Cooperação: o futuro das relações trabalhistas

Publicado em: 26 novembro - 2019

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Mais do que colaborador, as empresas agora incentivam a cooperação para melhorar o ambiente de trabalho, reter talentos e melhorar a produtividade

Chamar as pessoas de “força de trabalho”, “recursos humanos” ou “capital” é um clichê que, dito repetidamente, tornou-se uma prática comum. Alguns até vão mais longe, nomeando funcionários de “recursos”, retirando a parte “humana”, literal e figurativamente. Mas qualquer desses termos, ainda bem, está ultrapassado.

As pessoas simplesmente não são recursos que podem ser usados ou descartados pelas empresas. Tratá-los como tal é deselegante e incorreto. Os trabalhadores são seres humanos e é inútil tentar separar o desempenho no trabalho dos sentimentos. O CEO, o desenvolvedor de software e o porteiro – todos eles têm emoções, sentimentos e motivações.

O conceito de empregado corresponde ao período da terceira revolução industrial que ocorreu em meados do século 20. O emprego de tecnologias avançadas transformou os trabalhadores em “coisas”. O objetivo era produzir mais em menos tempo. O sistema precisava de pessoas para executar as máquinas, mas também para agir como elas, repetindo mecanicamente as mesmas ações repetidas vezes. Essa mentalidade mostra seus resultados ainda hoje. As novas tecnologias desenvolvidas nessa fase, responsáveis por uma maior exploração do trabalho, também mudou as relações entre empregador e empregado. 

Ao longo dos anos, os desejos e demandas das pessoas evoluíram, principalmente com a chegadas das gerações X e Y ao mercado de trabalho. Essas pessoas estão sempre em busca da satisfação pessoal que é tão importante quanto o próprio emprego em si. E isso pode ser um desafio para as empresas acompanharem. 

Quando se trata de atrair e reter os melhores talentos, os empregadores precisam entender o que os funcionários realmente querem de uma empresa. Embora todos saibamos que remuneração competitiva e bons benefícios influenciam na retenção de profissionais, existem muitos outros desejos negligenciados que são mais importantes do que um salário.

Para realmente desfrutar de seus empregos, os funcionários precisam sentir que seus empregadores os respeitam e lhes fornecerão o que precisam para ter sucesso na vida profissional e pessoal. 

Diferença entre empregado e colaborador

Muitas empresas têm deixado o nome “empregado” ou “funcionário” de lado para aderir ao termo colaborador por considerá-la mais construtiva. A palavra colaborador segundo o dicionário é aquele que colabora, aquele que ajuda, coopera, que se dá por uma causa.

Essa denominação começou a ser utilizada na década de 1990. Ao contrário do empregado, que é aquele que executa uma função, termo colaborador possui uma dimensão mais participativa. Ser colaborador de uma empresa é, portanto, colaborar uns com os outros rumo a um objetivo em comum, integrando-se a equipe e ao trabalho.

Neste sentido, a empresa que quiser ter colaboradores precisa reconhecer sua condição humana, para não ser apenas uma peça na engrenagem que meramente presta serviços mediante um valor monetário.

O Estudo Global de Tendências de Talentos 2018 da Mercer, consultoria em carreira, saúde e patrimônio, revelou alguns desejos dos funcionários que muitas organizações não estão atentas.

O estudo adotou uma abordagem de múltiplas perspectivas e coletou informações de 800 executivos e 1.800 líderes de RH, além de mais de 5.000 funcionários em 21 setores e 44 países em todo o mundo. Mercer reuniu esse grupo para analisar como empregadores e funcionários estão repensando o futuro do trabalho. O estudo identificou as principais tendências de talento, que podem ser úteis para empresas que estão tentando ficar à frente do jogo no que diz respeito à satisfação dos funcionários.

Entre as descobertas, a Mercer identificou três fatores que os funcionários e candidatos a emprego estão procurando em uma empresa. Isso incluía flexibilidade no local de trabalho, compromisso com a saúde e bem-estar e trabalho com um objetivo.

Está claro que os horários rigorosos de trabalho estão desatualizados e não ajudará os empregadores a atrair ou manter os principais talentos do mercado. O estudo constatou que 51% dos funcionários desejam que sua empresa ofereça opções de trabalho mais flexíveis. 

Ficou claro que, independentemente do setor, a flexibilidade é importante para funcionários. As empresas que oferecem flexibilidade na forma de home-office ajudam os funcionários a manter um equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Também foi demonstrado que a flexibilidade reduz o estresse no local de trabalho aumenta o bem-estar mental e incentiva a produtividade.

Já as iniciativas de bem-estar no local de trabalho fazem mais do que apenas promover hábitos saudáveis. Elas mostram aos funcionários que seus empregadores realmente se preocupam com a saúde e o bem-estar. Todos os funcionários desejam ser tratados como seres humanos com necessidades humanas – não robôs. A pesquisa constatou que um em cada dois funcionários gostaria de ter um foco maior no bem-estar de sua empresa. Isso inclui uma ênfase no bem-estar físico, psicológico e financeiro.

Enfim, o homem é um animal social por natureza. Ele não pode sobreviver sem trabalhar com os outros em direção a um objetivo comum. Nesse caminho avança o Projeto Cooperação, organização que atua desde 1992 em diferentes contextos, oferecendo soluções colaborativas direcionadas ao processo de desenvolvimento individual e coletivo, utilizando instrumentos cooperativos e colaborativos da abordagem da Pedagogia da Cooperação.

“Muitos dos desafios enfrentados pelas organizações atualmente têm a ver com o desenvolvimento de cooperação entre seus colaboradores, grandes pressões por resultados e padrões competitivos acabam gerando consequências como isolamento, competição desnecessária e conflitos escalonados, e talvez seja este o ponto, jovens não querem mais este tipo de relacionamento, eles olham o mundo como uma visão mais ampla e  principalmente com mais interligações e conexões, e portanto somos todos  corresponsáveis pelos atos, atitudes e mudanças”, explica Cambises Bistricky Alves, diretor e sócio do Projeto Cooperação.

O Projeto Cooperação desenvolveu uma Pós Graduação in-company em Pedagogia da Cooperação e Metodologias Colaborativas na Cooper Blumenau, SC. Ao final das pesquisa os colaboradores apresentaram oito trabalhos de conclusão do curso aplicados na própria cooperativa com diferentes temas.

Segundo Alves dentre os resultados mais impactantes desse trabalho se destacam: os participantes deixaram de lado os cargos de gerência e supervisor para se integrar ao grupo como iguais, passaram a conhecer mais os colegas com quem convivem diariamente, o que melhorou a convivência entre eles, passando a ter uma comunicação mais eficaz e a cooperação se fortaleceu nas equipes, evidenciando que os objetivos comuns poderiam ser alcançados a partir da maior interação entre as equipes de trabalho. Os participantes também revelaram que os sonhos individuais deram lugar aos sonhos coletivos.

Acompanhar as necessidades dos colaboradores pode ser um desafio, no entanto, identificá-los beneficiará muito o seu negócio e os resultados financeiros. Ao fornecer soluções simples, como flexibilidade, foco no bem-estar e trabalhar com um objetivo, os empregadores podem melhorar significativamente a satisfação de quem ajuda a empresa crescer, aumentando o engajamento e a lealdade, reduzindo a rotatividade e simplesmente tornando-se um lugar melhor para trabalhar.


Por Marcela Langer Noschang – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 90



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