Cooperativismo é com elas

Publicado em: 24 setembro - 2019

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Selecionamos cinco mulheres de destaque no cooperativismo para mostrar histórias de sucesso de gente que tem feito a diferença em suas regiões, negócios e produções

As mulheres de negócios do século 21 estão interessadas em fazer a diferença na vida das pessoas. Com preparo e forte atuação nas mais diversas áreas econômicas, as mulheres são protagonistas de histórias que inspiram e merecem ser contadas. No cooperativismo, são muitos exemplos de líderes empoderadas que, há muitos anos, trabalham para disseminar as ideias de sustentabilidade e cooperação para atingir objetivos maiores.

Este é o caso dessas cinco mulheres que apresentamos nesta reportagem. Em comum, elas têm histórias de grandes trabalhos em projetos de cooperativismo, seja no segmento de crédito, no campo produzindo café, nos pequenos negócios ou até mesmo na escola, aprendendo e se preparando para um futuro próspero.

O cooperativismo está no DNA delas, que se encantaram com o trabalho que beneficia muita gente e lideram, em suas regiões, negócios e projetos que fazem a diferença. Tanto fomentando os negócios de pequenas e microempresas, como na produção do café, na sala de aula ou ajudando os clientes a terem mais saúde. Conheça cinco grandes mulheres de cooperativas do Brasil e seus trabalhos inspiradores que representam e servem como exemplo a milhares de outras mulheres que estão engajadas no cooperativismo no Brasil:

1. PAIXÃO PELO COOPERATIVISMO

Solange Pinzon De Carvalho Martins, presidente do Conselho de Administração do Sicoob Meridional, cooperativa de Toledo (PR)

A história de Solange começou entre os comerciantes da cidade paranaense de Toledo. Desde jovem, recém-formada, atuou entre os empresários e iniciou na associação comercial local, entidade da qual foi presidente anos depois.

Hoje, ela preside o Conselho de Administração do Sicoob Meridional e não troca o cooperativismo por nada. “Depois que eu descobri o cooperativismo, algo despertou em mim. Conhecer seus benefícios, sua filosofia e sua proposta é encantador, que faz com que eu me realize, pois sabemos que estamos contribuindo positivamente para mudar a sociedade. É prazeroso demais ver um trabalho que muda a vida das pessoas para melhor”, diz a executiva.

Segundo a presidente, a cooperativa de Toledo iniciou com foco somente nos pequenos empresários, que ainda são o seu principal público, mas a expansão foi rápida. “Ficamos seis anos localizados em Toledo e depois expandimos para as cidades vizinhas que estão em nossa área. Depois, pedindo autorização ao Banco Central, tivemos autorização para sete agências no Rio Grande do Sul e, agora, mais duas em São Paulo”, explica Solange.

Apaixonada pelos princípios do cooperativismo, ela elenca com entusiasmo os motivos que estão atraindo o público e gerando o crescimento das cooperativas de crédito no Brasil: “O cooperado tem uma percepção de valor. Estamos praticando justiça financeira ao oferecer uma conta que não tem tarifa mensal, não tem anuidade no cartão e que cobra as menores taxas do mercado. Além disso, temos o trabalho social, com crianças, por meio das cooperativas mirins, e com o público geral. Somos um agente de educação financeira que ajuda a ensinar uma boa relação das pessoas com o dinheiro”, diz.

Para ela, as cooperativas de crédito ainda têm muito trabalho pela frente. O principal desafio é atrair os públicos jovens e estabelecer uma comunicação eficiente com essas camadas da população. “É um universo tão inspirador e que faz tanta diferença na vida das pessoas, que queremos levar esses benefícios para todos. Essa é uma das nossas novas missões e estamos felizes por realizar este trabalho”, conclui Solange.


2. UMA VIDA A SERVIÇO DO CRÉDITO PARA A SAÚDE

Maria Zélia Höhn, Diretora de Negócios da Unicred – Porto Alegre (RS)

A vida profissional dela se confunde com a própria história da Unicred em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, instituição que já conta com 16 agências e 16 mil associados, com foco exclusivo na área da saúde.

Maria Zélia Höhn foi uma das primeiras colaboradoras a ingressar na cooperativa, quando ela abriu as portas em 1994. De acordo com ela, a cooperativa especializada em crédito para a saúde, em seus primeiros dias, dependia da estrutura da Unimed, de onde foi derivada, e tudo era muito difícil. “Tínhamos uma inflação de 40% ao ano em 1994 e este foi o marco do início do Plano Real. Meu objetivo naquela época era fazer a captação de novos sócios que investissem para que a cooperativa utilizasse esses recursos para conceder crédito aos associados. Hoje, cuidados de 16 mil pessoas e nossa atuação não para de aumentar”, conta, com entusiasmo.

Formada em Gestão Empresarial, Zélia é pós-graduada em Cooperativismo e também em Marketing e Comunicação. “Um profissional da minha área precisa conhecer sobre o comportamento dos consumidores e foi por isso que minha formação foi por esse caminho”, explica a executiva. Hoje, ocupando o cargo de diretora de Negócios, ela acredita que o Brasil está pronto para o cooperativismo.  “Tenho certeza disso. Quando comecei a trabalhar em uma cooperativa agrícola, com 15 anos de idade, no interior, aquilo era muito inicial, muito embrionário. Hoje é um movimento respeitado, com presença nas grandes mídias e, principalmente, com muita atuação nos grandes centros urbanos. Hoje, quem é coop, é reconhecido e valorizado em todo o Brasil”, informa a diretora.

Segundo Zélia, atualmente, na Unicred, 64% dos cargos de chefia são ocupados por mulheres. “Isso acontece por um movimento natural, pela própria demanda dos trabalhos. Não estou defendendo gênero nem fazendo discurso feminista, até porque o princípio do cooperativismo é a igualdade. Mas as mulheres costumam ter muito êxito nas cooperativas, por causa de suas características, pela vontade de aprender e de buscar formação, e pelo instinto de ajudar as pessoas.

E ela acredita que o cooperativismo vai avançar ainda mais: “Eu acho que as pessoas vão continuar tendo a necessidade de educação financeira e de atendimento especializado e as cooperativas oferecem isso naturalmente. A tecnologia é uma ferramenta importantíssima para o sistema financeiro, mas sempre haverá a necessidade de uma aproximação maior com as pessoas para seu crescimento pessoal e profissional. Acho que o cooperativismo navega muito bem nesta nova onda e as perspectivas são muito boas. Sou muito feliz fazendo o que faço e quero dividir isso com as outras pessoas”, conclui a diretora da Unicred.


3. A FORÇA ACADÊMICA EM PROL DA SUSTENTABILIDADE

Camila Luconi Viana, pesquisadora acadêmica e professora universitária de sustentabilidade e cooperativismo

Uma estudiosa do cooperativismo, Camila Luconi Viana tem, entre suas diretrizes de trabalho e de vida, fazer o bem por meio dos negócios. Foi por isso que largou sua carreira na indústria para abraçar o cooperativismo. Ao estudar o modelo, se apaixonou e buscou a carreira acadêmica para entender melhor tudo isso. Ela é Mestre em Gestão e Negócios pela Unisinos e tem Master em Gestão pela Universitè de Poitiers (França),

“Meu encontro com o cooperativismo se deu porque eu sempre trabalhei com sustentabilidade e com a área social. Antes eu trabalhava em uma indústria e eu queria gerar um impacto positivo na sociedade e foi por isso que eu fui para o cooperativismo. Tive a oportunidade de trabalhar com sustentabilidade no mundo das cooperativas. O que despertou minha paixão pelo cooperativismo foi o impacto positivo para as comunidades, ajudar as pessoas que precisam e que não têm oportunidade de ser cliente de uma instituição financeira. Fui vendo que o cooperativismo em geral faz com que as pessoas se unam, não em volta dos lucros, mas, sim, de mais qualidade de vida, melhores oportunidades para todos e isso fez total sentido para mim”, diz a pesquisadora.

Camila estuda os movimentos disruptivos digitais, como a economia compartilhada e novos modelos de negócios digitais. “Vejo empresas gigantes como Uber e Airbnb se vendendo como empresas de economia compartilhada. Mas são grandes corporações, pertencem a um grupo muito pequeno de pessoas. Isso, em minha concepção, não é ser compartilhado. Existem exemplos de cooperativismo de plataforma que mostram que até nos negócios digitais de hoje, é possível trabalhar em conjunto com as pessoas, com todos sendo os donos do negócio e gerando valor para todos. Um bom exemplo é  a Stocksy, cooperativa de fotógrafos que está em 65 países ao mesmo tempo gerando novos motivos para as pessoas se juntarem. Cooperativismo não é mais um movimento apenas regional. Graças à tecnologia, é global. O meio digital une as pessoas”, diz Camila.

Fascinada pela expansão das cooperativas de crédito pelo Brasil, ela comemora: “Hoje, vemos que as cooperativas de crédito estão deixando de ser algo exclusivamente local e rural para migrar para os grandes centros. As ferramentas digitais, a rapidez dos serviços e a especialização do atendimento está ajudando as cooperativas a se integrarem nos meios urbanos e atender às necessidades desses novos clientes. Estamos no caminho certo”, finaliza a pesquisadora.


4. MULHERES PRODUZINDO CAFÉ DE PRIMEIRA

Simone Aparecida Miranda Lourenço, líder na Coocafé – Lajinha/MG

Ela trabalha nos terreiros de secagem de café nos campos de Minas Gerais e cria três filhos com o sustento que vem da terra. Simone Lourenço é uma das líderes dos Núcleos de Mulheres da Coocafé, cooperativa de produtores de café de Lajinha, em Minas Gerais.

“Conheci a cooperativa há cerca de 10 anos e sou associada há 8. Conheci por meio de um de nossos patrões, produtor de café, que nos mostrou o trabalho da cooperativa e seus projetos na região, principalmente porque eles valorizam o trabalho das mulheres”, conta, orgulhosa, a produtora.

Há cerca de sete anos, a cooperativa criou os Núcleos de Mulheres para que as trabalhadoras pudessem ter acesso a treinamento e informações especializadas para aumentar a qualidade do café. “Antes, o trabalho era simples e duro, mas, com as novas técnicas que aprendemos por causa da cooperativa, temos mais especialização e estamos diferenciando nosso café da commodity para um café mais refinado, de grande qualidade. Muitas mulheres fazem trabalho manual de colheita de café na lavoura e também nos terreiros de secagem. Com a cooperativa, a gente tem mais amor ao trabalho”, conta Simone.

Segundo a cafeicultora, a cooperativa faz toda diferença na vida das mulheres do café. Ela conta que, antes dos grupos existirem, era muito comum que viúvas de trabalhadores ou produtores de café vendessem tudo para ir embora e largar a vida no campo. “A cooperativa incentiva as viúvas a se manterem na produção e a aprender a produzir um café ainda melhor. A cooperativa ajudou a melhorar muito a minha vida. Como sempre gostei de estar na liderança na minha comunidade, fui chamada para trabalhar e, além de aprender muito e melhorar meu trabalho, eu ajudo a melhorar a vida de outras mulheres.

A Coocafé mantém quatro Núcleos de Mulheres em Minas Gerais e Espírito Santo. Neles, as mulheres têm acesso a cursos de técnicas de produção, educação financeira, motivação e refinamento profissional. “A mulher tem mais carinho, mais atenção e cuidado no que faz. Faz as coisas com mais delicadeza. Por isso eu acho tão importante trabalhar esses núcleos. Quando começamos, o café produzido pelas mulheres não tinha nenhum destaque, mas, hoje, é um café diferenciado e procurado pelos compradores”, conta. O resultado? Hoje, as mulheres da região de Lajinha estão mostrando sua força: estão registrando em cartório a Associação das Mulheres Produtoras de Café, AMUC, que representa 63 municípios. “E, com isso, a gente espalha as boas práticas por aí”, conclui Simone.


5. A MAIS JOVEM PRESIDENTE DE COOPERATIVA DO BRASIL

Aneli Joaquim, presidente da Cooperativa Escolar do Cemef, em Teutônia, RS

Os bancos das escolas, certamente, são um ambiente propício para a descoberta de vocações, para se preparar para uma vida profissional e para o despertar de talentos. O caso da menina Aneli Joaquim, de 12 anos, é um grande exemplo disso.

Aneli é a mais jovem presidente de cooperativa do Brasil. Ela é a líder da Cooperativa Escolar do Cemef – Centro Municipal de Ensino Fundamental Leonel de Moura Brizola, a Coopemef, de Teutônia (RS).

E, apesar da tenra idade, Aneli já é uma celebridade no meio cooperativista gaúcho. No ano passado, ela ficou conhecida por participar da cerimônia de entrega do Prêmio Ocergs de Cooperativismo 2018, que concedeu, na ocasião, o Troféu Padre Theodor Amstad ao presidente da Cooperativa Santa Clara, Rogério Bruno Sauthier, pelos relevantes serviços prestados ao cooperativismo.

As Cooperativas Escolares são um tipo de laboratório de aprendizagem do cooperativismo onde os alunos se tornam os protagonistas de uma cooperativa de verdade formada por estudantes associados que praticam os princípios do cooperativismo, conduzindo e administrando a cooperativa, desde a escolha do produto que será comercializado, até a elaboração do estatuto, eleição de diretoria e conselhos, e organização de assembleias. Atualmente, no Rio Grande de Sul, existem mais de 100 cooperativas escolares presentes em 43 cidades gaúchas e uma federação.


Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 89 – Texto: Leonardo Andrade



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