Cooperativismo de crédito: inspirar esperança para a comunidade global

Publicado em: 10 novembro - 2020

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CoopTalks Crédito comemora as conquistas dessas instituições feitas de pessoas para pessoas

Promover esperança no seu mundo, em todo o mundo. Essa é a inspiração às comemorações do Dia Internacional das Cooperativas de Crédito (DICC) deste ano. Em meio à pandemia e seus múltiplos impactos, ser capaz de gerar esperança é algo desafiador, mas presente no dia a dia dessas instituições. Dar esperança é incentivar as aspirações de cada cooperado que adentra alguma das 859 cooperativas singulares pelo país, ou de seus 6.280 pontos de atendimento, oferecendo além de serviços financeiros, educação cooperativista e financeira e relacionamento próximo. Afinal, cooperado não é cliente, é parte essencial da cooperativa.

No mundo, o cooperativismo de crédito já chega a 86 mil instituições espalhadas por 118 países, nos seis continentes, reunindo 291 milhões de pessoas; uma penetração de 9,55%, segundo dados do Conselho Mundial das Cooperativas de Crédito (Woccu, sigla em inglês). Aqui, somos 12 milhões de associados – 6% da população brasileira –; o que representa aproximadamente toda a população do estado do Paraná. Dez milhões são de pessoas físicas (86%), e 1,7 milhão pessoas jurídicas (14%), de acordo com dados do Banco Central.

Metade dos associados está concentrada na região Sul; e não por acaso. A primeira cooperativa de crédito do Brasil nasceu na cidade de Nova Petrópolis (RS), pela ação de Pe.Theodor Amstad e mais 19 agricultores familiares. Aliás, essa forte ligação com a agricultura segue até hoje, mantendo-as fundamentais à concessão de crédito principalmente aos pequenos produtores rurais. Em um movimento contínuo de expansão, as cooperativas de crédito já alcançam todas as regiões do país; e concentram esforços para seu fortalecimento no Norte e Nordeste, ainda pouco assistidos. São projetos que estão em consonância com a meta estabelecida pelo Banco Central, na Agenda BC#, de ampliar para 35% o percentual de municípios atendidos por cooperativas nessas regiões.

Seguindo essa missão de ampliação, só no primeiro semestre deste ano foram abertas 220 unidades de atendimento pelo Brasil. Em cerca de 600 municípios, a cooperativa de crédito é a única instituição financeira. Contribui ainda para a consolidação do cooperativismo de crédito a proteção do Fundo Garantidor do Cooperativismo de Crédito (FGCoop), que assegura os depósitos e créditos dos associados com mesmo valor limite dos depositantes dos bancos, aumentando a confiança e credibilidade das instituições.​

O crédito cooperativo gera riqueza. Nos municípios que contam com alguma instituição financeira cooperativa, há um incremento de 5,6% no PIB per capita médio, dado comprovado pela pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), solicitada pelo Sicredi e divulgada no início deste ano. O estudo concluiu ainda que ao disponibilizar recursos, elas estimulam atividades econômicas, colaborando na criação ou manutenção de empregos formais (aumento de 6,2%) e o empreendedorismo (15,7% mais empresas). Cada R$ 1 em crédito movimenta R$ 2,45 em renda na economia. A estimativa é de que a cada R$ 35,8 mil concedidos em crédito pelas cooperativas, um novo posto de trabalho é criado. E, tão importante quanto ter acesso a crédito e serviços financeiros é saber lidar com o dinheiro. Por isso, elas realizam um trabalho seriíssimo em educação financeira, voltada não só aos sócios, mas também à comunidade, especialmente crianças e jovens, estimulando a poupança e reforçando a importância do planejamento financeiro.

De pessoas para pessoas

Seguindo a doutrina cooperativista, o rendimento financeiro dessas instituições é apenas o meio para se atender o fim de fazer mais próspero o cooperado, e consequentemente sua comunidade. O tema anunciado pelo Woccu para o DICC 2020 – que é comemorado desde 1948, sempre na terceira quinta-feira do mês de outubro –, “Inspirar Esperança à Comunidade Global”, reforça esse compromisso com as pessoas; principalmente em momentos conturbados, como nesta pandemia.

Em meio às incertezas financeiras, os associados encontraram em suas cooperativas a solução de que precisavam para manter seus investimentos e empresas. Os cooperados pessoa jurídica são predominantemente micro e pequenas empresas – aproximadamente 93%, segundo estudo publicado no Relatório de Economia Bancária (2019) do Banco Central –, justamente os empreendedores que mais precisaram de crédito na fase mais restritiva das ações de combate à pandemia. Pesquisa realizada pelo Sebrae, entre os meses de abril e maio, demonstrou que as cooperativas concederam o triplo de crédito para pequenos negócios em relação aos bancos. A pandemia também tem acelerado os processos de digitalização, o que potencializa a inovação das cooperativas, na busca por oferecer a melhor experiência aos associados e segurança dos serviços.

Neste período, a comunidade também encontrou apoio no cooperativismo de crédito. Os números do Dia de Cooperar (Dia C) comprovam isso. Das ações sociais – que acontecem durante todo o ano – até agora aproximadamente 75% foram realizadas por cooperativas de crédito. Sendo que 77% das iniciativas das cooperativas de crédito são voltadas a minimizar os efeitos da pandemia. Mais de um milhão de pessoas já foram beneficiadas por elas.

Coptalks Crédito

Diante de toda essa expressividade, a MundoCoop promoveu, em comemoração ao Dia Internacional do Cooperativismo de Crédito, o “Cooptalks Crédito”, um evento em formato digital que contou com a participação de cooperativistas e profissionais da área. Abrindo o evento, Márcio Lopes de Freitas, presidente do Sistema OCB, reforçou que é essencial mostrar à sociedade o quanto as soluções financeiras cooperativas são viáveis, socialmente justas e inspiram confiança. “Nosso segredo é lidar com gente. Por sua formação, princípios e valores as cooperativas de crédito organizam não só processos e fluxos financeiros, mas também unem pessoas e geram confiança”. Freitas destacou que isso necessariamente envolve integridade, inovação e sustentabilidade. “Nesses três pilares firmamos nosso cooperativismo”.

O gerente de Comunicação da Woccu, Greg Neumann, também contribuiu lembrando a importância da participação feminina nas cooperativas e o envolvimento dos jovens na criação de soluções e propagação da doutrina cooperativista. E destacou ainda as ações da instituição em torno do crescimento sustentável das cooperativas e da promoção de inclusão financeira. “Um dos objetivos nos próximos cinco anos é a digitalização das cooperativas de crédito em todo o mundo, o Desafio 2025”, diz Neumann.

Durante oito horas de programação, 18 palestrantes contribuíram com tendências, dados e experiências que norteiam o cooperativismo de crédito. As discussões foram divididas em quatro temas: “Gestão e Governança”, que abordou os desafios de hoje e do futuro do cooperativismo de crédito nos novos rumos econômicos pós-pandemia; “Perspectiva Sistêmica e Global”, acrescentando a visão de especialistas sobre o cooperativismo internacionalmente; a “Inovação”, essencial às cooperativas de crédito frente a digitalização; e o “Top Coopers”, que reuniu os presidentes das cooperativas Sicredi, Sicoob, Cresol, Ailos e Unicred Brasil, compartilhando suas experiências, pautas relevantes ao setor e perspectivas de futuro.

Confira o que aconteceu em todos os painéis:

Gestão e Governança: O cooperativismo de crédito nos novos rumos da economia

Em clima de otimismo, os profissionais do primeiro painel Cooptalks Crédito apresentam sua visão quanto à relevância, atuação, desenvolvimento e futuro do cooperativismo de crédito; sem deixar de ressaltar a promoção da esperança, por meio, por exemplo, da atuação das cooperativas frente à pandemia, que forneceram não só apoio financeiro ao cooperado, mas também promoveram ações sociais de auxílio às comunidades.

O economista Luis Artur Nogueira, avaliando o cenário atual, aponta que, apesar das ações governamentais para mitigar os efeitos da pandemia na economia, como injeção de dinheiro para consumo e crédito a empresas, prevê retração no Brasil entre 5% e 6% e, no mundo, entre 4% a 5% neste ano. Para 2021, Nogueira acredita em recuperação no Brasil em torno de 3% a 3,5%; no mundo, 4% a 5%. Isso se tivermos vacina até o primeiro semestre, para que não haja restrições novamente; além do controle das contas públicas. O crédito deve continuar sendo vital, e “aí temos o papel fundamental do cooperativismo de fazê-lo fluir na economia”.

O presidente da Confederação Brasileira das Cooperativas de Crédito (Confebras), Kedson Macedo, comemora as cerca de 500 mil adesões ao cooperativismo de crédito no primeiro semestre, mesmo em meio à pandemia. Ele ressaltou que 96% das organizações que procuraram uma cooperativa no período receberam crédito. Além de linhas próprias, trabalharam programas do governo, como o Programa Emergencial de Suporte a Empregos (Pese), com atendimento a cinco mil empresas e manutenção de mais de 80 mil empregos; e realizaram 20,4% das operações contratadas pelo Programa Nacional de Apoio a Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe).

João Carlos Spenthof, presidente do Conselho de Administração do Fundo Garantidor do Cooperativismo de Crédito (FGCoop), destaca que a instituição possui atualmente patrimônio de R$ 1,5 bilhão e capacidade de garantir “65% dos depósitos das cooperativas e 99% dos depositantes”. Entre os pontos a desenvolver, Spenthof sugere às cooperativas avançarem por exemplo, em crédito imobiliário, para que o cooperado não precise buscar apoio em outras instituições. “Poderemos ainda ser maiores parceiros dos programas governamentais”, projeta.

Davi Costa, pesquisador do Observatório de Cooperativas e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP/USP), aponta consolidação do cooperativismo de crédito. Os sistemas vêm concentrando suas matrizes e expandindo pontos de atendimento ao cooperado. “É um processo para aumentar a competitividade”, explica. Segundo ele, cresce não só em participação no Sistema Financeiro Nacional, mas também o número de cooperados, mas cada sistema tem estratégias diferentes para isso. O Sicredi, por exemplo, foi o que mais expandiu em cooperados pessoa física (5,9% a.a.) entre 2016 e 2019; já em relação a pessoa jurídica, o maior aumento foi do Sicoob, (13,9% a.a..) no mesmo período. Frente a essa evolução, sugere que as cooperativas reflitam sobre ajustes necessários na estrutura de governança e formas de financiar o crescimento; avaliem quem são seus competidores e a estratégia a ser adotada. “O crescimento traz a responsabilidade da inovação diária”, ressalta.

Perspectiva Sistêmica e Global: a visão do cooperativismo internacional

O segundo painel, que também foi o responsável por fechar a primeira parte do evento, trouxe com grande maestria uma perspectiva sistêmica e global do sistema financeiro cooperativo. E, levando em consideração que, no mundo, são mais de 75 mil cooperativas em 109 países com mais de 260 milhões de associados e um bilhão de pessoas envolvidas com o cooperativismo de crédito, os convidados nacionais e internacionais da vez trouxeram visões diferenciadas e extremamente necessárias. Afinal, qual é a influência global das cooperativas de crédito?

Para iniciar esse debate, o Coordenador Técnico do Conselho Consultivo Nacional do Ramo Crédito (CECO), Ênio Meinen, destacou que a expansão do cooperativismo financeiro tem sido maior do que é mostrado pela indústria, onde as operações de crédito, por exemplo, cresceram em uma proporção de cerca de 5 vezes mais que o sistema financeiro nacional de 2015 a 2019, neste último ano apresentando um resultado de mais de 7 bilhões de reais. Logo após, elencou com exatidão os desafios daqui para frente. Para Ênio, pontos como a diversificação da plataforma de investimentos, redução dos paralelismos de estruturas e investimento dentro do próprio sistema, ampliação do número de cooperados e qualificação da governança são fundamentais para o sucesso continuo e crescente. Além disso, fez questão de dar enfoque a intercooperação, trazendo um dado inédito. “Há praticamente um mês, nós conseguimos implicar em tratativas entre as lideranças dos diversos sistemas a primeira ação de comunicação inter-sistêmica da história. Isso pode ser um indicativo do que nós podemos e devemos explorar outras oportunidades”, relatou.

Diretamente da Alemanha, o economista e Diretor da Cosinergia, Carlos Alberto, trouxe em sua fala tendências que já vem delineando o futuro do sistema financeiro mundial. Para ele, uma das grandes tendências do lado da oferta, é o fato das grandes empresas estarem se transformando em empresas de tecnologia, que, consequentemente, fazem com que as fronteiras dos diferentes setores diminuam. Além disso, as concorrências não surgirão mais de concorrentes tradicionais, mas de empresas novatas no próprio segmento. Do lado da demanda, novas gerações, novas ferramentas de tecnologia de comunicação e informação, sustentabilidade e novos hábitos de consumo tem criado um novo cenário para o futuro do sistema financeiro. Para Carlos, a forte redução da interação humana e a convergência de agentes financeiros vão ser decisivos a partir de agora. “Nós teremos algo muito difuso onde os serviços financeiros estão sendo algo acoplado a outras atividades em plataformas maiores e gerenciados por empresas de diferentes setores. As cooperativas continuarão diferentes quando todos os agentes financeiros forma iguais?“, finalizou questionando a todos. 

Falando dos Estados Unidos, o Diretor Executivo Da PromoCoop, Rodrigo Gouveia, elencou que o apoio às famílias, cooperados e empresas, sobretudo as pequenas e médias, as iniciativas e ações sociais e o ajustamento de ofertas tem feito as cooperativas se saírem bem perante a atual situação. Para Rodrigo, do ponto de vista internacional, uma segunda onda do Covid-19 pode afetar economicamente muitos países ao redor do mundo e assim, as instituições financeiras. Portanto, o maior risco que as cooperativas possuem agora é a dissolvência de seus clientes, levando em consideração a incerta duração dessa crise. Mas finaliza sendo otimista em relação a normalização da economia, onde as instituições que conseguiram se adaptar vão ter boas condições de emergir mais fortes e mais saudáveis. E um ponto decisivo para isso é, principalmente, o fortalecimento do movimento cooperativista. “Só através da consolidação as cooperativas podem ganhar a escala necessária para serem atores determinantes a nível global”, conclui.

Segunda abertura do evento

Realizando a abertura da segunda parte do evento, o Diretor de Fiscalização do Banco Central, Paulo Sérgio de Souza, reforçou que para o BC, o movimento cooperativo é uma prioridade e que acreditam que será possível conquistar com facilidade uma maior representatividade no sistema financeiro. “O cooperativismo é um elo fundamental para aquilo que a gente espera que venha a ser o sistema financeiro do futuro (…) nós confiamos muito no sucesso de vocês, que já mostraram resiliência, produtos de qualidade e princípios fundamentais para o crescimento do país”. Em seu discurso, Souza ainda mencionou a participação do movimento na Agenda BC# e o que esperar do futuro da economia no Brasil.

Inovação: O futuro das instituições financeiras cooperativas do Brasil

Abrindo os painéis da tarde, o tema de inovação tomou conta do evento CoopTalks Crédito. Fazendo parte de alguns dos assuntos mais comentados nos últimos tempos, principalmente por conta da implementação do PIX no sistema financeiro, os processos de inovação, tendências e a transformação digital, foram pontos guiados pelos palestrantes do painel com a promessa de que se reinventar não é mais uma opção e sim uma necessidade.

Renato Mendes, palestrante de inovação, destacou que o setor financeiro é a vertente da economia brasileira que está liderando em processos de inovação e na disrupção digital no país. Com a expressão “mude ou morra”, falou sobre como a quebra de regulamentações e tecnologias promoveu a entrada de novos players e as possibilidades de criar novas soluções, gerando uma maior competitividade de mercado. “Onde tem dor tem oportunidade de negócio”. Segundo ele, o PIX pode ser o grande trunfo das cooperativas, que dentro da porcentagem de instituições aptas a usar o sistema, ocupam um total de 90%. “As cooperativas tem uma coisa única que é capilaridade, o profundo conhecimento dos nichos em que atuam e uma conexão muito grande com esse tipo de perfil. E isso ninguém tem nesse jogo! (…) e o nome do jogo é PIX”, concluiu.

Para o especialista internacional em Capitalismo Consciente, Thomas Eckshmidt, toda empresa nasce de um propósito, de uma motivação e a integração do ecossistema é um grande fomentador de inovação. “A questão é que para criar uma cultura responsável, precisamos perguntar: Como você deixa de ser um produto/serviço e passa a ser um movimento, uma ideia?”. Segundo ele, essa cultura de trabalhar junto e de enxergar o lado humano para criar soluções, fazem parte essencialmente das cooperativas de crédito que tem um propósito claro e, por isso, criam relações muito fortes. E no fim, a inovação deixa de ser exclusiva de uma fonte para fazer parte de uma interação do ecossistema. “O que faz uma empresa é como as pessoas se comportam coletivamente a favor daquilo que sua organização se propõem a fazer, e essa é a grande vantagem competitiva do cooperativismo”, ressaltou.

Finalizando o painel, o especialista em transformação digital, Andrea Iorio, denominou o cooperativismo como um movimento antifágil e que, por conta dessa característica, se reforça ainda mais nas crises. Porém, afirmou que quando falamos em inovação, muitas organizações se prendem ao sucesso do passado como uma única solução, e uma cultura de inovação é o que justamente desafia nossos sucessos anteriores e nos fazem perguntar quais são as novas tendências e as demandas dos clientes para inovar novamente. “A gente precisa desapegar do passado e aprender com ele para se renovar hoje e no futuro”. Segundo ele, é necessário se atentar a diferença entre inovar e criar uma cultura de inovação, “temos que nos concentrar em 4 grandes pilares de tendência, importantes para acelerar a inovação nas cooperativas de crédito. São eles: a desintermediação, o surgimento de modelos de plataforma no cooperativismo de crédito, a inclusão de novas metodologias e a inovação aberta (…) E lembrar que muitas vezes no processo de inovação, fazer a coisa certa é errado e fazer o errado é a coisa certa”, finalizou.

Top Coopers: Líderes do cooperativismo de crédito

Os presidentes dos sistemas Sicredi, Sicoob, Cresol, Ailos e Unicred também estiveram presentes do Cooptalks Crédito, comemorando o DICC e compartilhando sua visão sobre o futuro do cooperativismo de crédito. Manfred Dasenbrock, presidente da SicrediPar e da Central Sicredi PR/SP/RJ, lembrando o tema da celebração deste ano, afirma que pessoas ajudando pessoas é o que traz esperança à comunidade global. Ele destaca para o futuro a manutenção de ações visando promoção da cooperação, desenvolvimento econômico das comunidades e educação; e ressalta a importância da participação dos cooperados, por meio da gestão transparente e democrática. “O cooperativismo brasileiro é o caminho para uma sociedade mais próspera”, garante.

Marco Aurélio Almada, diretor-presidente do Sicoob Confederação e Bancoob, destaca que as cooperativas de crédito fazem parte de um movimento com 170 anos, cujo segredo do sucesso está em equilibrar econômico e social. Almada acredita que o futuro exige que as cooperativas trabalharem múltiplas agendas, com profissionalismo e sensibilidade humana. Uma delas com associados, de forma a aumentar a participação na administração da cooperativa, inclusive de forma digital. Agenda comercial, que garanta soluções ao cooperado em qualquer aspecto de sua vida financeira. A agenda de intercooperação. “Parte da resiliência das cooperativas vem do exercício da intercooperação”, afirma. E, por fim, a agenda de compromisso com a comunidade. “Sermos instrumento da comunidade para melhorar a própria comunidade”, diz.

Alzimiro Thomé, presidente da Central Cresol Baser, comemora a evolução do sistema, fruto do planejamento estratégico iniciado há cinco anos. “A pandemia nos trouxe o desafio de inovar para ficarmos mais próximos dos associados. É preciso que os dirigentes estejam envolvidos com a sociedade, dispostos a ouvir as pessoas para poder atender às demandas. Um dever de casa de todos nós cooperativistas”, ensina.

Moacir Krambeck, presidente do Conselho de Administração da Central Ailos, concorda que o relacionamento é essencial para fortalecer e ampliar a cooperativa. “Dos 12 milhões de cooperados em todo o Brasil, poucos conhecem profundamente o cooperativismo de crédito. É preciso levar esse conhecimento à sociedade”, diz. Krambeck defende ainda mais intercooperação. Sugere que seja estudada uma forma de operar por uma estrutura única no futuro, que resultaria em redução de preços ao cooperado e permitiria maior capacidade de competição frente a outros sistemas financeiros. “Assim, nossas cooperativas vão crescer muito”, anseia.

José Maria de Azevedo, presidente do Conselho de Administração da Unicred Brasil, avalia que a pandemia levou à descoberta de novas ferramentas e formas de atender o cooperado, desde a qualidade do trabalho remoto à reavaliação sobre gastos com estruturas físicas. “Mas, precisamos investir em TI, o futuro das cooperativas passa pela TI”, assegura. E foi pensando nisso, que a Unicred inaugurou recentemente, em Porto Alegre, seu centro de tecnologia de informática. “Temos também que pensar formas de oferecer todos os produtos possíveis, como os bancos”, acrescenta. “O futuro chegou e estamos preparados para vivê-lo, com o aprendizado que a pandemia nos obrigou a adquirir”. 

A reinvenção do sistema financeiro e o papel do cooperativismo de crédito

A Quarta Revolução Industrial é um conceito que foi apresentado em 2016 pelo engenheiro e economista alemão Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial, e carrega a ideia de “gerar um mundo onde os sistemas de fabricação virtuais e físicos cooperam entre si de uma maneira flexível a nível global”. Ou seja, é marcada pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas que “transformará fundamentalmente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos”.

Daquele momento até hoje, essa onda de mudanças invadiu profundamente a sociedade e vem remodelando um dos seus setores mais importantes, o financeiro. Desburocratização, acessibilidade, imediatismo e agilidade foram alguns dos muitos fatores que impulsionaram a conexão do meio tecnológico com esse mercado tão essencial no dia a dia da população. Segundo o relatório Fintech na América Latina 2018, publicado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Brasil é o país da América Latina com maior número de fintechs. Um inegável fruto dessa quarta fase revolucionária.

A partir disso, muitas questões começaram a surgir de modo intenso e irrefutável. Qual o futuro do dinheiro em espécie? É realmente necessário existir ainda tantas agências bancárias físicas para realizarem transações que podem ser feitos de maneira online? E se os serviços pudessem ser resolvidos a qualquer momento através de um smartphone com atendimento de qualidade? Começou assim a se delinear uma estrutura financeira mais otimizada e que caminha em direção ao que tem surgido atualmente.

Em 2020, a pandemia, sem dúvidas, trouxe novas perspectivas e antecipou desafios. Se por um lado a crise escancarou problemas, por outro trouxe soluções que irão modificar radicalmente – e já estão modificando – a realidade que existia anteriormente. Mas o que esperar das transformações dos sistemas econômicos daqui para frente?

OPEN BANKING

Com a implementação gradual prevista para ter início no dia 30 de novembro de 2020 e término em outubro de 2021, o Open Banking tem encabeçado as discussões a respeito do futuro da economia brasileira.

Em nota oficial do Banco Central, o Open Banking tem como objetivo “aumentar a eficiência no Sistema Financeiro Nacional, mediante a promoção de ambiente de negócio mais inclusivo e competitivo, preservando sua segurança e a proteção dos consumidores. Em linha com a recém aprovada Lei de Proteção de Dados Pessoais, o Open Banking parte do princípio de que os dados bancários pertencem aos clientes e não às instituições financeiras. Dessa forma, desde que autorizadas pelo correntista, as instituições financeiras compartilharão dados, produtos e serviços com outras instituições, por meio de abertura e integração de plataformas e infraestruturas de tecnologia, de forma segura, ágil e conveniente”.

Ainda, será por meio do Open Banking que “clientes bancários poderiam, por exemplo, visualizar em um único aplicativo o extrato consolidado de todas as suas contas bancárias e investimentos. Também será possível, por este mesmo aplicativo, realizar uma transferência de recursos ou realizar um pagamento, sem a necessidade de acessar diretamente o site ou aplicativo do banco”.

Em evento da Uqbar (empresa referência em finanças estruturadas), o diretor de regulação do Banco Central, Otávio Damaso, declarou que o BC estudou o modelo em outros países para construir uma base de implementação no cenário brasileiro. “A vantagem de ter estudado a fundo experiências internacionais foi ver os desafios enfrentados em outros países. No Reino Unido, por exemplo, a experiência do cliente foi muito prejudicada porque tinham várias etapas de confirmação, eram cinco camadas de ‘ok’. O cliente acabava perdendo o interesse em participar do sistema. Percebemos o movimento e na regulação buscamos mitigadores para que no Brasil seja de forma segura e fluida”, acentua.

Simplificando, o Open banking, ou Sistema Financeiro Aberto, será uma plataforma pela qual o consumidor poderá compartilhar seus dados financeiros com outras instituições em busca de condições de crédito melhores. E, por mais que “o maior medo dos bancos seja perder a relação direta com seus clientes e que plataformas entrem no meio do caminho”, nas palavras do próprio diretor do BC, as instituições estão reagindo a esses processos para que a evolução do sistema aconteça com a participação de todos e, principalmente, o consumidor tenha condições de fazer a melhor escolha.

Outro ponto importante é que esse novo Sistema Financeiro acabará de vez com o monopólio dos bancos que, até então, tinham poder sobre os dados gerados a partir de interações e transações. Sendo assim, dialogando com a LGPD, o Open Banking busca devolver o poder sobre os dados pessoais financeiros aos seus verdadeiros donos, os clientes.

Portanto, o Open Banking não só abrirá inúmeras oportunidades para o mercado financeiro, como também tornará mais estruturado os serviços de pagamentos no Brasil. Além disso, essa nova regulamentação impulsiona o surgimento de novas iniciativas que vem entrando em destaque atualmente, as dos pagamentos instantâneos.

Um novo sistema chamado PIX

Atendendo às demandas e transformações constantes de mercado, novos produtos como o WhatsApp Payment e o próprio PIX, vem surgindo com a promessa de revolucionar o sistema financeiro. Esses novos métodos, que contam com a troca de dados entre instituições financeiras através de APIs (Interface de Programação de Aplicativos), estão surgindo porque o mercado brasileiro já está de olho nas oportunidades de novos negócios que o compartilhamento de informações irá possibilitar. Porém, o que esperar dessa nova era? 

Sendo considerado por muitos a maior transformação do sistema financeiro brasileiro dos últimos anos, o PIX se baseia em uma plataforma de pagamentos instantâneos e de transferências entre carteiras digitais, que vai funcionar 24 horas por dia a custo zero para o consumidor final e será uma nova maneira de realizar as transações financeiras digitalmente em até 10 segundos. Ou seja, é um novo sistema que poderá por fim no TED e no DOC, instrumentos usados atualmente pelos grandes bancos.

Desenvolvido pelo Banco Central, o lançamento oficial foi confirmado para dia 16 de novembro, porém os cadastros da Chave PIX – que consiste no registro de dados necessários para efetuar a transação (como banco, CPF, nome completo, número da agência e conta) – já tiveram início. De acordo com o Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, “o PIX é um instrumento que faz com que a gestão de fluxo de caixa atinja um novo patamar de eficiência. Menos custo significa mais margem [de lucro] para quem está de um lado e menos preço para quem está no outro”, afirmou no lançamento.

Abrindo portas para a possibilidade de criação de outros processos de inovação, esse novo sistema poderá ajudar em grande parte os pequenos e grandes negócios a reduzir suas despesas. E outro ponto importante a ser mencionado, é que o PIX permitirá que essas transações sejam feitas entre pessoas físicas, empresas e governo, de forma prática e segura.

Das 701 instituições já homologadas para entrar em operação no PIX – dados coletados até dia 16 de outubro -, 628 são cooperativas. Porém, mesmo sendo protagonistas desse novo movimento, ainda estão sendo pouco citadas.

De acordo com o Relatório de Economia Bancária de 2019, o BC frisou que as cooperativas fazem parte de um dos temas centrais da Agenda BC# e tem uma participação importante para melhorar a competitividade, a inclusão e a transparência no sistema financeiro nacional. Ou seja, apesar da participação do segmento ainda estar longe do ideal no mercado, o PIX pode permitir que as cooperativas cheguem com mais facilidade ao consumidor final, visto que vai permitir que elas, principalmente as de menor porte, não precisem se associar a bancos para viabilizarem suas operações.

Quando falamos no PIX, a substituição de outras transações tradicionais é apenas o começo e as cooperativas tem uma grande oportunidade, e capacidade, de competir no curto prazo com os grandes bancos pelo fato de já possuírem uma oferta mais ampla. Ainda, a distribuição das cooperativas tem uma presença significativa nas regiões mais distantes e a influência que elas exercem sobre determinadas comunidades, ou grupo de pessoas com interesses em comum, também é apontada como uma vantagem no panorama do PIX.

Nivelando o jogo, o PIX veio para abrir espaços e gerar mais movimentação no sistema financeiro e a implementação do Open Banking é um elemento decisivo nesse contexto. Porém, em um campo fértil para inovações, é ainda muito cedo para entender quem serão os vencedores dessa disputa.

Nos vemos em 2021, no dia 21 de outubro, para a próxima comemoração do Dia Internacional do Cooperativismo de Crédito! Até lá!


Por Fernanda Ricardi, Jady Mathias Peroni e Nara ChiquettiMatéria publicada na Revista MundoCoop, edição 96



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