Desafios da educação

Publicado em: 12 dezembro - 2018

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Alternativa para a educação pública deficitária e para os altos valores das mensalidades nas escolas particulares, o cooperativismo educacional vem ganhando força e fazendo a diferença

O Brasil tem uma das maiores porcentagens de adultos sem ensino médio. Entre os adolescentes de 15 a 19 anos, 31% deixaram a escola; e entre os de 20 e 24 anos, são 71%

Dados do relatório Education at a Glance 2018, publicado no final de setembro pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), mostram que o investimento do Brasil em educação está bem abaixo do que se vê nos 35 países membros da instituição. Em educação infantil, que engloba crianças até cinco anos, por exemplo, são aplicados apenas US$ 3,8 mil por estudante/ano. Em termos de inclusão, os resultados também não são satisfatórios: o País registrou uma das maiores porcentagens de adultos sem ensino médio; entre os adolescentes de 15 a 19 anos, 31% deixaram a escola; e entre os de 20 e 24 anos, são 71%.

Há muito que o Brasil vive essa crise educacional, que não se resume apenas a investimentos e inclusão. Problemas com as metodologias aplicadas, e as diversas mudanças no decorrer dos últimos 30 anos, também afetam a qualidade do ensino e a atratividade das escolas, especialmente nas regiões mais carentes em que adolescentes precisam trabalhar para colaborar com o sustento da família. Nessas situações, a evasão escolar acaba sendo quase inevitável. De acordo com a professora Janaína Spolidorio, empreendedora do site e e-commerce ‘Por uma educação melhor’, no artigo intitulado Por que o Brasil não alfabetiza?, temos um carnaval de métodos com poucos resultados, a formação de educadores é muito longe da realidade – afinal, se ele não vai a campo, dificilmente entenderá o que se passa – e o interesse do governo em realizar mudanças efetivas e eficientes é pequeno. “Temos um potencial criativo fantástico e ainda assim não avançamos. Nossos políticos não são sérios e a população faz graça de sua própria desgraça. Cada vez mais somos menos capazes de fazer as coisas, somos menos levados a sério e temos pessoas mais críticas, porém com uma criticidade desnecessária, importando-se com fatores que são de mínima relevância, criando caso com pouco e deixando de lado outros pontos que seriam imprescindíveis para um país melhor. Este é o exato retrato de um Brasil que foi meticulosamente moldado pelo governo – e também por instituições privadas”, comenta ela durante seu texto.

O fato de que as coisas precisam mudar está claro. E algumas tentativas estão sendo feitas para isso, a exemplo da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e da Lei 13.415/2017, que estabelece diretrizes e bases da educação nacional. Mas definir rumos sem uma posterior avaliação de seus efeitos também não será efetivo. Além disso, é preciso considerar que as crianças e os adolescentes de hoje aprendem de forma diferente das gerações anteriores, pois têm a informação à disposição e a um clique nos diversos sites de buscas, mas na maior parte das vezes não sabem interpretá-las, pois isso não está sendo ensinado. Na opinião do antropólogo e psicólogo Roberto Crema, reitor da Unipaz (Universidade Internacional da Paz), o papel das instituições de ensino tem sido questionado em função do conceito de educação hoje predominante no País, uma vez que a escola transfere ao aluno conhecimentos técnicos em diversas áreas, que abrirão portas para o sucesso profissional, mas não ensina valores fundamentais que os ajudem a formar uma sociedade mais justa, ética e igualitária e os tornem capazes de tirar lições positivas de situações negativas.

Educação para todos

“As mudanças na BNCC se aplicam a todas as escolas, por isso as cooperativas educacionais estão preparadas para fazer frente à essa demanda, inclusive, indo além. Por serem escolas particulares, e concorrerem neste mercado, a BNCC torna-se o mínimo que uma cooperativa educacional pode oferecer.” A declaração da gerente técnica da OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), Clara Maffia, reforça um dos pontos primordiais do cooperativismo: uma filosofia de vida que busca transformar o mundo em um lugar mais justo, feliz, equilibrado e com melhores oportunidades para todos.

Foi desse conceito que nasceram as cooperativas educacionais. Hoje, elas são quase 300 em todo o território brasileiro, somando mais de 53 mil associados e de 3,3 mil empregados. “Associado a isso, essas instituições têm o potencial de levar para a sociedade os princípios e os valores do cooperativismo, pois os alunos, desde cedo, entram em contato com a cultura da cooperação, replicando para suas famílias. Este processo beneficia todo o sistema, pois abre a possibilidade para os alunos se tornarem clientes/cooperados de outras cooperativas, fortalecendo o movimento como um todo”, ressalta Clara. Outro ponto positivo é que o elevado preço das escolas privadas e a carência do ensino público têm feito destas uma opção cada vez mais difundida no Brasil.

Clara MafFia, da OCB: muitas vezes nos deparamos com escolas cooperativas, mas não conseguimos identificar por elas não trabalharem o cooperativismo em sua identidade

Compostas por pais, professores ou alunos, as cooperativas de educação associam em seu sistema pedagógico o ensino forte, capaz de preparar a garotada para o vestibular, com a formação de cidadãos éticos, de valores sólidos e senso de justiça. “Apesar de questões mais específicas do negócio, como a pedagogia, serem trabalhadas em cada instituição de forma que atenda às necessidades da comunidade, todas seguem e respeitam as diretrizes do MEC [Ministério da Educação]”, esclarece a gerente da OCB, completando que, assim como nos demais ramos, essas cooperativas contam com as ferramentas oferecidas pelo Sescoop (Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo) para melhoria de gestão (PDGC – Programa de Desenvolvimento da Gestão das Cooperativas), conformidade legal (PAGC – Programa de Acompanhamento da Gestão das Cooperativas), além de diversos cursos com foco nos conceitos do sistema.

Outro ponto importante a se destacar é que a cooperativa educacional tem o papel de mantenedora da escola. Ou seja, independentemente da sua origem de formação, deve haver um bom corpo docente e uma competente equipe de direção pedagógica. O diferencial é que os cooperados, sejam pais ou professores, têm a oportunidade de participar do conselho pedagógico, ajudando a decidir o melhor método de ensino, as atividades extracurriculares mais adequadas, o necessário para uma aprendizagem de qualidade, melhorias em infraestrutura e material, entre outras decisões fundamentais.

Da mesma forma, é interessante ressaltar que os pilares do cooperativismo vão ao encontro da aprendizagem socioemocional, competência que passou a ser obrigatórias na BNCC. “Observando o mercado, percebemos que todas as habilidades exigidas por grandes empresas não são apenas conceitos da profissão, são também socioemocionais, como agilidade, proatividade, resolução de problemas, capacidade de negociação, comunicação e planejamento, além de liderança e trabalho em equipe”, ressaltou Mario Ghio, presidente da holding Saber, durante o evento Tendências da Educação 2019, organizado pelo Programa Semente. O executivo afirmou, ainda, que a importância de desenvolver a aprendizagem socioemocional nas escolas brasileiras é fundamental para acompanhar as tendências da educação e manter crianças e adolescentes nas instituições de ensino. “Se as escolas não se atentarem ao tema, não haverá alunos, pois no futuro elas perderão o caráter instrucional para se tornarem ambientes de aprendizagem colaborativa e de relacionamento.”

A opinião de Ghio é compartilhada por Pedro Cunha, consultor pedagógico da Explorum, startup que criou um processo dinamizado de aula para professores e alunos, unindo alta tecnologia, atividades colaborativas e processos de construção de projetos com base em prototipação. “Ter mais acesso a informação não significa ter mais conhecimento. Para que os dados se transformem em conhecimento, também é necessário desenvolver habilidades, atitudes e valores que tornem a pessoa competente para utilizá-los de maneira adequada, crítica e reflexiva”, comenta. “Além disso, com o avanço das tecnologias digitais, o ciclo do conhecimento é cada vez mais curto, tornando-se mais relevante o domínio de habilidades ligadas à inovação do que o acúmulo de informações.”

O problema do atraso

Recente estudo realizado pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), a agência da ONU (Organização das Nações Unidas) que apoia importantes transformações na área da infância e da adolescência, apontou que mais de sete milhões de estudantes brasileiros estão em situação de atraso escolar de dois ou mais anos. São quase cinco milhões no ensino fundamental e mais de dois milhões no ensino médio. O documento Panorama da distorção idade-série no Brasil, faz um diagnóstico do atraso escolar por etapa de ensino na educação básica, por cor, raça e gênero, por regiões brasileiras, áreas rural e urbana e outros recortes territoriais, e também analisa a situação de crianças e adolescentes com deficiência. “Estar na escola não é suficiente. Garantir o direito à educação significa ofertar oportunidades reais de aprendizagem relevante para todos, sem deixar ninguém para trás. Os mais afetados pelo atraso escolar são meninas e meninos vindos das camadas mais vulneráveis da população, já privados de outros direitos. Por isso, é urgente desenvolver estratégias específicas para alcançar esses diferentes grupos populacionais”, enfatizou a representante do Unicef no Brasil, Florence Bauer, na ocasião do lançamento.

Essa é uma discussão essencial para os governos que assumem o mandato no dia 1º de janeiro do próximo ano, pois é a única forma de o Brasil crescer econômica e socialmente. O estudo da Unicef aponta caminhos para reverter o cenário que imobiliza milhões de crianças e adolescentes em um ciclo de fracasso escolar e sugere estabelecer políticas públicas específicas para enfrentar a situação – com foco nos mais vulneráveis –  e desenvolver propostas pedagógicas de atenção especial a estudantes em risco de fracasso e abandono escolar.



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