Cooperativismo resolve desigualdades

Publicado em: 31 agosto - 2018

Leia todas


Em um ano marcado por eventos que geram turbulência, como Copa do Mundo e eleições, pleno de feriados prolongáveis, e com temas substantivos preenchendo a pauta do Legislativo e do Judiciário, será necessária muita atenção por parte de todos os brasileiros no sentido de pensar no Brasil, olhar para o futuro com a convicção de que elegendo gente correta, comprometida e fundamentalmente determina a corrigir erros de séculos é que sairemos da crise, reencontrando a economia com a política de maneira positiva. É preciso olhar com critério os candidatos a presidente, governadores, deputados e senadores porque sempre há um melhor do que o outro”. Essa reflexão é compartilhada com todos os cooperativistas por Roberto Rodrigues, um dos principais divulgadores do cooperativismo brasileiro, posição que o levou, entre outras, a ser o primeiro não-europeu a presidir a Aliança Cooperativa Internacional (ACI), de 1997 a 2001, e merecer o título de embaixador da ONU para Alimentação e Agricultura da FAO para o cooperativismo mundial.

Definindo o momento atual como “de extrema delicadeza política”, o ex-ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (de 2003 a junho de 2006), e coordenador do Centro de Agronegócio da FGV/EESP alerta para o fato de que “se a economia vem dando sinais positivos de recuperação, muito deve ser creditado às cooperativas, sobretudo às agropecuárias e de crédito.

As primeiras, por contribuírem diretamente com as grandes safras; e as de crédito devido ao fato de, por exemplo, atuarem com juros baixos. É preciso que os gestores das cooperativas estejam atentos para o papel que essas instituições vêm desempenhando na recuperação da economia e, assim, fortalecer o movimento, sempre atentos ao fato de que a cooperativa, por definição doutrinária e legal, não pode ter opção política partidária, mas deve ser politicamente neutra”.

A doutrina equaciona o presente.

A cooperativa é um instrumento da doutrina cooperativista, e, como tal, serve para corrigir o social através do econômico. Essa definição somada ao momento presente, em que o maior problema social do Brasil contemporâneo é o desemprego, permite, com facilidade, projetar crescimento significativo do cooperativismo nos próximos anos, oferecendo a inclusão para quem está fora do mercado.

Nesse contexto, prevê que três ramos serão diretamente beneficiados: o Trabalho que, por seus objetivos fundamentais, deve ter importante avanço; o Agropecuário, de longe o mais destacado ramo do cooperativismo brasileiro, e o crédito, que vem se desenvolvendo com solidez e representatividade.

No caso do Agronegócio, dois cenários desenham-se, na visão de Rodrigues. O primeiro é que com as margens cada vez mais apertadas por unidade de produto, a renda do produtor depende de escala em praticamente todos os produtos com que o Brasil trabalha. O segundo relaciona-se com os avanços tecnológicas via startups, universidades e centos de pesquisa, que geram tecnologias disruptivas capazes de produzir resultados importantes, mas que somente serão incorporadas pelo grande produtor, que tem equipe técnica para buscar as informações, traduzi-las para ações concretas e aplicá-las na atividade rural, ou seja, médios e pequenos produtores não poderão sequer ter acesso a essas informações, e isso poderá gerar um abismo entre pequenos, médios e grandes produtores.

“A concentração que pode derivar dessa dificuldade em os médios e pequenos produtores incorporarem as tecnologias disruptivas é indesejável em um País que precisa do pequeno produtor para garantir a estabilidade do campo”, comenta o embaixador especial da FAO.

No caso do cooperativismo de crédito, que hoje responde por 17% do credito rural, a tendência – para o coordenador da GVAgro – é de crescimento dessa participação, uma vez que “o crédito oficial tende a diminuir por conta de demanda de outros segmentos e de dificuldades do governo”.

Para todos esses cenários que afetam diretamente o pequeno produtor rural, Rodrigues aponta a solução, ao afirmar: “Não vejo outra forma de acessar os pequenos e médios produtores que não seja via cooperativa. A escala e as novas tecnologias devem privilegiar as cooperativas. A cooperativa é a única – e não uma – alternativa”.

Comunicação: ainda o elo fraco

O conhecimento de todos esses benefícios relatados por Roberto Rodrigues, no entanto, não é de domínio público, ao contrário: a imagem do cooperativismo para a grande maioria da população brasileiro, é no mínimo dúbia. Para ele, na realidade, “há uma noção negativista decorrente da comunicação negativa, com uma certa contaminação ideológica”, informa, alegando que “o resultado positivo, aquele que envolve inclusão e mitigação da concentração de renda, não é conhecido”.

Exemplos para isso não faltam e são resumidos, pelo líder cooperativista, sem citar nomes, no seguinte quadro: “Se uma cooperativa quebra por problemas financeiros, logo surgem as aves de mau-agouro dizendo que o cooperativismo não presta. Se um banco quebra por fraude, por exemplo, ninguém diz que o sistema financeiro não presta”, constata, cobrando a necessidade de “uma comunicação do que são cooperativas e cooperativismo traduzida para o setor e para a sociedade de uma maneira geral, inclusive para a mídia, equacionando, assim, um problema histórico”.

Mulher e TV: os alvos.

A campanha SomosCoop, do Sistema OCB – para Rodrigues –  gerará ganhos, “mas o mecanismo ideal é uma campanha permanente e maciça na TV, focada na mulher, que é quem tem de perceber, sentir e compreender o sentido econômico da cooperativa, porque é a gestora da economia no lar em toda família brasileira e em muitos outros países. Temos de acessar a mulher, em todo o território nacional, falando para ela sobre a importância em entender o cooperativismo em seu dia a dia. A hora em que isso for feito, o cooperativismo deslancha no Brasil e atinge patamares próximos aos dos outros países”.

A solução do ex-presidente do Sistema OCB e da ACI é a de “misturar a imagem da instituição com o produto de qualidade”, preceitua e alerta: “Para isso, precisamos separar o joio do trigo, ou seja, é preciso eliminar as cooperativas que são falsas ou indesejáveis. Só assim o movimento cooperativista ocupará o espaço que lhe cabe no território nacional. Hoje, apenas 20% da população brasileira relaciona-se com cooperativas, o que é praticamente 1/3 da média mundial”.


Texto Katia Penteado

 

 

 



Publicidade