Cuidado com as doenças funcionais

Publicado em: 29 julho - 2019

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Prevenir doenças associadas à repetições de movimentos é mais eficiente e, sobretudo, mais produtivo, que tratar

Fazer movimentos repetitivos não é natural para o ser humano. Nos tempos remotos, jamais fazíamos nada nem sequer parecido com isso. Para sobreviver, os humanos permaneciam constantemente andando, correndo, caçando e, via de regra, fugindo de seus predadores. Passamos milhares de anos deste jeito até que, há pouco mais de dois séculos, a Revolução Industrial nos apresentou algo até então inédito a nossos corpos: a repetição de um mesmo movimento por horas a fio. 

Para o progresso foi ótimo, já para nosso corpo, talhado há milhares de anos para uma atribulada vida em movimentos aleatórios, foi um desastre. Os algoritmos biológicos entraram em colapso. E o resultado são doenças conhecidas como a LER (lesão por esforço repetitivo), também chamada de DORT (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho), e ainda, inclusive, alterar a sua capacidade funcional.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, mostrou que em 2013, 3.568.095 (2,29%) trabalhadores apresentavam diagnóstico de LER/DORT. 

A lesão pode ser causada por diferentes fatores, desde repetições, fazendo a mesma atividade durante um longo período de tempo sem descanso, atividades forçadas (cargas de trabalho muito rápidas e excessivas), má postura, um espaço de trabalho projetado não ergonomicamente, fadiga ou posicionamento desajeitado, todos relacionados ao uso excessivo de um grupo específico de músculos ou a uma parte específica.

Além disso, apresenta variedade de sintomas que podem ser de leves a graves, e geralmente se desenvolvem gradualmente. No entanto, a maioria das lesões incluirá dor ou sensibilidade da articulação, tendão ou músculos afetados, formigamento, perda de força, sensação latejante na área afetada, sensação de calor/ queimação, perda de sensibilidade. Sem tratamento, os sintomas da LER podem se tornar constantes e causar períodos mais longos de dor.

 As repercussões das doenças ocupacionais, dentre elas a lesão por esforço repetitivo quando negligenciadas, são muito impactantes tanto para a vida do trabalhador como para a empresa. As pessoas em plena idade produtiva, vistas dentro de sua família e no círculo social como fortes e “produtivas”, se veem em situações de vulnerabilidade extrema, encontram dificuldade para continuar a trabalhar e frequentemente apresentam sofrimento e transtornos psíquicos. “O principal efeito da negligência para as empresas é sua imagem corporativa, quando os problemas têm visibilidade social, especialmente na grande mídia” afirma Maria Maeno, médica e pesquisadora do Fundacentro. 

A Pesquisa Nacional de Saúde mostrou ainda que com relação às limitações das atividades diárias causadas pela DORT, como dificuldades em trabalhar, ir ao trabalho, realizar afazeres domésticos e de autocuidado, como vestir-se e tomar banho, quase 16% dos entrevistados referiram que elas eram intensas ou muito intensas.

Perigos da vida moderna

Os dispositivos móveis estão entre as tecnologias mais usadas no mundo atual de trabalho. As empresas estão usando cada vez mais smartphones, Kindles, tablets com tela sensível ao toque e laptops para facilitar suas práticas de trabalho. Avanços tecnológicos estão permitindo uma nova geração de trabalhadores virtuais. O trabalho de escritório em breve será uma coisa do passado, já que agora as pessoas podem trabalhar em qualquer lugar usando dispositivos móveis. 

Na opinião do médico Edgard N. França Bisneto, doutor em Ortopedia e Traumatologia pela FMUSP e membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão “as transformações no mercado de trabalho, juntamente com novas tecnologias de comunicação, tornaram os trabalhadores onipresentes, isto é, sempre estão de algum modo ligados à sua atividade profissional. Essa exigência contínua de trabalho, facilita, para aquelas pessoas predispostas, a desenvolver doenças relacionadas a esforços em movimentos repetitivos”, afirma ele. 

Não se pode negar que a revolução tecnológica remodelou as formas convencionais de trabalho, assim como mudou a forma de encará-lo. Competitividade, produtividade e manutenção do emprego tornou-se tão ou mais importante que a satisfação, o que acaba aumentando os níveis de angústia e ansiedade e a pessoa se nega o direito a uma pausa a fim de desopilar. 

Esse conjunto de fatores, sem levar em conta os trabalhadores e seus limites físicos e psicossociais, impossibilitando manifestações de criatividade e flexibilidade, pode explicar a epidemia mundial relacionada às dores do sistema musculoesquelético relacionados ao trabalho. Logo, as mudanças na organização do trabalho, ou seja, na divisão do trabalho, conteúdo das tarefas e seu modo de execução, bem como fatores biomecânicos e ambientais podem favorecer o aumento da ocorrência das LER/DORT. 

Segundo Maria Maeno, “as LER tiveram o seu auge de ocorrências na década de 1990/2000 em vários ramos econômicos, em decorrência da intensificação do trabalho, expressa na aceleração do ritmo imposta aos trabalhadores que exerciam sua atividade laboral executando movimentos repetitivos e mantendo posturas determinadas por tempo prolongado. O cenário atual é de aprofundamento dessas características para os trabalhadores”.

A ocorrência de doenças relacionadas ao trabalho (LER/DORT) não são apenas um resultado dos riscos presentes no ambiente laboral, mas também estão relacionadas a “predisposição individual, herdada dos pais”, diz Bisneto. Isso ocorre porque a combinação do nível específico de exposição aos fatores de risco, moduláveis em intensidade, frequência e duração, ou seja, quanto mais intensos, frequentes e duradouros, tanto mais elevado o risco, e os atributos pessoais do trabalhador (por exemplo: idade, sexo, saúde geral) podem aumentar a suscetibilidade ao desenvolvimento de uma lesão. 

Os tecidos musculoesqueléticos têm tolerância dentro da qual podem trabalhar com segurança, até que sua capacidade esteja sobrecarregada. Quando os tecidos superam sua capacidade de trabalhar com segurança, isso os coloca em risco de desenvolvimento de lesões.

O tratamento

Não espere até que a dor e a perda funcional sejam graves. Em outras palavras, se a dor e a perda da função estiverem limitando suas atividades, é vital procurar ajuda de um profissional treinado antecipadamente e gerenciar proativamente as condições de trabalho que levaram ao adoecimento. A LER geralmente é muito receptiva ao tratamento em seus estágios iniciais. “Depois de instalada e cronificada, o tratamento é difícil e, além do afastamento de atividades com as características daquelas que determinaram o adoecimento é necessária uma abordagem interdisciplinar, integrada. Medicamentos, terapias integrativas e complementares, fisioterapia, terapia ocupacional e suporte psicológico têm se mostrado úteis” Afirma Maria.

 A PNS investigou sobre processos terapêuticos e de reabilitação e observou que 906.363 pessoas, o que equivale a 25,40% dos entrevistados, realizam ou realizaram algum tipo de exercício e/ou fisioterapia para minimizar os efeitos da LER/DORT, e quase 35% (1.247.300) deles usaram ou fazem uso de tratamento com injeções ou medicamentos pelos mesmos problemas.

Prevenção da doença ocupacional

Minimizar o risco de incorrer em uma LER, entendendo os princípios básicos de um bom posicionamento (por exemplo, sentar, ficar de pé, dobrar) pode ser um bom caminho. A falta de ergonomia no local de trabalho pode prejudicar seriamente a riqueza da empresa. Evitar lesões é mais barato do que fazer alterações e correções após um dano ter ocorrido.

A aplicação de princípios de ergonomia no local de trabalho pode reduzir fatalidades, lesões e distúrbios de saúde, bem como melhorar a produtividade e a qualidade do trabalho. A ergonomia é a ciência da adequação das condições do local de trabalho e das demandas à capacidade da população trabalhadora e tem por objetivo reduzir o estresse e eliminar lesões e distúrbios associados ao uso excessivo de músculos, má postura e tarefas repetidas. 

Para Bisneto, “a ergonomia do local de trabalho é um ponto importante, alongamentos intercalados durante a jornada e fundamentalmente atividade física regular, de preferência atividade aeróbica” ajudam a evitar o risco de LER.

Segundo a pesquisadora da Fundacentro, o poder de determinar como a atividade do empregado deve ser exercida está nas mãos da própria empresa, e destaca, aquelas que buscam soluções na esfera individual só se mostram efetivas se levarem em consideração mudanças no processo de trabalho que valorizem o respeito às características, à diversidade e aos limites humanos, de valorização do trabalho e alcançar níveis de  produtividade dentro de valores que coloquem a vida acima dos interesses financeiros.

O tratamento

Não espere até que a dor e a perda funcional sejam graves. Em outras palavras, se a dor e a perda da função estiverem limitando suas atividades, é vital procurar ajuda de um profissional treinado antecipadamente e gerenciar proativamente as condições de trabalho que levaram ao adoecimento. A LER geralmente é muito receptiva ao tratamento em seus estágios iniciais. “Depois de instalada e cronificada, o tratamento é difícil e, além do afastamento de atividades com as características daquelas que determinaram o adoecimento é necessária uma abordagem interdisciplinar, integrada. Medicamentos, terapias integrativas e complementares, fisioterapia, terapia ocupacional e suporte psicológico têm se mostrado úteis” Afirma Maria.

 A PNS investigou sobre processos terapêuticos e de reabilitação e observou que 906.363 pessoas, o que equivale a 25,40% dos entrevistados, realizam ou realizaram algum tipo de exercício e/ou fisioterapia para minimizar os efeitos da LER/DORT, e quase 35% (1.247.300) deles usaram ou fazem uso de tratamento com injeções ou medicamentos pelos mesmos problemas.

Prevenção da doença ocupacional

Minimizar o risco de incorrer em uma LER, entendendo os princípios básicos de um bom posicionamento (por exemplo, sentar, ficar de pé, dobrar) pode ser um bom caminho. A falta de ergonomia no local de trabalho pode prejudicar seriamente a riqueza da empresa. Evitar lesões é mais barato do que fazer alterações e correções após um dano ter ocorrido.

A aplicação de princípios de ergonomia no local de trabalho pode reduzir fatalidades, lesões e distúrbios de saúde, bem como melhorar a produtividade e a qualidade do trabalho. A ergonomia é a ciência da adequação das condições do local de trabalho e das demandas à capacidade da população trabalhadora e tem por objetivo reduzir o estresse e eliminar lesões e distúrbios associados ao uso excessivo de músculos, má postura e tarefas repetidas. 

Para Bisneto, “a ergonomia do local de trabalho é um ponto importante, alongamentos intercalados durante a jornada e fundamentalmente atividade física regular, de preferência atividade aeróbica” ajudam a evitar o risco de LER.

Segundo a pesquisadora da Fundacentro, o poder de determinar como a atividade do empregado deve ser exercida está nas mãos da própria empresa, e destaca, aquelas que buscam soluções na esfera individual só se mostram efetivas se levarem em consideração mudanças no processo de trabalho que valorizem o respeito às características, à diversidade e aos limites humanos, de valorização do trabalho e alcançar níveis de  produtividade dentro de valores que coloquem a vida acima dos interesses financeiros.


Por Marcela Langer Noschang – Matéria publicada na Revista MundoCoop, edição 88



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