, Dr. Rubens Augusto de Miranda. Entretanto, além de um gigantesco produtor, o Brasil é uma potencia global por causa do seu volume de exportação. Em 2019, o país bateu um novo recorde e superou as 41,3 milhões de toneladas exportadas pelos Estados Unidos, até então líder nesse setor.

Devido aos problemas climáticos mundiais como, por exemplo, o excesso de chuvas, houve uma diminuição na oferta mundial do milho, o que tem favorecido o mercado de exportações no país e, atualmente, 40% da safra brasileira é exportada. “O Brasil, no ano de 2019, exportou 43 milhões de toneladas de milho – maior exportador mundial – e ganhou espaço no mercado pela qualidade do produto e competividade. O milho é o grão que tem maior probabilidade de expansão na produção e também é um produto muito especial para a alimentação humana, mas o Brasil não o explora devidamente. O principal consumo de milho internamente é para a produção de carne. Hoje são necessárias de 65 milhões a 68 milhões de toneladas. As cooperativas consomem entre 12 milhões e 15 milhões de toneladas”, acrescenta o presidente da Coopavel.

Para o pesquisador da Embrapa, caso o milho consiga replicar os resultados obtidos em 2019 seria uma vitória para a cultura, pois os números foram históricos. “Felizmente, as previsões iniciais de várias instituições, como a Conab, apontam para números em patamares similares. Há uma expectativa de uma redução das exportações, mas com o aumento no consumo doméstico balanceando a demanda. Concomitante aos números de produção sem precedentes, os preços do cereal no Brasil nunca foram tão altos no período de colheita as Safra-Verão”, comenta.

Novas possiblidades

Em meio a grandes mercados, as tendências são imprescindíveis fatores que impulsionam e direcionam crescimentos e transformam o presente sempre com uma visão ampla de futuro. Esse é o caso da sustentabilidade.

A sustentabilidade já é tendência no setor e pequenas mudanças de hábito já podem ser consideradas. Quando aplicada no contexto do agronegócio, a sustentabilidade se torna um aliado não só de rendimento, mas, também, de ampliação de possiblidades comerciais e garantia de uma maior longevidade na produção.

Um exemplo disso é a crescente demanda pelo biocombustível. O etanol surgiu como alternativa à utilização dos combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão mineral), fruto da demanda por opções menos poluentes ao meio ambiente. E, com uma produção advinda majoritariamente da cana-de-açúcar que destaca o Brasil globalmente como detentor de tecnologias avançadas na fabricação de etanol, agora o país tem apostado ainda mais nesse segmento a partir do milho.

Segundo a União Nacional do Etanol de Milho (UNEM), em recente pesquisa, a produção deste tipo de bicombustível no estado de Mato Grosso, por exemplo, cresceu 66% no último ano e hoje já corresponde à 1,4 bilhão de litros no país. Os dados também apontam que essa produção deva chegar aos 2 bilhões de litros ainda em 2020 e crescer dos atuais 5% de representatividade no total de bicombustíveis brasileiros para 20% em até 10 anos.

Para o presidente da Coopavel, o Brasil, atualmente, consome de 3 milhões a 4 milhões de toneladas para produção de biocombustível em mais de dez usinas instaladas no País. “Até 2030, teremos aproximadamente 40 usinas para a produção de biocombustíveis e precisaremos de 30 milhões a 40 milhões de toneladas. É a maior oportunidade de crescimento de todos os grãos no Brasil, como é hoje nos Estados Unidos que utilizam 140 milhões de toneladas de milho para biocombustíveis. O caminho para o milho brasileiro já está traçado: para produção de carne e biocombustíveis. Essa tendência é irreversível e a produtividade média brasileira hoje entre 5,5 mil a 6 mil toneladas por hectare passará para 10 mil a 12 mil toneladas por hectare no mesmo período, de 2020 para 2030”.

Sendo, em muitos períodos, o grão mais valorizado pelo mercado internacional, o milho traz consigo muitos prós e contras quando inserido na produção de etanol. Por mais que apresente um maior custo e menor produtividade/ha em relação ao do etanol da cana, o biocombustível a partir do milho possui um subproduto fruto de seu processamento mais vantajoso, que pode substituir parcialmente o grão do milho na alimentação de animais, seu grão pode ser armazenado e utilizado à medida das necessidades da indústria, o que não acontece com a cana, que precisa ser processada logo após a colheita, e ainda contribui para a geração de muito mais empregos em comparação com a indústria petrolífera.

Para Dr. Rubens, pesquisador da Embrapa, os investimentos realizados para a construção de novas usinas full cristalizam o sucesso do etanol de milho no Brasil. “O consumo do cereal para a produção de etanol cresce a taxas consideráveis e algumas estimativas apontam que o uso do milho pode chegar a 17 milhões de toneladas em 2028. Contudo, a despeito dos sinais de um futuro promissor para o etanol de milho no Brasil, é preciso estar atento que nos Estados Unidos, onde se consome anualmente 140 milhões de toneladas do cereal para a produção de combustível, as apostas estão mudando. A previsão é que nos próximos anos a produção de etanol de milho nos EUA seja superada pela produção de biocombustível celulósico, mais eficiente na redução de Gases de Efeito Estufa (GEE)“, finaliza.

As expectativas de produção de mais etanol de milho no Brasil são positivas e favoráveis. O território brasileiro já possui, só no Mato Grosso, 10 unidades em operação industrial e três novas usinas exclusivas para etanol de milho estão projetadas para os próximos anos. Além disso, segundo previsões da Embrapa, para os próximos 10 anos a produção de etanol de milho passará das atuais 1,4 Mt para 8.0 Mt, contribuindo para que esse mercado se torne, cada vez mais, uma nova realidade favorável para o país.


Por Fernanda Ricardi – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 92



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